1 de nov. de 2008

Certeza pra dentro

Eu gosto desse lugar que retorno sempre que a dose de incerteza ultrapassa o limite. Não existe limite para incerteza, eu sei. Posso beber uma garrafa cheia dessa incerteza destilada. Ainda assim, o pequeno espaço que deixo reservado a lucidez, não no sentido cafona, mas no sentido embrionário - luz - onde a consciência é tão poderosa que com um pouquinho dela conseguimos ter noção de todo o mar de incerteza que estamos embriagados.

Quando essa pequena luz falta, é nesse lugar que retorno. O movimento de chegar até aqui é doloroso, não deixa nada passar em vão, a incerteza questiona meu sapato, minhas compras, minhas escolhas, meu rosto, vasculha minha memória e não deixa nada intacto. Mas quando chego nesse lugar, deixo de sentir raiva de mim, ou melhor, raiva da incerteza. Sento numa poltrona vermelha, que é a mesma desde os tempos da escola, quando eu vinha aqui inseguro por ainda não saber amarrar o cadarço do sapato. Quando sento nessa poltrona vermelha, é como se a luz, uma lucidez mágica me permitisse compreender inclusive minhas incertezas. Observo sua voracidade em questionar tudo com um semblante quase ancião. Talvez eu estivesse em outro lugar, fazendo outras coisas, não fossem minhas incertezas, não fosse esse lugar que venho de tempos em tempos, quando ela me embriaga. Isso é claro pra mim: retornar a essa poltrona vermelha não deixa de ser um retrocesso, alguns passos pra trás que dou. Ninguém é plenamente corajoso. Mas sei que se eu parasse menos para indagar minha própria ousadia, eu estaria adiante. Só que não me interessa mais estar adiante. Porque não serei eu. A incerteza é minha parceira mais fiel. E nesse vendaval de conflitos, rivalidade e competição, a poltrona vermelha é iluminada: não há qualquer comparação. Ninguém é melhor do que eu, na poltrona. Simplesmente porque essa lógica perde o sentido. A poltrona nunca me trouxe qualquer resposta. Mas me dá de volta a convicção necessária para continuar no movimento, na busca.

Incerteza é a certeza interior.


21 de out. de 2008

Nossas conversas

- Quero tocar pessoas. Quero beijá-las. De todas as formas possíveis. Seja com minha boca, seja com minhas imagens. E toda sorte de beijo. Do que afaga, ao que morde nos intervalos da língua.
- eu tb quero isso! e isso tem um preço. vc está disposto?
- mais do que disposição, tenho tesão. sem tesão, não sei permanecer.

[...]

Ainda farei um filme de nossa prosa, Faria.

9 de out. de 2008

Trecho de algum filme de mim

Você nunca conseguiu dizer adeus, não é? Sempre preferiu esse 'até logo' pro infinito. Nunca mais é um logo mais que desistiu de esperar.

Quase sentido

A beleza do sexo sem sentido não está na volúpia do instinto, nessa vazão ao que somos bichos. E sim, na permissão que nos damos a ignorância incompleta, já que nem como meros bichos regidos por instintos estamos completos. Permitir-se incompleto, permitir-se essa ignorância, do ato, do suor, da força do tesão e ponto. Esquecer-se do sentido.
Talvez por isso o dia posterior seja definitivamente um entrave na nossa trajetória de bichos. Porque o sexo sem sentido exige renúncia total: tanto das emoções demasiadas quanto das razões equilibradas. Sem sentimentos, sem reflexões.

Eu sei que o sexo é sempre algo sem muito sentido. Está em sua essência. É a incompreensão do corpo, uma dança que está sempre buscando novos ritmos, cansa fácil das coreografias certinhas ou dos passos engessados da dança de salão. Mas mesmo perdido, ele caminha conosco até certo ponto. Até a virada da esquina da alma. Ali, existe um vento frio que serve de porteiro dos sentimentos. Movimenta o corpo por dentro e por fora. Quando há qualquer coisa sem nome, sem face, sem idade, qualquer coisa que simplesmente transcende. E o dia posterior faz todo sentido do mundo. E a gente acontece. E a partir daí, qualquer sentido torna-se irrelevante. Sentir já demanda todo o corpo.
Por isso, mesmo reconhecendo toda a beleza que pode existir no sexo sem sentido, confesso esse desconforto. Com esse vento frio me barrando na esquina. Sem sentimento, o dia posterior me torna ainda mais só.

A solidão é uma desgraça na alma. Mas é uma desgraça honesta. Nesses tempos, impossível não reconhecer o valor dessa virtude.

Nas noites sem sentido, não existe honestidade. É preciso muita sinceridade para ser desonesto consigo mesmo.

20 de set. de 2008

Acontecer

Há 6 anos eu não possuo uma tv em casa. E isso só tem melhorado minha relação com essa entidade enigmática da cultura brasileira.

Na TV Record, o programa Hoje em Dia resolveu fazer uma matéria sobre o Sebastião Nicomedes - o Tião, que entre outras coisas foi o tema do documentário que realizei na conclusão da graduação. Em outros tempos, talvez eu me recusasse a participar dessa pequena alegoria, com esse sempre excessivo olhar crítico. Mas nesse caso não teria o menor cabimento. Depois de conhecer Tião, e meses depois, concluir a faculdade, comecei a entender com menos rebeldia e mais astúcia esses elementos do nosso carnaval midiático. Talvez não existisse personagem real mais pertinente para um pretenso sujeito da comunicação falar. A reportér errou meu nome - disse Vitor Freitas - mas depois fui salvo pelo nome escrito corretamente na tela.

Assista aqui.

15 de set. de 2008

Ela vai saber.

Ela diz ter medo de se apaixonar. Eu tenho medo de não conseguir mais me apaixonar. O medo dela fala uma língua embolada. O meu silencia com um olhar-pro-infinito. O medo dela é um charme; o meu, uma indelicadeza. O medo dela anuncia um pulo em cada sorriso; o meu, vai embora sem dizer adeus. O medo dela não gosta muito que o chamem de medo; o meu, detesta apelidos.

O medo dela me beijou na boca. Meu medo, por puro ciúme, começou a falar de coragem.

1 de set. de 2008

Trapézio

"Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza que alguém segurava-me as mãos não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo. Do que não ficava pra sempre."

Antônio Bivar, por Maria Bethânia no disco Drama 3°Ato, 1973.

Escute na voz dela.

31 de ago. de 2008

Seguro

É que minha verdade, junto a sua, não sabe o que fazer.
Ou mentimos, ou nos afastamos.
Ainda que se afastar seja só uma outra maneira de mentir.

28 de ago. de 2008

pra gaveta

Cada um carrega uma identidade da dor. Não como um RG, com números e uma foto sempre desatualizada. E sim um terreno abstrato que reflete suas experiências nesse universo de sofrer. Por isso algumas coisas nos marcam e nos emocionam mais que outras. É como se sua dor se identificasse com outra, e elas se cumprimentassem. Por isso o choro é sempre algo que não nos pertence, não há um controle do corpo sobre. O choro pertence a essa nossa outra identidade.
É isso que sinto as vezes, mais do que uma falta de controle, mas é como se a dor não me pertencesse. E sim o contrário. Por isso quando recorro a memória e vou nessa sensibilidade ignorante e tardia refazendo caminhos equivocados. Despedidas mal feitas. Aquela frase que poderia ter sido mais branda. Uma sisudez desnecessária para sua mãe que você pouco vê no ano. Uma jogatina de palavras vãs em discussões pueris com aquele amor. Aquela história que poderia ter dado mais passos adiante se a firmeza dos meus pés não fosse tão agressiva em momentos que bastava dar um pulinho, como esses que a gente dá na poça em dias de garoa simbólica. Alguma dureza em lidar com o pai quase que o punindo por sermos tão parecidos em pontos que não me agrada. Uma precipitação. Isso não é um vendaval qualquer de pequenas desgraças. Isso é o que compõe essa minha identidade da dor. Aquele último abraço que não consegui dar no meu avô. Não se reconhecer em sua própria dor é ser anônimo de si.



26 de ago. de 2008

17 de ago. de 2008

mi

Ás vezes eu esquecia que ele ainda estava vivo para me enganar com uma morte que jamais chegaria. Mas chegou e não há mais engano possível.

Caymmi é o que a música brasileira pode ser.

Saravá, nossa saudade.

7 de ago. de 2008

li imitar

Não existe uma linha vísivel. Uma faixa com letreiros avermelhados: não ultrapasse, aqui é o seu limite. Sempre acabo associando o limite a uma situação adversa, um comportamento, uma ação, um certo contexto. Bobagem. Penso seriamente que só estamos vivos por causa dos limites, porque somos seres completamente precários e limitados forjando realidades a todo instante. Está aqui dentro, de mim, de cada um, esse volume asbtrato de superação. Alguns o conhecem em alguns instantes. Outros, carregam uma vida inteira nesse limiar. Nós só conseguimos realmente saber quem somos no limite. Que na verdade, tem muito menos a ver com algo externo e sim com a reação, a maneira que iremos lidar com essa situação. Um fato. Uma ação. Uma dor. Uma vida. Uma morte. Um amor. A paixão talvez seja o limite cuja superação mais pulsa nas artérias. Paixão e limite, pra mim, são quase irmãos gêmeos. E o limite de existir não é morrer.

Quando aquele corredor cambaleando vai se arrastando até o fim da prova, não é o espírito olímpico que importa. Até porque espírito olímpico é uma bobagenzinha politicamente correta. Essa cena toca profundamente porque materializa esse desafio: é como se cada passo fosse mais um cima da superação de si mesmo. E mais um. E outro. Existe uma beleza arrebatadora nisso. Não é um teste de capacidade. É um flagrante de vida.


"Eu vejo a beleza no mundo através de homens que chegaram ao limite."
Naomi Kawase



6 de ago. de 2008

anotei e botei na jaqueta da alma

Ser diferente é óbvio. Já somos todos, mesmo com todo o excesso de repetições e reproduções. Querer ser diferente é medíocre. Porque o que move esse desejo é a eterna comparação.

É sempre esse desafio: não ser diferente. Mas ser único. Não exclusivo, sem essa falácia de ser especial. E sim autêntico.