21 de fev. de 2010

recorded

"Abrir espaço, esse espaço // um barulho como quem bate no peito // para...não para mim. Para alguém além de você. Abrir esse espaço é organizar esse vazio que costuma atormentar as pessoas. Eu não estou falando em casamento. Quantas pessoas ficam juntas e não abrem esse espaço. Cada um encontra seu jeito, seu jeito de lidar com essas coisas, de dar algum sentido para vida. Mas eu tenho convicção de que esse movimento faz parte de você, esse espaço está ai, te pedindo para fazer algo a respeito. A última coisa que eu posso te dizer, antes de ir embora, é que se você me permitir participar disso, essa será a melhor parte de você."

Gravação cheia de ruídos da rua, feita entre 2001 e 2003.




10 de fev. de 2010

Perturba

“A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.”
Witold Gombrowicz (1904-1969)

1 de fev. de 2010

Jeneci

Um homem de barba descompromissada fez música da vida da música. Em qualquer outro lugar, aquilo faria o mundo inteiro mais belo. Como foi ali, na Casa das Caldeiras, fez apenas o mundo daquelas pessoas menos feio. Eu fui vazio de mundos e voltei pleno de qualquer coisa.

Uma mulher desistiu

Uma mulher desistiu. Eu retornei com essa frase na cabeça, com fé de que isso seria suficiente para chegar em casa. Um homem que desiste, tristeza. Uma mulher que desiste, desespero.

No meio do caminho, ouvi: Meus olhos não sabem mais discernir o que é homem do que é mulher. Eu não me contive, pois era quase esse tormento que distanciava minha casa.

- O medo cheira igual. Independente do perfume.

Eu não podia jurar que ele era cego, apesar de todo o figurino. Aquilo nunca fez sentido algum para mim. Mesmo sem enxergar, ele acenou a mão na minha direção. Nunca soube se ele dava tchau ou insistia para que eu fosse embora.

24 de jan. de 2010

27

A idade não sabe se traduz o tempo no corpo ou o mundo na alma. Nessa indecisão, celebramos aniversários. Aquele vigor, delicado e agressivo, da infância na ponta do kichute, ainda me rende frutos. Não há qualquer duvida que foi numa bicuda daquelas que cheguei até aqui. A intenção foi chutar pro gol, ou chutar pra frente sem piedade, mas acabou resultando num ótimo lançamento. Recebo a bola quase sem direito a dúvidas. Aprendo, a cada ano, um novo jeito de jogar junto com a idade. O corpo é a decisão da alma.

12 de jan. de 2010

ressucitando

_0 tempo desanimava um pouco as suas pernas. parada, ela possuía aquela beleza que pode matar um homem. ao movimentar suas pernas, ela fazia com que as imperfeições surgissem de maneira cadenciada. assim, nesse desânimo, pude me aproximar. desistir-me em sua vaidade carinhosa de meus olhos. Mas antes fosse perfeição, tudo aquilo, para me proteger e banhar de distância.

_quem quase morre acaba ressucitando um Pouco.

7 de jan. de 2010

Cabeça Branca

Lourival tem aquele cabelo grisalho e a pele anoitecida, com um bigode de vagabundo. Sempre gesticulando muito, foi da orla até o Pelourinho falando. De ínicio, achei que era mais um cobrador de ônibus safado. Adorava mexer com as mulheres. Num exercício inédito, tentei entendê-lo antes de todos os meus julgamentos.
- Ô minha querida, você é gordinha, mas tá ajeitadinha, hein?
Não demorou muito para eu entender que Lourival só elogiava as mulheres desprovidas do repertório convencional da beleza. Um apressado diria: as feias. Minha surpresa não estava nisso, uma vez que gosto é algo amplo, cabe tudo. A questão era a reação que ele provocava nessas mulheres. Lourival era praticamente um investidor tácito na auto-estima daquelas mulheres. Não sai da minha cabeça o sorriso da gordinha. Um sorriso bonito, gordo mesmo, de ponta a ponta.
- Toda mulher tem uma beleza guardada.
No sol do dia-a-dia Lourival era cobrador de ônibus, compositor dessa opereta para as mulheres desajustadas pela beleza tradicional. Na lua das noites ímpares, Lourival era Cabeça Branca, fazedor de sambas tristes na Barroquinha.
- Em terra de carnaval, a tristeza virou quase uma feiura.

31 de dez. de 2009

Reconhecer

O último suspiro do ano aqui nesse blog começa com um reconhecimento. Há algumas horas atrás, numa madrugada baiana ali no Rio vermelho. Ela chegou, disse meu nome, falou do blog, das fotos que fizeram ela me reconhecer e se apresentou.
Era de Aracaju, falamos pouco. Eu dei um abraço, fiquei espantado. O constrangimento inicial foi brindado com o olhar e o aperto de mão. Depois percebi que ela estava acompanhada. E isso me deixou ainda mais feliz: ela veio falar comigo de coração aberto em sinal de reconhecimento ao que eu escrevo aqui, sem confundir os mundos. Voltei para casa pensando nesse espaço aqui, em todas as situações inusitadas, experiências únicas que tiveram o blog como interlocutor. Preciso retomar todas as coisas sagradas que a minha escrita representa, a metáfora de mim.

Esse foi um ano que esqueci de mim no banco de trás e acelerei na estrada das coisas sérias, do mundo do trabalho. A competência esqueceu da poesia. Mas o último dia do ano me trouxe o espírito da retomada, da reinvenção. O próximo ano completa cinco anos desse blog. Dez anos que sai de Salvador.

Eu quero voltar a mim sem pedir carona.

23 de nov. de 2009

A língua da vida

Há tantas possibilidades na cabeça, ou então, muitos redemoinhos e atalhos para se percorrer um mesmo caminho. Assim, ainda que com tormento e pensamentos machucados, vamos enganando.
Mas nesta vida existe um companheiro - que muito ignorante fala apenas seu próprio e fulgaz dialeto. Quando o corpo fala não há razão capaz nem sentimento possível. Apenas escute, da maneira que vier. O corpo grita delicadamente a língua da vida - sem traduções desmedidas nem interpretações vagantes.

Meu corpo falou.

17 de nov. de 2009

Queria te dizer


"Tudo passa. Na vida, tudo passa. Mas nem tudo que passa, a gente esquece."

Chico Pedrosa
Foto de Tiago Lima.

Dança e doença

O genial Ken Robinson, estudioso da educação e da criatividade conta uma história que não sai da minha cabeça. Uma conversa que teve com Gillian Lynne, autora de "Cats" e "O Fantasma da Ópera", entre outras.

"Como você se tornou uma dançarina? E ela respondeu que foi interessante, quando ela estava na escola, sem esperanças, a escola escreveu para seus pais dizendo 'Achamos que sua filha tem algum tipo de distúrbio de aprendizagem'. Ela era muito inquieta. Então a mandaram para um especialista. Ela foi com sua mãe, ela ficou sentada num canto, sentada sobre as mãos, por uns 20 minutos, enquanto o especialista conversava com sua mãe. No final, ele disse: 'Gillian, eu ouvi todas as coisas que sua mãe me contou, e agora eu preciso conversar a sós com ela. Espere aqui e já voltamos.' Enquanto ele saia, ele aproveitou e ligou o rádio. Eles saíram da sala, e ele pediu para a mãe apenas escutar e observá-la. Ela estava de pé se movendo com a música. Eles observaram por alguns minutos e o médico falou: 'sua filha não está doente, ela é uma dançarina. Leve-a para uma escola de dança.' E a mãe a levou. Gillian disse que não consegue descrever quão maravilhoso aquilo foi. 'Nós entramos naquela sala e estava cheia de pessoas como eu. Pessoas que não conseguiam ficar paradas. Pessoas que precisavam se mexer para pensar.'
Ela fez diversos cursos, se formou no Royal Ballet, tornou-se uma renomada profissional, fundou sua própria companhia de dança, foi responsável por alguns dos musicais mais importantes da história e é uma multimilionária.

Outra pessoa poderia ter lhe receitado alguns medicamentos e ter dito para ela se acalmar."

Descobri aqui.

15 de nov. de 2009

Meu jovem

"Nesses tempos, meu jovem, o mais díficil é fazer as pessoas se encontrarem, se abrirem, expressarem seus sentimentos, se permitirem." Achei bobo, não gosto desses pensamentos que começam diagnosticando o tempo presente. Não há ninguém com suficiente qualificação para tal radiograma, tão amplo, tão complexo. Ele não gostou de ser contrariado, mas ficou surpreso, acho que no fundo ele gostou do meu argumento. E concordou depois de alguns instantes. "Você é esperto, meu jovem. Então vou te dizer: desde os tempos das cavernas, essa história de se relacionar tem sido um tormento, uma profunda dificuldade, que nos move e nos derruba, faz a vida se encher de sentido e ao mesmo tempo é capaz de roubar qualquer sentido que você tenha encontrado. Eu sei disso, não precisa vir com esse olhar de jovem solitário." A solidão é subestimada, eu disse baixinho, quase querendo que ele não tivesse ouvido. Mas ouviu. Justifiquei dizendo que tinha acabado de assistir um filme com essa frase. Ele continuou. "O que estou tentando te contar é simples: tenha muito cuidado com essa parafernalha que diz conectar as pessoas. Existe uma parte essencial que jamais a tecnologia, esse teu celular, esse tal de "tuiti" - falou com um tom obviamente debochado de quem sabia a pronúncia correta - vai dar conta. É só isso que estou dizendo. Tome cuidado. A sua palavra tem que ter verdade e sentimento em qualquer lugar. Seja na sua boca ou numa tela de computador."

Faz tempo que não consigo mais escrever as coisas que sinto. Já culpei a falta de tempo, o stress do trabalho, algum desconforto aqui e ali. Mas a verdade é que não sei. Antes, não saber era motivo suficiente para escrever, expressar, rabiscar, fazer um filme do olhar que me insiste.

Aquele senhor não deveria ter mais do que sessenta anos. Ele levantou, apertou minha mão firme e ao mesmo tempo com a delicadeza de quem sabe das coisas. Acabei lembrando do meu avô. Fazia tempo que não tinha uma lembrança tão forte dele. O senhor se despediu dizendo:

- A cada dez vezes que você tiver com medo, com vontade de ficar dentro do seu apartamento, sem sair da cama, sem conseguir dormir incomodado com algo que você não se sente capaz de mudar...a cada dez, tome uma decisão, mude algo, saia do apartamento, fale o que você sente. É uma boa média. Se cuide, meu jovem.

1 de nov. de 2009

A mulher sem importância

A intuição faz sua sabedoria parecer apenas um charme. Ela entrou com aquele olhar que dificilmente consegue ser esquecido. Foi simpática da maneira mais inesperada e com as pessoas mais inusitadas. Escutou alguns minutos - ou segundos, instantes, horas, quando ela está no ambiente o tempo exala um outro suor - e mostrou como movimentos despretenciosos podem ser cruelmente mais efetivos do que qualquer glamour arrogante e ligeiramente feminino. Ela observou o tempo suficiente para fazer o elogio certo.

"Adoro esse seu jeito de contar histórias."

A mulher sem importância saiu para preencher o espaço vazio que acabara de inaugurar. Em mim.

27 de out. de 2009

Ruas saudosas

Então você começa a distinguir, para sobreviver. Não ter certeza pode construir um caminho inteiro. A certeza é só um bom referencial para construirmos nossas próprias ruas, tortas.

Sinto saudade de ter vontade de escrever aqui.