9 de jan. de 2012

Aqueles olhos fundos, quando a cor da retina fica úmida, aquele olhar que não deveria ser descrito, mas aqui estamos nesse erro. Ninguém fica melhor depois do sofrimento. E toda a bibliografia que melhora a humanidade, talvez a torne menos úmida. A gente só continua, se movimenta. Vai pra frente, dando vazão ao instinto de progresso que permanece. Ou dá voltas, sucumbindo ao ritmo próprio da vida - esse fenômeno da repetição. Ou enterra-se, sendo fiel ao inevitável movimento, mas por dentro.
Apertei seu ombro, como quem pressiona o botão REC do gravador mais high-tech que pode existir.

- Eu era legal, mas aí, aconteceu isso.

5 de jan. de 2012

Enquanto preparavam a cicuta, aprendia Sócrates uma canção na flauta. “Para que te servirás?"- perguntaram. “Para sabê-la antes de morrer", respondeu.

12 de dez. de 2011

Não sei

"Não sei mais sobre o quê escrever."

Passei dias pensando nessa frase. Foi um bilhete deixado antes do suicídio. Ele passou a maior parte da sua vida completamente analfabeto, inicialmente por circunstâncias óbvias, mas depois, ele mesmo admitiu, por um certo receio. Ele trabalhou durante toda sua vida numa grande fazenda de eucaliptos, dedicada exclusivamente para a produção de papel. Sem nenhuma motivação aparente ou expressa, já aos quarenta e poucos anos, aquele camponês com ar eminentemente triste e solitário, resolvera iniciar sua jornada no aprendizado da língua escrita. Ele precisou de cinco anos para escrever sua primeira frase. Algumas professoras diziam que, na verdade, ele já tinha aprendido, mas algo o bloqueava para efetivar e consumar o ato da escrita. Sua primeira frase foi também a sua última. Ninguém sabe dizer mais sobre o acontecido. Não tinha filhos, não tinha família, praticamente não tinha pertences. Colegas de trabalho e da escola, professoras e todo o pessoal da pequena cidade, formada basicamente pela órbita dessa grande fazenda de eucaliptos, ficaram perplexos, silenciosos, atormentados. Tudo já parecia triste e sombrio por demais, quando o prefeito, na verdade, o líder comunitário do vilarejo, toma uma decisão para tentar ajudar a cidade a compreender aquele fato. Ele convida e contrata um escritor. Para escrever a biografia do camponês? Para narrar aquela história trágica? Para dar aulas mais interessantes de escrita na escola local temendo que essa tenha sido a causa do suicídio?
Ele não chegou a balançar a cabeça em nenhuma direção, ou seja, não afirmou nem negou nada. Apenas me disse com um tom muito sincero: "Não sei. Quem sabe, você podia escrever o que o Arlindo não sabia mais."

18 de out. de 2011

Nunca dormiu. As vezes, deixava de pagar a conta de luz para cortarem; mas o escuro pode ser tudo, menos sono. Porque o sono é uma mentira necessária, mas ainda assim, uma mentira.
A modernidade é um tropeço da história.

14 de ago. de 2011

Memórias de encantamento

Acabei de receber de uma antiga paixão, trechos resgatados. 

1.
Amor é quando nasce morangos num pé de goiaba.

2.
Queria fazer filhos com seus pés, mas acabei me contentando com seus dedos.

3.
De manhã seus olhos passeiam por mim com um gosto azul. Eles passeiam e eu me perco.

4.
Tenho poucas fichas. Mas aposto todas. As cartas estão na mesa. Aposto também minhas camisas e dou um cheque pré-datado: até onde o seu cheiro me levar.

5.
Há um cantinho da sua língua que me faz acreditar no mundo.

13 de ago. de 2011

O mais fiel

O impossível é provavelmente o parente mais fiel. O pai falta, a mãe nem sempre vai poder. O tio divertido perde a graça. O avô sempre dura pouco. O impossível permanece. Infilitra-se no cobertor e te conta histórias no ouvido. E você as vezes chama de sonho, as vezes de pesadelo, as vezes é apenas aquela voz por dentro que não dá pra silenciar. A natureza do vínculo que temos com o impossível transcende o próprio umbigo. É impossivel permanecer com o cordão umbilical pra sempre. O impossivel é quase sempre um eco, um silencio que diz. Mas sabemos que o impossível é fluente em todas as linguas. Ele se lambuza no dialeto do amor. Porque o amor é esse sentimento que tenta tornar o impossível um analfabeto. O amor esta sempre entre dois movimentos: debochar do retrato do impossível, assim, deslavadamente, ou borrar o mesmo retrato com lágrimas, quando torna-se inevitável reconhecer a paternidade do mesmo. É isso, o impossível tem um parentesco nômade. Não se aquieta em nenhuma casa desse tabuleiro.

"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez."


29 de jul. de 2011

Era

Todas as histórias de amor já foram contadas. Ele disse, reticente.
Então sobra espaço para todas as outras que serão apenas sentidas. Ela, respondeu.

19 de jul. de 2011

Relógio

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que eles não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”

Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio, de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e Famas.

4 de jun. de 2011

Tudo aqui do lado

Esta tudo acontecendo aqui do lado. Tudo. Se tiver faltando alguma coisa, pode pedir para aquela moça gorda e simpática ali.

[o tempo escolheu dois lugares no mundo para passar férias, com alguma frequência: nos olhos dos apaixonados e nos passos das enfermeiras]

Ela pensava que doença era um malabarismo com a morte. Foi aquela moça gorda e simpática que, sem perceber, mudou sua visão. Adoecer é a vida engasgando em si mesma. Quem morre, deixa de adoecer e se concentra somente em estar morto.

[foi a moça gorda que deu a notícia. Realmente, ela era muito simpática]