Ela está cavando os dedos. Não permite a unha errar. Profundamente pele sobre terra. Algo determina o ritmo. Quase musical. Busca variações, mas atenta para sintonia do movimento. Ela cava os dedos com as mãos enterrando-se. O homem está observando sonolento tudo aquilo. O homem é irrelevante. Ela tem relevos. Busca cavá-los. Eles se amam. E terra. Enterram. Soterram. Erram. O quintal é imaginário. O jardim é plano em comum, demorou 5 anos até ganhar os sonhos. Não há flores visíveis. Nem mesmo ao olho complacente dos sonhos. Eles se amam tanto. Foi preciso então irem juntos aquele jardim. Ele está sonolento no sonho. Porque dorme de pé. Porque sonha acordado. Dormem na mesma cama, sonham em quartos separados. Foi preciso então chorar essas lágrimas sem gosto. Ela descansa um pouco. Eles se amam, não muito, nem pouco. Eles se amam a exata medida que foi possível. Eles amam-se dentro da possibilidade. E chamam isso de amor porque é o único vocábulo confortável. Ela cavou todos os dedos. Agora, pronto. Ele deita seus pés sobre o buraco aberto. Ela cavou seus próprios dedos para enterrar os pés dele. Ela suspira como se soubesse que aquilo não era apenas um sonho. Doeu, um pouco, ela alerta, com os olhos. Ainda dói, ele complementa, de olhos fechados.
13 de fev. de 2006
10 de fev. de 2006
temp
"Pela idade, há muito tempo que sou um velho. Mas só pela idade. Trabalho com a mesma vontade de sempre, a imaginação ainda não desertou de mim, compreendo melhor o mundo em que vivo, sou consciente do valor da vida, e, quanto à morte, ela chegará no seu dia, nem antes nem depois. Quem morre aos 20 anos, morre na sua velhice e não o sabia. "
José Saramago
23 de jan. de 2006
23 / 23
"O tempo é o maior tesouro que um homem pode dispor. Embora, inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento. (...). É o nosso bem de maior grandeza, não tem começo, não tem fim. Rico não é o homem que coleciona e se pesa num montoado de moedas, nem aquele devasso que se estende mãos e braços, em terras largas. Rico só é o homem que aprendeu piedoso e humilde a conviver com o tempo. Aproximando-se dele com ternura, não se rebelando com seu curso, brindando antes com sabedoria, para receber dele os favores e não sua ira. (...)"
Raduan Nassar, Lavoura arcaica.
Raduan Nassar, Lavoura arcaica.
19 de jan. de 2006
8 de jan. de 2006
2046 - Wong Kar-wai
2046 é um teste de fidelidade que Wong Kar-Wai imprime sobre quem o assiste. Resgate, reinvenção e retorno de personagens, histórias e situações de seus filmes anteriores. Aos fiéis, dos quais me incluo, resta certo cuidado ao sair do cinema. Estou zonzo. Aliás, essa é a palavra da vez: zonzo.
"Sabe o que as pessoas faziam antigamente quando tinham um segredo? Subiam numa montanha, procuravam uma árvore, abriam um buraco e sussuravam o segredo nela. Depois tapavam o buraco com barro."
6 de jan. de 2006
27 de dez. de 2005
19 de dez. de 2005
sonho. lúcido. catarse. couto.
"O mundo já não era um lugar de viver. Agora, já nem de morrer é."
Avô Mariano
- É preciso luz para se distinguir as cores, menino.
- Mas no escuro, quando durmo, eu sonho colorido.
- É que aí, acende-se uma luz por dentro.
(...)
- Amanhã estou cansado, posso faltar o dia?
- Pode. Sempre pode. Mas depois não reclame quando o dia lhe faltar.
- Sinto que essa voz não é minha. Entende? Escolho as palavras, mas a voz que as diz não é minha.
- Gosto quando você canta a música do peixe.
- Sinto falta de uma voz própria. Entende?
- Minha voz própria é o silêncio.
- Talvez amanhã eu esqueça de dizer que te amo.
- Não faz mal.
- Eu vou sentir falta. Eu já estou sentindo falta.
- Você tem um pensamento longo. Mas suas palavs são curtas.
- É que sinto muita falta das coisas que vou esquecer.
Avô Mariano
- É preciso luz para se distinguir as cores, menino.
- Mas no escuro, quando durmo, eu sonho colorido.
- É que aí, acende-se uma luz por dentro.
(...)
- Amanhã estou cansado, posso faltar o dia?
- Pode. Sempre pode. Mas depois não reclame quando o dia lhe faltar.
- Sinto que essa voz não é minha. Entende? Escolho as palavras, mas a voz que as diz não é minha.
- Gosto quando você canta a música do peixe.
- Sinto falta de uma voz própria. Entende?
- Minha voz própria é o silêncio.
- Talvez amanhã eu esqueça de dizer que te amo.
- Não faz mal.
- Eu vou sentir falta. Eu já estou sentindo falta.
- Você tem um pensamento longo. Mas suas palavs são curtas.
- É que sinto muita falta das coisas que vou esquecer.
10 de dez. de 2005
Interlocutores
Pequeno roteiro das sensações dos meus últimos dias, segundo alguns dos meus queridos interlocutores.
"Como conhecer as coisas senão sendo-as?"
Jorge de Lima
"Os sentimentos é que devem conduzir os acontecimentos. Não o contrário."
Bresson
"O amor é velho, velho, velho e... menina"
Tom Zé
"Se expressar é uma questão de vida ou morte"
Ferreira Gullar
"Porque a pior censura é a econômica, não a política."
Glauber Rocha
"Sabiá, vem me dizer, por favor, o quanto que eu devo amar, pra nunca morrer de amor."
Torquato Neto (Música Zabelê, de Gil)
"Como conhecer as coisas senão sendo-as?"
Jorge de Lima
"Os sentimentos é que devem conduzir os acontecimentos. Não o contrário."
Bresson
"O amor é velho, velho, velho e... menina"
Tom Zé
"Se expressar é uma questão de vida ou morte"
Ferreira Gullar
"Porque a pior censura é a econômica, não a política."
Glauber Rocha
"Sabiá, vem me dizer, por favor, o quanto que eu devo amar, pra nunca morrer de amor."
Torquato Neto (Música Zabelê, de Gil)
8 de dez. de 2005
Onde nunca toquei
A
3 de dez. de 2005
pequenas histórias partidas
Trabalho feito na disciplina Narratividades e Roteirização II
http://cabezamarginal.org/vitor/historietas
http://cabezamarginal.org/vitor/historietas
28 de nov. de 2005
vendaval da mente - I
Prólogo esboçado
p.s: No domingo, comecei a gestar um livro no estômago. Mas estou mijando devagar cada frase. Algumas colocarei aqui.
Pensou que a maneira mais imprecisa para contar a história daquele homem seria analisar apenas o que ele fez. Contrariando os historiadores, pesquisadores e jornalistas, iniciou seu mais profundo exercício de montagem. Quando paralizou para contemplar os primeiros resultados, um suspiro. Ao reunir todas as coisas que aquele homem fez, e mais, todas as coisas que aquele homem deixou de fazer - por motivos diversos, os quais também foram reunidos, todas as coisas que aquele homem conseguiu completar e todas as coisas que aquele homem não foi capaz de completar - por incompetências diversas, as quais também foram reunidas, e assim por diante, ou seja, traçando um mapa dos momentos em que aquele homem esteve presente e os momentos em que ele esteve ausente, deparou-se com aquele suspiro. O homem tinha ressucitado, ali, bem na sua frente. Passou o pouco resto de vida que ainda tinha espantado com aquilo. Em sua morte, as pessoas comentavam maldosas que tinha suicidado-se com uma cabeçada no espelho com tamanha força que cada caco de vidro abrigou um pedaço da sua face.
O ínicio rascunhado
O ínicio rascunhado
Um sono que não adianta dormir. Um sonho que não adianta acordar.
Minhas olheiras são as pegadas do sono em meu rosto. Sim, o sono passou por aqui. Mas parece que não voltará mais.
Pai está no quintal com sede do alambique. Ele diz que bebe cachaça para deixar mais água para nós. A única pessoa colorida em casa é a televisão.
Então eu percebi que não adiantava mais. A minha memória tinha se tornado a minha imaginação. Assim, me conformei quando as lembranças da infância começaram a inventar alguns dos meus dias já velho. Apesar de ainda ser díficil aceitar que talvez algumas das recordações dos tempos de criança tenham sido livros escritos com terra e lápis.
Minhas olheiras são as pegadas do sono em meu rosto. Sim, o sono passou por aqui. Mas parece que não voltará mais.
Pai está no quintal com sede do alambique. Ele diz que bebe cachaça para deixar mais água para nós. A única pessoa colorida em casa é a televisão.
Então eu percebi que não adiantava mais. A minha memória tinha se tornado a minha imaginação. Assim, me conformei quando as lembranças da infância começaram a inventar alguns dos meus dias já velho. Apesar de ainda ser díficil aceitar que talvez algumas das recordações dos tempos de criança tenham sido livros escritos com terra e lápis.
p.s: No domingo, comecei a gestar um livro no estômago. Mas estou mijando devagar cada frase. Algumas colocarei aqui.
26 de nov. de 2005
coleções de fatos
Diálogo verídico.
No carro, mãe e filha. 38 e 5, anos. A mãe, observa crianças pedindo esmola na rua e vê uma grande oportunidade para educar sua filha.
- Tá vendo ali, minha filha? Aquelas crianças não tem brinquedos nenhum. Não tem bonecas. Não tem as coisas que você tem. Elas tem que morar na rua. Muito triste.
A menina olha. Olha. Olha. Sorri. E responde.
- Mas elas tem a rua inteira, mamãe.
No carro, mãe e filha. 38 e 5, anos. A mãe, observa crianças pedindo esmola na rua e vê uma grande oportunidade para educar sua filha.
- Tá vendo ali, minha filha? Aquelas crianças não tem brinquedos nenhum. Não tem bonecas. Não tem as coisas que você tem. Elas tem que morar na rua. Muito triste.
A menina olha. Olha. Olha. Sorri. E responde.
- Mas elas tem a rua inteira, mamãe.
21 de nov. de 2005
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