24 de dez. de 2006

London, London

Existe esse pequeno exílio particular que se cria no meio da sua própria pátria. Saravá.

While my eyes go looking for flying saucers in the sky
I choose no face to look at, choose no way
I just happen to be here, and it's ok
Green grass, blue eyes, grey sky
God bless silent pain and happiness
I came around to say yes, and I say

11 de dez. de 2006

trecho projeto final graduação puc-sp

trecho das considerações finais

(...)
O conhecimento e a consciência das desigualdades sociais que estão infelizmente enraizadas no nosso país sempre foram, desde a infância e juventude politizada direta ou indiretamente em virtude de ter sido criado por pais com forte ligação política dentro de partidos e movimentos de esquerda, já era um fato dentro da minha trajetória, porém, o contato com Sebastião revelou-me não informações novas sobre essas questões, mas percepções diferentes, a poesia inabalável de um homem em exercício pleno dos seus sonhos e convicções. Nesse movimento, a referência e o exemplo de Tião é muito mais do que “um homem que foi pro nada e conseguiu voltar”, mas é a precisão lúcida e sensibilidade com que seu olhar repousa sobre os problemas sociais que se banalizaram na nossa sociedade, sua sinceridade quase lúdica de se tornar exemplo para os outros, mas admitir continuar na busca da reconstrução de sua auto-estima – “Tião é mais para os outros do que pra ele mesmo”. E os mecanismos para que a abordagem sobre ele não se equivoce parecem ser criados por ele mesmo: retira o chão para heroismos vazios, mitificação de sua história de vida ou excesso de valorização sobre seus feitos. Tião apareceu em revistas semanais de grande circulação, em programas de TV, jornais, entre outros. Ao passear pelas ruas em sua companhia, não foi raro o comentário “te vi na revista” ou “te vi na tv”. Ele sabe a importância que a mídia pode ter na divulgação dos seus ideais, entende que o holofote sobre Tião Nicomedes põe luz também para as questões sociais que ele tanto luta, mas sabe também do risco que todo esse circo carrega, da espetacularização, e de maneira espontânea vai afirmando a integridade de sua identidade e subjetividade.
As ruas do centro de São Paulo agora não são mais as mesmas para mim, tornaram-se mais humanas, minha percepção sensorial do centro enriqueceu-se. Os carroceiros me parecem hoje pequenos anjos sujos voando baixo pela cidade nas suas incongruências e que, talvez sem muita consciência, transformam o Brasil no país que mais recicla em todo o mundo.

(...)

10 de dez. de 2006

6 de dez. de 2006

presente

"Coração mistura amores. Tudo cabe."

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredes, pág. 171.

A semente

"A criatividade é o recurso mais fecundo com que o homem, desde sempre, procura derrotar os seus inimigos atávicos: a fome, o cansaço, a ignorância, o medo, a feiúra, a solidão, a dor e a morte. Em cada esquina do planeta, em cada fase da sua evolução, a criatividade humana consegue atribuir uma forma ao caos, um significado às coisas."

Domenico de Masi

28 de nov. de 2006

Texto para apresentação da exposição dela

“Quando algo é belo, examine-o com cuidado em busca de uma verdade oculta.”
George Bernard Shaw


A memória é nossa fantasia e toda história que precise recorrer a ela, será fantasiosa, mas não necessariamente falsa. Acredito que ao pegar o atalho certo, a memória pode contar verdades especiais.


Quando fomos comprar sua primeira máquina, um homem branco e pálido desnudou o pinto da pequena câmera quase como um cafetão trêmulo. Fazia um frio delicadamente malvado - aquele frio que anuncia o inverno de maneira sádica. Então tentei falar qualquer besteira com o homem que esbravejava pouco jeito em seu francês áspero e impaciente. Enquanto eu o distraía, ela ganhava tempo para finalmente conversar reservadamente com a máquina. E minha destreza só foi em guardar na memória as primeiras palavras que trocaram aqueles dois amantes em pleno balcão da loja de fotografia. Não falaram absolutamente nada, aparentemente. A câmera foi embalada, seguimos nosso trajeto. Eu, ela e aquela câmera, acomodada sem seu pinto, dentro da caixa.

Na infância, alguns brinquedos são verdadeiros deuses, orixás. A boneca de pano é uma pequena nossa senhora encardida e torta. O carrinho vermelho é Xangô dando voltas no mundo. Com o passar do tempo, buscamos alguns outros correspondentes para aqueles rituais, mas geralmente não obtemos muito sucesso. É comum então, mesmo já adultos, reagirmos como naqueles tempos: viramos crianças grandes e bobas com nossos brinquedos na mão. Talvez Ingrid não tenha tido uma infância normal. O fato é que ela não se comportava como uma criança que acabara de receber sua pequena divindade personificada num brinquedo, na câmera nova. O olhar é um desespero, o enquadramento de cada olhar, uma angústia. Ingrid parecia muito mais uma mulher que acabara de descobrir um delicado e íntimo jeito de se relacionar com o mundo. Descobriu seu orgasmo peculiar, um jeito de ser, um alívio para permanecer. Acredito que não se deve falar sobre a fotografia de Ingrid. Pode-se falar sobre Ingrid. Pode-se falar sobre a fotografia. Mas a relação entre essas duas mulheres deve ser sentida, muito mais do que falada. Palavrear essa fidelidade promíscua de sensações – olhares, enquadramentos, desespero e angústia – é quase como tentar impôr regras sobre a brincadeira, horários determinados para jogar bola. Como bons pais, talvez seja realmente inevitável. Mas acho que esses olhares que essa pequena senhorita Mara Cruz Klinkby reuniu convida-nos a irresponsabilidade.

Quando revelado, esses olhares, há uma intimidade que se expõe – e toda exposição desse tipo é por demais cara. Desses olhos inquietos, ela nos apresenta aqui sua particular e delicada pornografia poética. Permitam-se.

P.S. Para conhecer a fotografia dela.

5 de nov. de 2006

bocejo

A morte noticiada é quase como um bocejo. De maneira que foge do controle o bocejo daquele homem ali, meio alto e com cara de pão sírio, gera um bocejo quase que reclamando a antologia de um sono que não existe, a insônia deixando pegadas pelos dentes. Então a notícia da morte, mesmo essa, quase longe não fosse a proximidade da palavra, reclama de outras mortes, sem controle, a memória boceja ao coração outras mortes, outros sonos, são meus dentes. E quando ele morre dormindo, a notícia sem sono chega acordando sem cabimento as gavetas sem verniz. Então, bocejo, sinto esse sono doloroso da morte, e logo depois retorno. Daniel morreu um pouco das minhas mortes também.

"Afinal , quem sou?
Como traduzir-se
quando a tradução
pode ser a mais pungente morte
da arqueologia de mim
a sete chaves secretamente embalsamada?"

Daniel Cruz Filho

21 de set. de 2006

O homem vazio e a mulher sem calcinha - II

La femme
Não me importo de estar com o nome sujo. Eu não acho que meu nome seja sujo. Isso é uma conspiração, para você se sentir suja, imunda, nojenta, e pagar esses porcos em dia. E se estiver sujo, que mal há nisso? Sujeira é vida, é coisa nossa, coisa do corpo. Suor me dá tesão.
Mas eu sou realmente angustiada, essa ansiedade, eu tento fazer o exercício que a terapeuta ensinou, mas não consigo me controlar, parece que está tudo aí demais, pisco o olho e sai do meu controle, tá aí, ali, aqui, que merda. Acho que aquele filha da puta gostoso tá olhando pra mim. Mas que filha da puta. Totalmente filho da puta, se não fosse gostoso eu mesmo daria um chute nos bagos dele. Ai, mas que filha da puta, tá olhando pra mim. Corno. Dá vontade de casar com ele só pra cornêa-lo. Corno gostoso. Maldito. Eu não tenho problema com homem, digo, assim, não sou feminista. Óbvio que gosto de homem. Meu problema é com filho da puta. Ai, que angústia. Preciso ser salva. Algum idiota tímido e intelectual, algum poeta cretino e cavalheiro, algum bunda mole meigo, porra, se ninguém aparecer eu vou acabar dando para aquele filho da puta gostoso.

L'homme
Eu acho o silêncio uma coisa tão bonita, mas assim, tão frágil, sabe? Qualquer barulhinho arranha o silêncio.

13 de set. de 2006

O homem vazio e a mulher sem calcinha - I

la mujer
Ele não vai me reconhecer. Gosto de contar mentiras, gosto, mas sou fiel. Não é fácil ser mentirosa e fiel. Ele vai saber. Ele ou aquele outro ali. Acho que qualquer um que olhar pra minha cara vai saber que eu estou diferente, irreconhecível. E que sou fiel. E vou dizer que sou mentirosa logo na cara, para não perder o hábito. Preciso ser sincera logo no ínicio. Odeio esse papo de 'estou surpreso' ou o último 'jamais imaginei que você pudesse fazer isso'. Eu sou pobre mas faço terapia. Impressionante como me sinto mais mulher, mais pessoa, mais sabe assim, sei lá, essa coisa plena apesar das dificuldades. Graças a minha terapia eu não uso mais calcinha.

el hombre
Eu gosto de conversar. Mas é...não sei, tenho pouca coisa pra falar, me incomoda essa coisa de 'jogar conversa fora'. Prefiro guardar pra usar direito.

trechos de um presente

trechos da crônica "o amor acaba" de Paulo Mendes Campos.
insuportavelmente maravilhoso.

"(...) uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

6 de set. de 2006

O que fizeram com aquelas tantas lágrimas?

Eu chorei quando Lula se elegeu. E eu não sou de chorar. Estive pensando nisso numa das poucas vezes em que coincidentemente, jantei num boteco que tinha TV e olhei para cara desse Lula.

E, agora, bebendo palavras pela internet, completamente embriagado na madrugada, lá pelas tantas na Carta Capital, uma reportagem de uma tal Ana Paula Sousa, diz que Estamira - outra que não é de chorar, também chorou no dia em que Lula foi eleito.

Eu, Estamira, e tantos e milhões de tantos.

Não há uma conclusão, agora vou dormir - frio e seco.

29 de ago. de 2006

27 de ago. de 2006

Macanudo



Descobri o argentino Ricardo Liniers através do blog da Rita Apoena. E agora estou profundamente encantado com seu trabalho, tanto que já estou a encomendar os livros com suas tirinhas. Não sentia tamanha emoção desde quando ganhei meu livro com Toda Mafalda.

25 de ago. de 2006

tia chaui

"A paz não é a simples ausência de guerra. Uma cidade na qual a paz depende da inércia dos súditos deve mais corretamente ser chamada de solidão que de cidade."

Marilena Chauí

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p.s: Tenho pensado em dar nova moradia para esse blog, lá: http://www.chadeideias.com.br/blog. Quando for verdade, avisarei.