23 de ago. de 2009

“Em uma certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório Celestial de Conhecimento Benevolente, está escrito, em suas remotas páginas, que os animais se dividem em:

a) pertencentes ao imperador

b) embalsamados

c) domesticados

d) leitões

e) sereias

f) fabulosos

g) cães em liberdade

h) incluídos na presente classificação

i) que se agitam como loucos

j) inumeráveis

k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo

l) et cetera

m) que acabam de quebrar a bilha

n) que de longe parecem moscas.”

J. L. Borges

25 de jul. de 2009

A invenção do fracasso

O fracasso foi inventado antes do sucesso na história da existência humana. Na desgraça de nos compreendermos, existe um pressuposto dado: nascemos tristes, chorosos, com um profundo sentimento de injustiça - nascer não é justo. Só instantes depois, no primeiro encontro externo com a mãe, conhecemos a possibilidade de um mundo afetivo. Saimos do fracasso da nossa condição para a constituição de uma ilusão, pois lá fora não vai ser viável perpetuar aquela sensação que o colo materno inaugurou. Demoramos uma vida inteira para construirmos um outro colo, uma outra possibilidade afetiva, que seja mais real.

As mulheres eliminam esse fracasso quando conseguem enfim a sua própria maternidade. A paternidade não absolve os homens. É preciso inventar um sucesso que não contradiga sua essencial condição de fracassado. Ou aprendemos a se alimentar do amor, que significa longos períodos famintos com pequenas ilhas de fartura que nos trazem, enfim, algum sentido nesse mares estranhos.

21 de jul. de 2009

O romântico

"O romântico não é propriamente um idiota nostálgico, o romântico é um sobrevivente, sente-se como uma espécie caçada, um mutante que já nasceu num habitat hostil. Às vezes, esse tipo de ser é mais perigoso do que você, que ri tranquilo, cercado pela crença boçal de que o mundo seja seu. Os melhores entre eles aprenderam a dissimular a lágrima, mudar de assunto, fazer uma piada inteligente, fechar a porta do quarto. Quem se sabe desde o inicio derrotado, detém uma forma de poder invisível que o torna perigoso, justamente porque não combate pela vitória, mas sim porque sua natureza é não ter futuro."

Luis Felipe Pondé

7 de jul. de 2009

Através de Benedetti

Minha mão direita é uma andorinha
Minha mão esquerda é um cipreste
Minha cabeça, de frente, é um senhor vivo
E, por trás, é um senhor morto.

Vicente Huidobro

4 de jul. de 2009

Bartolomeu Sozinho

"- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti."


Mia Couto. Venenos de Deus, remédios do Diabo.

15 de jun. de 2009

Viagem

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”

Amyr Klink

9 de jun. de 2009

Próximo

De um lado, o amigo rude, dono das verdades cortantes. Se a sinceridade legitimasse nossas ações, aquele seria um sujeito completo. Mas não é o caso, e o mote "só falo a verdade" pode esconder uma crueldade que pede distância. Ou pelo menos que se estabeleça algum tipo de pacto no vínculo: até aqui, compartilhamos verdades. Daqui em diante, seguimos em mentiras separadas. Vidas separadas. Provavelmente bons conselhos saem daquela boca. Mas como é díficil ouvi-los quando o objetivo daqueles verbetes serve mais para sua auto-afirmação do que para se aproximar do outro.

E do outro lado o irmão que não sabe onde colocar as mãos. Não sabe onde colocar as palavras. Toda aquela ternura desmedida, que não sabe pegar o metrô e chegar ao outro. Perde-se pelo caminho. O amor é sempre uma cidade estrangeira, então ele se apega as pequenas vitórias, como chegar até a padaria da esquina e conseguir pedir um café. Chegar ao outro e dizer-lhe do seu afeto, do seu amor, seria praticamente como chegar em Nova York com aquele inglês da escolinha e na primeira noite estar ouvindo versos apaixonados de uma artista "experimental" no jardim botânico do Brooklyn. E apenas com olhares, deixá-la plena em sua volúpia. Não é um exagero. Aquele era um sujeito do bem, apesar de suas doses exageradas de bom mocismo e essa sina de querer carregar o peso do mundo nas costas. Muitas vezes conseguimos supor o quanto aquela pessoa provavelmente deve gostar da gente. Mas, nesse quesito afetivo, digo com a pior das propriedades possíveis, suposições não enchem barriga.

O primeiro diz: tem que meter a boca mesmo. Falar umas verdades.
O segundo retruca: não, cara, tem que ajudar, o que falta é alguém pra ajudar.

Esse que vos escreve diz: Mais "verdades" só vão causar mais repulsa. E ajudar? Você não é nenhuma madre teresa.

Ao invés disso: Aproxime-se.

6 de jun. de 2009

Há um ano atrás

Em 2008, primeiro projeto pela TV1, para o Dia dos Namorados: Radiola do Amor, da Brasil Telecom.

Ser e estar

Existem esses momentos em que precisamos enfrentar certos desafios de frente.
Mas quando estar sozinho passa a ser um desafio, confesso que fraquejo.
Sempre lidei bem com isso. Já vão quase dez anos de desacolhida, de vôo além-ninho.
O problema, veja bem: Não é ser sozinho. Disso, me construi. O problema é estar sozinho.

- Foi assim que ele me explicou. E partiu.

23 de mai. de 2009

Muito mais

Ela contou do meu olhar, disse que era provocante em alguns momentos, e aconhegante em outros. Eu estava naquele momento estranho, numa rotina contra a mediocridade dos dias. A repetição não é o problema em si. Andar é uma repetição de passos. A questão é: para onde esses passos estão te levando? Eu não soube lidar com seu charme.
A verdade é que minha vida poderia mudar completamente apenas com um punhado daquele encanto, com algumas noites compartilhadas daquela paixão que se anunciara. Mas para mudar a vida dela de alguma forma, eu precisaria doar muito mais. Muito mais dedicação, cuidado, muito mais de mim.

Nesse momento lembrei de uma frase que recebi num bar em Montreal. Nunca tive certeza se concordava. Traduzi aqui.

"Um homem pode se transformar com um acorde. A mulher precisa da melodia completa."

Eu me apaixono até com o silêncio.

6 de mai. de 2009

Porteiro

O porteiro me olhou com aquele ar tristonho, me lembrou o gato de botas do Shrek. E falou assim:
- Muito trabalho né seu Vitu? Nunca mais parou aqui pra gente prosear.

No olhar, algo se anunciava. Na fala, nas entrelinhas do sotaque, percebi que ele tinha flagrado. Ele sabia e estava com um certo ciúme.

Eu estava passando mais tempo conversando em outra portaria. A do lugar onde eu trabalho. Tomando cafés de madrugada com o porteiro-showman da TV1, o Manuel.

Respondi com a esperança de que novas disponibilidades surgirão. Era o possível naquele momento.

Todo homem precisa valorizar seus vínculos com essas figuras: os guardiões dos portais que adentramos no cotidiano. A sabedoria de quem entende das entradas e saídas dessa vida confusa.