23 de mai. de 2010

Alma

"Há um olhar que sabe discernir o certo
do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência
significa desrespeito e a desobediência
representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos
longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita
em afirmar que existem fidelidades perversas
e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma."

Nilton Bonder, A Alma Imoral.

15 de mai. de 2010

Mais uma língua

Eu carrego essa alegria de quem é fluente na tristeza. Mais do que uma língua estrangeira, a alegria é sempre um idioma anterior a qualquer coisa, e vem com a força da própria vontade de se comunicar. A alegria surge como as primeiras palavras que consegui falar, quando criança. Um som que saiu da minha boca e foi percebido pelo outro, com algum sentido. A alegria me engana de mim mesmo. Minha tristeza não faz nada. Apenas envelhece junto comigo, guardando algum amor perdido. A tristeza que se movimenta, já não é mais tão tristeza assim.

25 de abr. de 2010

Dialeto do sexo

A fluência no dialeto do sexo indicutivelmente te abre diversas portas. Dialeto precioso, uma língua mais antiga e muito mais global que o inglês. Mas exige-se uma grande sabedoria para entender o contexto, os sotaques e a cultura para encontrar e reinventar o jeito de falar essa língua ancestral.

Mas a língua é só o caminho. O que você quer dizer? Lembro de um jovem artista dizendo ao seu professor de língua estrangeira: mas é muito díficil criar algo original nessa sua língua. E o professor responde: primeiro, preocupe-se em criar algo original. Toda língua possui seus artíficios para traduzir a genialidade.

Essas duas pensatas, juntas, podem até transparecer pouco sentido. Mas é um engano. Saber o que você quer expressar, no dialeto do sexo, traz uma consistência poderosa. A ausência disso atormenta a maioria. Nessa e em outras formas de comunicação. Em diversas línguas. Ao redor do mundo.

Esvaziada, vejo a beleza morrer em silêncio, na sala do apartamento. Não há o que dizer.

17 de abr. de 2010

Voice message

// CENA 18 - Sacada do apartamento completamente vazio - INT. - Fim do dia

Eu só acredito naquilo que sinto, naquilo que consigo me identificar. Quando não me reconheço em algo, ou desprezo ou invejo. A minha profunda inveja é meu jeito de admirar o que ignoro. Mas ainda assim, em ambos os casos, eu acabo afastando. Afasto o que não conheço, diria Caetano.

É por isso, e não por nenhum outro motivo patético que talvez você tenha confabulado, que reajo desse jeito quando você tenta se aproximar, quando você entra em contato comigo, quando você me olha. Existe essa...essa coisa no ar, no seu jeito, uma espécie de bondade, uma generosidade, um sentimento, eu não sei. Eu consigo achar bonito o que não conheço. Mas não quando essa ignorância me enfraquece. Faz com que eu me sinta uma pessoa pior do que eu já sou.

E você...quando você ouvir essa mensagem, sua primeira reação vai ser de compaixão. Todo esse meu palavreado para esconder o simples fato de que eu sou um escroto egoísta. Você vai achar louvável que eu admita isso com tanta propriedade. Mas não é. É atormentador. Porque eu não vou...

BARULHO eletrônico interrompe e finaliza "Your record was sent by the voice twitter in a direct message".

// CRÉDITOS

10 de abr. de 2010

Olhar



Eu acredito no olhar como um dos últimos lapsos de poesia e humanidade, que ainda conecta, de maneira sutil e profunda, as pessoas.

Foto: Tiago Lima

28 de mar. de 2010

conversa de homens pequenos

Três homens pequenos de meia-idade estavam dicutindo sobre a altura de uma jovem paixão que saltitava, viçosa, ali numa avenida com nome de mulher grandiosa - como devem ser as santas. O discurso alimentava uma inveja não-declarada até o ponto em que o garçom do pequeno boteco onde eles se desencontravam anunciou que a bebida amarela de rótulo azul acabara. Ao pequeno estabelecimento e aos três últimos clientes daquela noite sem escrúpulos, restava a última garrafa daquela bebida branca do rótulo vermelho. A transparência do líquido, a aspereza sincera na garganta e o vermelho afetivo do rótulo trouxeram a conversa para o seu devido lugar. Ali, transtornados, compartilharam enfim seu fracasso. Reconhecer o fracasso era inviabilizar qualquer argumento crítico em relação a altura daquela paixão. Da metade da garrafa em diante, já era possível sentir quase um cheiro de admiração. Ou nostalgia travestida. Era uma rua com nome de santa, mas historicamente permissiva com todas as vestimentas do desejo humano. Aqueles três homens pequenos já foram imensos. O menor de todos, finalizou a conversa tocando exatamente nesse ponto. "O que me conforta sobre esse meu tamanho diminuto é que todo homem, por menor que seja, tem a capacidade de ter a altura de um gigante, quando faz possível uma paixão" - disse ele sem nenhuma soberba na voz simples.

"A elasticidade de um homem pequeno, cada vez mais rara, ainda me encanta". Foi o que me contou a dona do boteco, quando terminava de me contar essa pequena historieta.

24 de fev. de 2010

destilado

Eu poderia ter sido isso tudo, mas fui . Isso.

Esse era um epitáfio. No pequeno boteco cultural na frente do cemitério, o aviso completa a jornada entre morte e renascimento: se você não tiver idéias, pode entrar desacompanhado.

21 de fev. de 2010

recorded

"Abrir espaço, esse espaço // um barulho como quem bate no peito // para...não para mim. Para alguém além de você. Abrir esse espaço é organizar esse vazio que costuma atormentar as pessoas. Eu não estou falando em casamento. Quantas pessoas ficam juntas e não abrem esse espaço. Cada um encontra seu jeito, seu jeito de lidar com essas coisas, de dar algum sentido para vida. Mas eu tenho convicção de que esse movimento faz parte de você, esse espaço está ai, te pedindo para fazer algo a respeito. A última coisa que eu posso te dizer, antes de ir embora, é que se você me permitir participar disso, essa será a melhor parte de você."

Gravação cheia de ruídos da rua, feita entre 2001 e 2003.




10 de fev. de 2010

Perturba

“A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.”
Witold Gombrowicz (1904-1969)

1 de fev. de 2010

Jeneci

Um homem de barba descompromissada fez música da vida da música. Em qualquer outro lugar, aquilo faria o mundo inteiro mais belo. Como foi ali, na Casa das Caldeiras, fez apenas o mundo daquelas pessoas menos feio. Eu fui vazio de mundos e voltei pleno de qualquer coisa.

Uma mulher desistiu

Uma mulher desistiu. Eu retornei com essa frase na cabeça, com fé de que isso seria suficiente para chegar em casa. Um homem que desiste, tristeza. Uma mulher que desiste, desespero.

No meio do caminho, ouvi: Meus olhos não sabem mais discernir o que é homem do que é mulher. Eu não me contive, pois era quase esse tormento que distanciava minha casa.

- O medo cheira igual. Independente do perfume.

Eu não podia jurar que ele era cego, apesar de todo o figurino. Aquilo nunca fez sentido algum para mim. Mesmo sem enxergar, ele acenou a mão na minha direção. Nunca soube se ele dava tchau ou insistia para que eu fosse embora.

24 de jan. de 2010

27

A idade não sabe se traduz o tempo no corpo ou o mundo na alma. Nessa indecisão, celebramos aniversários. Aquele vigor, delicado e agressivo, da infância na ponta do kichute, ainda me rende frutos. Não há qualquer duvida que foi numa bicuda daquelas que cheguei até aqui. A intenção foi chutar pro gol, ou chutar pra frente sem piedade, mas acabou resultando num ótimo lançamento. Recebo a bola quase sem direito a dúvidas. Aprendo, a cada ano, um novo jeito de jogar junto com a idade. O corpo é a decisão da alma.

12 de jan. de 2010

ressucitando

_0 tempo desanimava um pouco as suas pernas. parada, ela possuía aquela beleza que pode matar um homem. ao movimentar suas pernas, ela fazia com que as imperfeições surgissem de maneira cadenciada. assim, nesse desânimo, pude me aproximar. desistir-me em sua vaidade carinhosa de meus olhos. Mas antes fosse perfeição, tudo aquilo, para me proteger e banhar de distância.

_quem quase morre acaba ressucitando um Pouco.

7 de jan. de 2010

Cabeça Branca

Lourival tem aquele cabelo grisalho e a pele anoitecida, com um bigode de vagabundo. Sempre gesticulando muito, foi da orla até o Pelourinho falando. De ínicio, achei que era mais um cobrador de ônibus safado. Adorava mexer com as mulheres. Num exercício inédito, tentei entendê-lo antes de todos os meus julgamentos.
- Ô minha querida, você é gordinha, mas tá ajeitadinha, hein?
Não demorou muito para eu entender que Lourival só elogiava as mulheres desprovidas do repertório convencional da beleza. Um apressado diria: as feias. Minha surpresa não estava nisso, uma vez que gosto é algo amplo, cabe tudo. A questão era a reação que ele provocava nessas mulheres. Lourival era praticamente um investidor tácito na auto-estima daquelas mulheres. Não sai da minha cabeça o sorriso da gordinha. Um sorriso bonito, gordo mesmo, de ponta a ponta.
- Toda mulher tem uma beleza guardada.
No sol do dia-a-dia Lourival era cobrador de ônibus, compositor dessa opereta para as mulheres desajustadas pela beleza tradicional. Na lua das noites ímpares, Lourival era Cabeça Branca, fazedor de sambas tristes na Barroquinha.
- Em terra de carnaval, a tristeza virou quase uma feiura.