10 de jan. de 2014

Devasta dor

No choro devastador ou no orgasmo profundo. Estava vivo. No intervalo entre esses dois acontecimentos, morria os dias. 

29 de jul. de 2013

Mais um dia

Por razões, desconheço. Por emoções que reconheço. Só há o dia, mais um dia, e amanheço.

26 de jun. de 2013

02 de fevereiro

Sua vida antes da barba foi a expectativa pela chegada dela. Há quem acredite que nasceu já com barba, já ensinando, nascido em sala de aula. É uma versão um pouco exagerada, mas merece ser ao menos mencionada. Quando eu era criança, o maior defeito de meu pai era não saber jogar bola. Era um legítimo perna-de-pau, indiscutível. Meu pai é de uma marca de gente parcelada. A gente vai pagando, aos poucos. A medida que o pagamento vai sendo efetuado, vamos nos apropriando do bem adquirido, do sentimento, às vezes tão sofrido. Descobri que sou forte nos outros, e frágil em mim mesmo. Todas as vezes que tentei ir embora, não consegui. Não é possível ir embora de meu pai a pé. A primeira vez que me fez chorar, fotografou. Dizia da beleza do meu choro, quando menino. Chorei outras tantas vezes por ele. Por incompreensão. Por mágoa. Por desvios. Hoje, choro de saudade. No dia líquido de Yemanjá, tenho a garoa paulistana e as palavras, sim, esse milagre que ainda me faz menos vira-lata, para entender que amor é isso também. Já colocou a mão na cara da polícia, foi líder vermelho em país verde-amarelo, teve um filho, três ou quatro grandes sonhos e cinquenta e um projetos. Meu pai ainda não descobriu que eu o re-inventei. Passou boa parte da nossa vida longe, tive tempo de desenheá-lo com barbas de várias cores e escrevê-lo com canetas variadas. Não irei me prolongar. Tenho exercitado os passos curtos. Essa pequena carta começou a ser escrita em um 23 de janeiro do ínicio da decáda de 80. E isso aqui é apenas um ponto de continuação. Meu pai foi a herança que meu avô me deixou. É a parte de mim mais resistente ao mundo.

Escrito em 02 de fevereiro de 2005.

1 de nov. de 2012

Eu gosto de ouvir seu discurso firme. Mesmo sabendo de toda incerteza necessária para que cada saliva sobreviva no teu argumento.

6 de ago. de 2012

Nacionalidade

Minha nacionalidade é a palavra "Vamos" saída de sua boca. Quando você diz, me sinto ouvindo o hino, com medalha no peito, nessas olimpíadas cheias de descaminho. Do Deus caminho.

18 de jul. de 2012

Me busque

- Me busque mais tarde.

Ela falou assim, com uma certa tranquilidade, como quem poderia a qualquer momento complementar com um "e não esquece de me trazer aquele chocolate que eu amo". Então sorriu, esse sorriso semente de novos mundos. E foi o último. O resto da minha vida agora chama-se mais tarde.

1 de jul. de 2012

Clube imaginário

Eu compreendo todos os homens que te amaram. Aqueles que sofreram, aqueles que te beijaram e aqueles que morreriam por um beijo teu. Transtornados, desculpo aqueles que te fizeram mal, consumidos por esse amor que você desperta. Fracassados, sinto a dor daqueles que moveram mundos para te conquistar e não conseguiram. Não invejo aqueles que te fizeram feliz, souberam navegar seus mares, sobreviveram em sua memória, te trouxeram até aqui. Não me sinto melhor, nem tenho soberba por estar no tempo presente, isso seria uma ilusão. Me sinto parte, próximo, mais um homem dentro desse grupo, de homens que ousaram te amar. Já pensei em promover encontros mensais, trocarmos confidências, cartas de amor, músicas, tragar um whisky cúmplice, reunir tudo que já foi feito em prol da experiência surpreendente que é te amar. Desisti não por achar defeito na ideia, mas percebi que o lugar desses encontros é o espaço do imaginário, e lá, eles já existem há muito tempo, antes de mim, e continuarão existindo depois. Nos encontramos na imaginação, trocamos detalhes, pequenas dicas, confidências, na imaginação somos sempre melhores, menos ásperos, mais compreensivos com nossa própria condição: de homens, que já te amaram. De fato, não existe esse verbo no passado. Dos homens que te amam. E assim seguem, sempre. Alguns aprenderam a assobiar, outros tiveram filhos, publicaram livros, encontraram outras mulheres e decoraram novas possibilidades sem você. Mas o clube, nossos encontros imaginários, o sentimento em comum, permanece, intacto, nos dá força, nos une em nossas individualidades pequenas. Tropeços daqueles que se acovardaram. Porque só é possível te amar sabendo-se parte desse grupo, como mutantes, sem o heroísmo dos X-Men, buscando sobreviver em seu sentimento, em sua memória. Não somos melhores, nem mais generosos, apenas descobrimos ainda em tempo, as regras desse jogo inexistente. Só compreendendo os homens que já passaram pela sua vida, consigo ser mais um. Mais um. E isso não retira meu desejo maior, de que esse clube se encerre com os sócios existentes.

30 de jun. de 2012

Personagem e Morte

Para se contar uma história que sobreviva as intenções e a mesquinhez do seu autor, é preciso manter viva e inabalável a possibilidade de matar seus personagens, todos eles, a qualquer momento.
Mesmo que ninguém morra na história, essa possibilidade precisa estar livre, solta, espontânea, disponível a cada novo páragrafo. Um personagem nasce com a mesma ambição dos leitores: salvar sua história da mediocridade. Se o teu personagem nunca padece da possibilidade da morte, ele jamais conquistará qualquer relevância na vida. Nós, que sempre nos vemos como autores, mas em grande parte, somos apenas personagens de nossas próprias histórias.

23 de jun. de 2012

26 de mai. de 2012

Muitos jeitos

Eu tenho esse problema na cabeça, sabe. Tenho uma memória rala, uma alma que não retém nem poeira. Eu não lembro mais todas as coisas que eu falei pra ela naquele dia. Mas não importa. Ela é essa pessoa que vai embora da sua vida e você nunca vai poder dizer que sua vida ficou melhor sem ela. Nunca. Ela passa pra te mostrar como toda essa maluquice pode ser fantástica, e você finalmente entende porque chamam isso de vida. Depois, ela vai embora e você nunca mais vai sentir o mesmo gosto. Acho que ela acabou levando algo de mim que era vital para sentir aquilo tudo. Existem muitos jeitos de viver a vida. E, não se engane, também existem muitos jeitos de morrer a vida. A morte é só o mais conhecido.