Shakespeare
18 de ago. de 2010
Shake
"Nisto é que consiste a monstruosidade do amor: em ser infinita a vontade e limitada a execução; em serem ilimitados os desejos, e o ato, escravo dos limites."
10 de ago. de 2010
Linguagem
Existe um desejo que não termina no corpo. Um desejo que inicia-se com fome e pressa, mas depois percebe-se sentindo, só querendo sentir-se e sentir mais. Existe um desejo que, ao reconhecer o sagrado do corpo, resolve não buscar seus limites na superfície. E sim, mergulhar onde o corpo não existe mais, no ilimitado das sensações. O corpo vira uma linguagem em comum, para se comunicar paixão. O desejo se torna apenas um sotaque. Gostoso de ser ouvido.
18 de jul. de 2010
12 de jul. de 2010
Não era pra ser
Toda frase inteligente surge de uma certa ignorância.
Não há delicadeza plena que não tenha sentido o gosto da grosseria.
4 de jul. de 2010
Meu retrato é silêncio

Eu estive perto do que não sei. Ao voltar, não consegui mais me adaptar.
Era assim que gostaria de ser lembrada. Porque todos querem ser lembrados. Um rascunho traduzia a memória do seu desamor. Um homem um tanto triste cercado por sua pequena plantação de verdades e sabedorias. Frustrado e solitário.
O que não se sabe é sempre uma outra pessoa. Essa estranha perspectiva: o outro revela inclusive o que não se sabe sobre si. Casada com a sua própria impossibilidade, permanecia o desejo de ser lembrada.
Sozinha, sabia demais. Assim faltou espaço pra mais, nada.O que não se sabe é sempre uma outra pessoa. Essa estranha perspectiva: o outro revela inclusive o que não se sabe sobre si. Casada com a sua própria impossibilidade, permanecia o desejo de ser lembrada.
Foto: Tiago Lima
29 de jun. de 2010
Eu posso ser feliz
Um homem gordo acordava todo dia e chegava na varanda do seu apartamento no centro e gritava: "Eu posso ser feliz."
Se algum vizinho ou transeunte reclamasse, ele repetia. Era capaz de repetir insistentemente para reagir a cada reclamação. Reativo, até quando o céu estava acinzentado, ele tomava as dores. E repetia o grito.
Isso ocorreu durante anos e aquela história corria os quarteirões. A rua do gordo que pode ser feliz.
Ontem o gordo, já meio emagrecido, com uma cara visivelmente abatida, chegou na varanda, olhou para os lados e para o céu. Ontem fez um solzinho até. Ziltino da padaria, lá embaixo, deixou o pão na chapa e colocou a cara pra fora, estranhando a ausência do grito.
O gordinho se jogou lá de cima. Nem gritou nada.
O silêncio engoliu a rua. Estava todo mundo impactado, sem saber o que dizer, como reagir. Nem o Tião piadista conseguiu improvisar uma anedota a tempo. Calou-se. Quem estava ali podia jurar que o silêncio nunca mais iria embora.
Até que uma senhora velhinha, a vizinha do gordinho, chegou na varanda dela e gritou: "Eu também posso ser feliz."
Se algum vizinho ou transeunte reclamasse, ele repetia. Era capaz de repetir insistentemente para reagir a cada reclamação. Reativo, até quando o céu estava acinzentado, ele tomava as dores. E repetia o grito.
Isso ocorreu durante anos e aquela história corria os quarteirões. A rua do gordo que pode ser feliz.
Ontem o gordo, já meio emagrecido, com uma cara visivelmente abatida, chegou na varanda, olhou para os lados e para o céu. Ontem fez um solzinho até. Ziltino da padaria, lá embaixo, deixou o pão na chapa e colocou a cara pra fora, estranhando a ausência do grito.
O gordinho se jogou lá de cima. Nem gritou nada.
O silêncio engoliu a rua. Estava todo mundo impactado, sem saber o que dizer, como reagir. Nem o Tião piadista conseguiu improvisar uma anedota a tempo. Calou-se. Quem estava ali podia jurar que o silêncio nunca mais iria embora.
Até que uma senhora velhinha, a vizinha do gordinho, chegou na varanda dela e gritou: "Eu também posso ser feliz."
28 de jun. de 2010
Beijo no guardanapo
Ela deu um beijo no guardanapo, sorriu com a suavidade de quem sabe usar um batom rosa e partiu. Uma espécie de cartão-de-visitas, com uma certa intimidade. Numa fração de instantes, aquele jovem deixara de ser o geniozinho tímido e muito doido e surgia na condição de profundo especialista em mulheres bonitas e interessantes.
No guardanapo, não tinha sequer um numero, uma dica, nada escrito. Ela mudou a vida daquele jovem pra sempre, mas eles nunca mais se encontraram. Ela preferiu apostar tudo num pequeno gesto. O encanto virou um rastro na memória.
No guardanapo, não tinha sequer um numero, uma dica, nada escrito. Ela mudou a vida daquele jovem pra sempre, mas eles nunca mais se encontraram. Ela preferiu apostar tudo num pequeno gesto. O encanto virou um rastro na memória.
18 de jun. de 2010
Jovem, velho, morto.
"Nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe."
Em A Caverna de José Saramago.
Em A Caverna de José Saramago.
Bilhete
Sílvia,
O coração é feito de bilhetes. Por mais que seja organizado em romances, televsionado em novelas ou espetacularizado em filmes. Esses, nada mais são, que bilhetes. Tive vontade de te escrever exatamente porque não sei quase nada sobre você. Nesse espaço que pouco sei, preenchi com seu nome e o carinho da sua admiração. E inventei um bilhete para esse anonimato que me reconhece.
Minha vaidade é uma companheira ausente. Ao ser tocada, sua ausência se desespera. Permanece a delicadeza do toque. Obrigado pelos olhos.
Minha vaidade é uma companheira ausente. Ao ser tocada, sua ausência se desespera. Permanece a delicadeza do toque. Obrigado pelos olhos.
17 de jun. de 2010
Aipim
Aipim curava os meninos com música. Isso, digo eu, que insisto em adesivar bonito o que nasceu sem intenção pra vestir-se com cola. Ele surgiu de uma família de músicos, dos tipos diversos, daqueles com escola até os descolados. Mas ninguém falava "música". Existe um olhar dentro da família de Aipim que significava isso. O olhar anunciava e o corpo mexia bonito, de leve, rasteiro, introduzindo a primeira intenção de dança. A dança é o corpo sendo música. É no corpo que a música faz trampolim. E é sobre ele que ela desce quando volta do vôo.
Um menino chegou desavisado com a doença de não gostar do seu pai. Todos diziam que era doença incurável, maldita, e pior falando, era uma lepra calibrosa que botaram no menino, como se ele fosse a origem e o sintoma da desgraciosa doença. Aipim respira um ar pequeno, possui uma humildade quando divide o ambiente com mais alguém. O menino chegou querendo quase não precisar mais existir. Como se ele tivesse passado a infância inteira correndo de esconde-esconde e acabara de chegar. Ainda guardava um pouco do cansaço da primeira vez que chorou na vida. Aipim passou a mão na nuca do menino e disse: Você gosta de amanhã?
O menino tinha tudo para nem entender. Mas nem entender já era demais pra ele. O menino respondeu: Quando eu penso que amanhã não vai ter pai, gosto de verdade.
Aipim fez o olhar. Iniciou a dança. E compartilhou com o menino um sonzinho, que começava simples na boca, movia pelos braços, que pediam um batuque, desses de leve.
"Amanhã nunca tem pai. É sempre filho. Mas diga aqui entre nós todos dois - Tem palavra esse desgostar?"
O menino mostrou umas feridas de sempre. De ontem, anteontem, de anos atrás. É de sempre antigo, ainda há o de sempre que quer ser.
Aipim batucou um pouco mais. E finalizou:
- Ainda te sobra um bom punhado de amanhãs pra serem gostados sem feridas. A dor parece que vem pra aquietar a gente. Mas é traquinagem dela. A dor vem é pra gente pegar impulso.
Um menino chegou desavisado com a doença de não gostar do seu pai. Todos diziam que era doença incurável, maldita, e pior falando, era uma lepra calibrosa que botaram no menino, como se ele fosse a origem e o sintoma da desgraciosa doença. Aipim respira um ar pequeno, possui uma humildade quando divide o ambiente com mais alguém. O menino chegou querendo quase não precisar mais existir. Como se ele tivesse passado a infância inteira correndo de esconde-esconde e acabara de chegar. Ainda guardava um pouco do cansaço da primeira vez que chorou na vida. Aipim passou a mão na nuca do menino e disse: Você gosta de amanhã?
O menino tinha tudo para nem entender. Mas nem entender já era demais pra ele. O menino respondeu: Quando eu penso que amanhã não vai ter pai, gosto de verdade.
Aipim fez o olhar. Iniciou a dança. E compartilhou com o menino um sonzinho, que começava simples na boca, movia pelos braços, que pediam um batuque, desses de leve.
"Amanhã nunca tem pai. É sempre filho. Mas diga aqui entre nós todos dois - Tem palavra esse desgostar?"
O menino mostrou umas feridas de sempre. De ontem, anteontem, de anos atrás. É de sempre antigo, ainda há o de sempre que quer ser.
Aipim batucou um pouco mais. E finalizou:
- Ainda te sobra um bom punhado de amanhãs pra serem gostados sem feridas. A dor parece que vem pra aquietar a gente. Mas é traquinagem dela. A dor vem é pra gente pegar impulso.
16 de jun. de 2010
Pode e não pode
"Não saber para onde ir, pode. Deixar de ir para onde se sabe, não pode."
Ela segurou aquele bilhetinho escrito com letras pequenas e bem acabadas, letras de fôrma, numa tentativa de não revelar nenhum traço da personalidade do autor. Eu vi seu rosto angustiado, tentando encontrar um lugar seguro para repousar o olhar. Durante alguns instantes, achei que ela tinha acabado de receber a pior notícia do mundo. No instante seguinte, ela abriu um dos maiores sorrisos que eu já vi na vida, largou o bilhetinho na rua e saiu correndo. Correu, correu, correu. Lá longe, avistei ela dando um abraço em alguém.
Recolhi o bilhetinho e rapidamente me veio o desejo de que pudesse acontecer a mesma coisa comigo.
Voltei pra casa com o bilhete.
Recolhi o bilhetinho e rapidamente me veio o desejo de que pudesse acontecer a mesma coisa comigo.
Voltei pra casa com o bilhete.
5 de jun. de 2010
Cores
23 de mai. de 2010
Alma
"Há um olhar que sabe discernir o certo
do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência
significa desrespeito e a desobediência
representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos
longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita
em afirmar que existem fidelidades perversas
e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma."
Nilton Bonder, A Alma Imoral.
do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência
significa desrespeito e a desobediência
representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos
longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita
em afirmar que existem fidelidades perversas
e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma."
Nilton Bonder, A Alma Imoral.
15 de mai. de 2010
Mais uma língua
Eu carrego essa alegria de quem é fluente na tristeza. Mais do que uma língua estrangeira, a alegria é sempre um idioma anterior a qualquer coisa, e vem com a força da própria vontade de se comunicar. A alegria surge como as primeiras palavras que consegui falar, quando criança. Um som que saiu da minha boca e foi percebido pelo outro, com algum sentido. A alegria me engana de mim mesmo. Minha tristeza não faz nada. Apenas envelhece junto comigo, guardando algum amor perdido. A tristeza que se movimenta, já não é mais tão tristeza assim.
25 de abr. de 2010
Dialeto do sexo
A fluência no dialeto do sexo indicutivelmente te abre diversas portas. Dialeto precioso, uma língua mais antiga e muito mais global que o inglês. Mas exige-se uma grande sabedoria para entender o contexto, os sotaques e a cultura para encontrar e reinventar o jeito de falar essa língua ancestral.
Mas a língua é só o caminho. O que você quer dizer? Lembro de um jovem artista dizendo ao seu professor de língua estrangeira: mas é muito díficil criar algo original nessa sua língua. E o professor responde: primeiro, preocupe-se em criar algo original. Toda língua possui seus artíficios para traduzir a genialidade.
Essas duas pensatas, juntas, podem até transparecer pouco sentido. Mas é um engano. Saber o que você quer expressar, no dialeto do sexo, traz uma consistência poderosa. A ausência disso atormenta a maioria. Nessa e em outras formas de comunicação. Em diversas línguas. Ao redor do mundo.
Esvaziada, vejo a beleza morrer em silêncio, na sala do apartamento. Não há o que dizer.
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