23 de out. de 2010

Uma casinha na Vila Anglo

Eu queria começar esse texto como se estivesse começando uma vida. Mentira. Eu queria começar esse dia como quem começa um texto. Com uma idéia do que pode ser. Uma semente. E mergulhar na própria semente, como se fosse possível sentir o prazer da colheita no próprio semear. Hoje é um dia comum, mas diferente de todos os outros. Estou aqui sentado numa casa nova, ouvindo o zumbido da geladeira. Talvez pela falta de móveis, talvez pela geografia íntima da casa, que faz a cozinha o coração da casa, o fato é que o zumbido da geladeira se espalha com facilidade. E subitamente, o barulho para. Pois é intermitente. E dá espaço para o som dos passarinhos que estavam ainda num canto sonolento de quem acaba de acordar.

Essa é uma descrição sem muito charme do que se apresenta nesse instante. Diante dos meus olhos, no ritmo pacato da minha respiração. O que me motivou a escrita não foi nenhuma idéia. Quando não há semente disponível, ainda há um movimento possível. Levanto, passeio e volto.
Agora eu moro numa casa em que posso passear dentro dela. Eu vou na sala com a esperança de me surpreender de mim. Ou voltar com algo novo na cabeça. Eu trouxe meus joelhos para acompanharem com isenção tudo aquilo que minhas pernas tem passado. Mas a isenção é uma falsidade complacente. O joelho foi o meu parente que mais gostou da nova casa. Ao tentar explicar para o resto da família, ele apenas diz: Só sabe quem sente.

30 de set. de 2010

Pessoa hoje

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

21 de set. de 2010

A objetividade e a fragilidade

Era uma noite chuvosa, a passagem de volta dele já estava comprada, não havia nenhum frescor naquele vento carioca que atestaria uma mudança de rota. Mas isso é Rio de Janeiro. Não muito longe, na mesma rua, era possível enxergar a placa de um hotel, ali em pleno Catete. Ele olhou em direção a placa, e ficou imóvel, até ela estranhar e olhar na mesma direção. Apenas com um olhar, ele fez o convite para a noite. Mas não era uma história simples, um olhar não iria resolver tudo. Foram horas intensas de suor escorrendo pelo coração ao som daquele samba dolorido. Então ela rompeu o silêncio com uma objetividade raríssima no universo feminino.

- Me dê um motivo para eu dar o próximo passo, e esquecer de toda a dificuldade que vai vir.

Depois da sacada magistral daquele olhar, a expectativa era alta. Ele poderia ter se fortalecido em sua condição e talvez uma boa citação poética resolvesse. Mas diante da objetividade feminina, ele percebeu que só existia um caminho: a fragilidade masculina.

- Eu preciso de um motivo para acordar amanhã. Não consigo imaginar nenhum outro motivo que não seja você.

19 de set. de 2010

18 de ago. de 2010

Shake

"Nisto é que consiste a monstruosidade do amor: em ser infinita a vontade e limitada a execução; em serem ilimitados os desejos, e o ato, escravo dos limites."

Shakespeare

10 de ago. de 2010

Linguagem

Existe um desejo que não termina no corpo. Um desejo que inicia-se com fome e pressa, mas depois percebe-se sentindo, só querendo sentir-se e sentir mais. Existe um desejo que, ao reconhecer o sagrado do corpo, resolve não buscar seus limites na superfície. E sim, mergulhar onde o corpo não existe mais, no ilimitado das sensações. O corpo vira uma linguagem em comum, para se comunicar paixão. O desejo se torna apenas um sotaque. Gostoso de ser ouvido.

12 de jul. de 2010

Não era pra ser

Toda frase inteligente surge de uma certa ignorância.

Não há delicadeza plena que não tenha sentido o gosto da grosseria.

4 de jul. de 2010

Meu retrato é silêncio



Eu estive perto do que não sei. Ao voltar, não consegui mais me adaptar.


Era assim que gostaria de ser lembrada. Porque todos querem ser lembrados. Um rascunho traduzia a memória do seu desamor. Um homem um tanto triste cercado por sua pequena plantação de verdades e sabedorias. Frustrado e solitário.
O que não se sabe é sempre uma outra pessoa. Essa estranha perspectiva: o outro revela inclusive o que não se sabe sobre si. Casada com a sua própria impossibilidade, permanecia o desejo de ser lembrada.

Sozinha, sabia demais. Assim faltou espaço pra mais, nada.

Foto: Tiago Lima

29 de jun. de 2010

Eu posso ser feliz

Um homem gordo acordava todo dia e chegava na varanda do seu apartamento no centro e gritava: "Eu posso ser feliz."
Se algum vizinho ou transeunte reclamasse, ele repetia. Era capaz de repetir insistentemente para reagir a cada reclamação. Reativo, até quando o céu estava acinzentado, ele tomava as dores. E repetia o grito.

Isso ocorreu durante anos e aquela história corria os quarteirões. A rua do gordo que pode ser feliz.

Ontem o gordo, já meio emagrecido, com uma cara visivelmente abatida, chegou na varanda, olhou para os lados e para o céu. Ontem fez um solzinho até. Ziltino da padaria, lá embaixo, deixou o pão na chapa e colocou a cara pra fora, estranhando a ausência do grito.

O gordinho se jogou lá de cima. Nem gritou nada.

O silêncio engoliu a rua. Estava todo mundo impactado, sem saber o que dizer, como reagir. Nem o Tião piadista conseguiu improvisar uma anedota a tempo. Calou-se. Quem estava ali podia jurar que o silêncio nunca mais iria embora.

Até que uma senhora velhinha, a vizinha do gordinho, chegou na varanda dela e gritou: "Eu também posso ser feliz."

28 de jun. de 2010

Beijo no guardanapo

Ela deu um beijo no guardanapo, sorriu com a suavidade de quem sabe usar um batom rosa e partiu. Uma espécie de cartão-de-visitas, com uma certa intimidade. Numa fração de instantes, aquele jovem deixara de ser o geniozinho tímido e muito doido e surgia na condição de profundo especialista em mulheres bonitas e interessantes.

No guardanapo, não tinha sequer um numero, uma dica, nada escrito. Ela mudou a vida daquele jovem pra sempre, mas eles nunca mais se encontraram. Ela preferiu apostar tudo num pequeno gesto. O encanto virou um rastro na memória.

18 de jun. de 2010

Jovem, velho, morto.

"Nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe."

Em A Caverna de José Saramago.

Bilhete

Sílvia,

O coração é feito de bilhetes. Por mais que seja organizado em romances, televsionado em novelas ou espetacularizado em filmes. Esses, nada mais são, que bilhetes. Tive vontade de te escrever exatamente porque não sei quase nada sobre você. Nesse espaço que pouco sei, preenchi com seu nome e o carinho da sua admiração. E inventei um bilhete para esse anonimato que me reconhece.

Minha vaidade é uma companheira ausente. Ao ser tocada, sua ausência se desespera. Permanece a delicadeza do toque. Obrigado pelos olhos.


17 de jun. de 2010

Aipim

Aipim curava os meninos com música. Isso, digo eu, que insisto em adesivar bonito o que nasceu sem intenção pra vestir-se com cola. Ele surgiu de uma família de músicos, dos tipos diversos, daqueles com escola até os descolados. Mas ninguém falava "música". Existe um olhar dentro da família de Aipim que significava isso. O olhar anunciava e o corpo mexia bonito, de leve, rasteiro, introduzindo a primeira intenção de dança. A dança é o corpo sendo música. É no corpo que a música faz trampolim. E é sobre ele que ela desce quando volta do vôo.
Um menino chegou desavisado com a doença de não gostar do seu pai. Todos diziam que era doença incurável, maldita, e pior falando, era uma lepra calibrosa que botaram no menino, como se ele fosse a origem e o sintoma da desgraciosa doença. Aipim respira um ar pequeno, possui uma humildade quando divide o ambiente com mais alguém. O menino chegou querendo quase não precisar mais existir. Como se ele tivesse passado a infância inteira correndo de esconde-esconde e acabara de chegar. Ainda guardava um pouco do cansaço da primeira vez que chorou na vida. Aipim passou a mão na nuca do menino e disse: Você gosta de amanhã?
O menino tinha tudo para nem entender. Mas nem entender já era demais pra ele. O menino respondeu: Quando eu penso que amanhã não vai ter pai, gosto de verdade.
Aipim fez o olhar. Iniciou a dança. E compartilhou com o menino um sonzinho, que começava simples na boca, movia pelos braços, que pediam um batuque, desses de leve.
"Amanhã nunca tem pai. É sempre filho. Mas diga aqui entre nós todos dois - Tem palavra esse desgostar?"
O menino mostrou umas feridas de sempre. De ontem, anteontem, de anos atrás. É de sempre antigo, ainda há o de sempre que quer ser.

Aipim batucou um pouco mais. E finalizou:

- Ainda te sobra um bom punhado de amanhãs pra serem gostados sem feridas. A dor parece que vem pra aquietar a gente. Mas é traquinagem dela. A dor vem é pra gente pegar impulso.