30 de set de 2010

Pessoa hoje

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

21 de set de 2010

A objetividade e a fragilidade

Era uma noite chuvosa, a passagem de volta dele já estava comprada, não havia nenhum frescor naquele vento carioca que atestaria uma mudança de rota. Mas isso é Rio de Janeiro. Não muito longe, na mesma rua, era possível enxergar a placa de um hotel, ali em pleno Catete. Ele olhou em direção a placa, e ficou imóvel, até ela estranhar e olhar na mesma direção. Apenas com um olhar, ele fez o convite para a noite. Mas não era uma história simples, um olhar não iria resolver tudo. Foram horas intensas de suor escorrendo pelo coração ao som daquele samba dolorido. Então ela rompeu o silêncio com uma objetividade raríssima no universo feminino.

- Me dê um motivo para eu dar o próximo passo, e esquecer de toda a dificuldade que vai vir.

Depois da sacada magistral daquele olhar, a expectativa era alta. Ele poderia ter se fortalecido em sua condição e talvez uma boa citação poética resolvesse. Mas diante da objetividade feminina, ele percebeu que só existia um caminho: a fragilidade masculina.

- Eu preciso de um motivo para acordar amanhã. Não consigo imaginar nenhum outro motivo que não seja você.