29 de abr de 2009

Sangue

- Olhei bem em seus olhos e compartilhei minha profunda crença naquelas palavras.

Coração? É só o ínicio. Mas definitivamente não é o órgão do amor. A cabeça, o cérebro? Só porque controla as terminações nervosas? Quando você dói de amor você tem dor de cabeça? Claro que não é na cabeça, apesar de todos os racionais terem argumentos para isso.
O órgão do amor é o sangue. Está em todo lugar. Exceto nas partes mortas, como cabelos e unhas. Quando é pleno, o corpo inteiro vibra, parece um carnaval gritando por dentro. Quando dói, possui essa preciosa habilidade de doer em todo lugar a ponto de você não saber onde dói. O amor não tem dor localizada. O coração é o órgão da paixão, talvez. O ínicio de tudo. O ínicio do amor. Bota pra fora: vai pro resto do corpo e quando voltar me diz se virou amor ou tudo já se acabou.
Por isso menino, nada como doar sangue após uma desgraça amorosa.

- Eu quase não consegui levantar para fazer o teste de sangue.

O segredo do goleiro

45 minutos. Segundo tempo.
O melhor é não pensar em quanto tempo de acréscimo teremos. Para quem está em campo, isso não importa mais. É preciso apenas um gol. O desespero é latente em todos os rostos. O problema do desespero é que ele não te leva a lugar nenhum. Dificilmente uma atitude tomada em pleno desespero vai te ajudar. Foi nesse momento que ele lembrou. Era o goleiro. O time inteiro dividido entre o pânico e o desespero. Escanteio. Lá do outro lado do campo. O goleiro respirou fundo, fechou os olhos, e quando abriu já estava na outra metade do campo. Acreditando que o goleiro estava sendo movido pelo mais completo desespero, metade do time encarou aquilo como uma confissão de falência, e a outra metade tentou tirar motivação daquela cena, mas estavam desesperados demais para qualquer movimento sadio. O goleiro sabia que era o único com condições de ressignificar o desespero e partir pra frente. E fez. Mas obviamente isso não era suficiente, não existem milagres e ao contrário do que ele ouvia no programa da Xuxa quando criança, não basta querer muito alguma coisa. Você precisa ter um plano pra conseguir. Uma estratégia. Inventar um jeito. Motivação sozinha é como desespero: não te move pra frente, só de um lado pro outro.
O goleiro olhou bem firme para seu companheiro que estava prestes a bater o escanteio. E fez um gesto com a mão como quem diz: "sou eu quem está aqui". Ninguém mais entenderia. Mas ele entendeu. Ajeitou novamente a bola. A estratégia do goleiro era simples mas era o melhor aliado que sua sorte poderia ter. Ele deu o primeiro passo dentro da área adversária pensando não como mais um jogador. Mais um atacante atônito e desesperado do seu time. Esses caras tiveram tempo suficiente para fazer um gol. E não conseguiram. Ele não podia agir como um atacante ordinário. Naquela área repleta de zagueiros suados e nervosos, ele precisava de algo inusitado. Ele precisava pensar como um goleiro. Nisso, ele tinha bastante experiência. O goleiro adversário olhou para ele de uma maneira estranha. Todos os zagueiros adversários pareciam zombar do goleiro querendo fazer o gol. Apenas o goleiro adversário teve aquele péssimo pressentimento, como se reconhecesse ali um profundo conhecedor de todas as suas fraquezas.

O escanteio foi batido. Não vou descrever o lance, porque sou um péssimo narrador esportivo.

O goleiro pensou e agiu como um goleiro. E fez o gol. Num lance rápido, o juiz não percebeu mas o gol teve uma leve ajuda da mão esquerda. Não sei se era de Deus, como naquele gol do Maradona. Mas o fato é que o gol foi validado. E não existe injustiça no futebol, apesar de todo o rebanho de lamentações. Existem paixões e um resultado.

O goleiro fez o que somente ele poderia ter feito. E fez a diferença.

27 de abr de 2009

Viventes

Eliane Brum, terminei teu artigo sem saber se queria casar contigo ou ir pra casa e finalmente chorar leve.

"Por que sobrevivemos à grande queda ou às sequências de pequenos, mas dolorosos tombos? Porque não sobrevivemos. Percebo que não há como sobreviver, só o que podemos fazer é viver. Reinventar a vida incluindo nela o sangue, o barro e o limo do fundo do poço. Criar um sentido para o que aparentemente não tem nenhum. Não existem sobreviventes. O que existe são viventes."

24 de abr de 2009

Olhos bonitos

Quando a conheci, nem sabia o que ela era, quem era, o que fazia. Apenas fiquei feliz por ela ter aqueles olhos bonitos e ela ter sentado ao meu lado, naquela mesa de bar com pessoas em comum. Eram olhos bonitos e estranhos. Quando ela começou a falar os olhos fizeram mais sentido. Agora, quando leio suas palavras fico imaginando seus olhos bonitos e cheios de sentido.

E hoje, ao ler algo que ela colocou no blog, me veio na minha memória um dia fundamental na minha vida. O dia do muro. Eu devia ter uns dez anos quando vi um muro com as seguintes frases grafitadas:

As pessoas não mudam. Adaptam-se.
As dores não passam. Mas vai melhorar.
Deus não existe. Mas acredite.
O amor é uma doença. Mas não se cure.

Lembro de ter tirado o caderno da mochila e anotado. A partir disto, todo o resto deixou de ser lembrança e passou a ser invenção. Ali eu me iniciei. Até então, eu tinha sido iniciado.

Leiam ela também. Cris Guerra. Ser mãe a tornou uma literatura sublime.

23 de abr de 2009

Quiser

Existe um antigo provérbio africano que diz o seguinte:

se você quiser ir rápido, vá sozinho.
se você quiser ir longe, vá acompanhado.

21 de abr de 2009

Lirinha no teatro

Uma cena sem filme

Eu queria que você sentasse aí porque eu tenho essa história pra te dizer. Não, eu sei, não é assim também. Eu costumo achar que as coisas sérias ou tristes a gente precisa escutar sentado. Tenho pra mim que a tristeza influencia na gravidade o que pode causar um certo atordoamento em quem está de pé. Bom, sentado ameniza alguma coisa. Talvez ouvir essas coisas deitado. É, eu sei. Melhor mesmo seria não ter que ouvir.

Eu sei que você me conhece, mas isso vai acabar atrapalhando as coisas. É impossível você fingir que não sabe quem eu sou, mas você pode tentar escapar desses pensamentos que tentam mapear antecipadamente o que estou dizendo, só porque você me conhece. Algo como "ih..agora vem a parte que ele faz um drama". Ou "já conheço esse tom de voz". Eu também costumava me conhecer e passei a me dar melhor comigo mesmo quando me permiti essas surpresas, me permiti não ficar antecipando ou bordando fatalismos nos meus atos.

É, eu sei. Então, era isso mesmo que eu queria te dizer. Não, não, foi até melhor você ter dito, ter tomado a iniciativa. Tá. Tudo bem. Eu sei. Quer dizer, sei porra nenhuma.

Eu que deveria ter sentado, né?

Someone once told me


19 de abr de 2009

Porque sou autor.

"Um autor não é somente alguém que publica algo, tanto em forma de artigos, livros ou por meio digital. É, sobretudo, alguém que ocupa certo lugar, se autoriza a registrar suas palavras, esperando algum efeito no outro."

Num folheto de um forum lacaniano.

14 de abr de 2009

Vôo de Minas

Fui para Minas e voltei bem, feliz. Em Minas o mundo parece mais sereno, as miúdezas possuem mais espaço para caminhar. Na Bahia, parece que fui pra África e mesmo sendo meu ninho, Salvador é sempre uma cidade que seduz, nunca acolhe. São Paulo é uma Nova York esculhambada, tentando concatenar seu desejo cultural de uma Paris que não existe mais - nem na própria Paris - aos seus impasses de mundo globalizado, mesmo desacreditada em sua própria ideologia. Mas acho que é por ser baiano, e morar em São Paulo, que me aproximo de Minas e do seu belo horizonte desse jeito.

Lá em Minas, eu voei. Chama-se paraglider ou para-pente. Fomos numa Serra, vi aqueles pássaros de gente com asas coloridas e não tive dúvida. O ímpeto é sempre passível de desconfiança. Mas pensei comigo que medo é um negócio que só tem serventia no chão. Pode lhe prevenir de certas coisas, o receio não deixa de ser uma sirene interna. Mas de que vale ter medo no céu?

Voar é sem palavras.

8 de abr de 2009

Pandemônio

"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório."

Chico, impossível. Leite derramado.

4 de abr de 2009

encontro

Hoje encontrei uma pessoa que reconheceu meu nome e se mostrou leitor do blog. Ao longo desses anos e aventuras, sei que tem pessoas por aí lendo isso aqui. Mas é sempre estranho esse contato cara-a-cara e nunca me habituo. Do encontro, me marcou o final. Essa pessoa estava brincando com o título do blog. Perguntou por quê eu queria sair de mim, ainda mais a pé.

Eu respondi que não era uma questão de querer. O título desse blog anuncia um pouco do que aqui se apresenta. Não é possível chegar a nenhum lugar se você não partir de si mesmo, ter-se por ínicio, colocar-se no que faz, no que pensa, no que cria, no que inventa. Isenção é um crime sorrateiro, mas que continua recebendo pena de morte na auto-estima da verdade. Enquanto a falácia alia isenção a verdade, eu alio paixão a verdade. Somente as palavras apaixonadas podem emanar alguma verdade. Não consigo ir embora de mim a pé é minha manchete passional.