12 de dez de 2011

Não sei

"Não sei mais sobre o quê escrever."

Passei dias pensando nessa frase. Foi um bilhete deixado antes do suicídio. Ele passou a maior parte da sua vida completamente analfabeto, inicialmente por circunstâncias óbvias, mas depois, ele mesmo admitiu, por um certo receio. Ele trabalhou durante toda sua vida numa grande fazenda de eucaliptos, dedicada exclusivamente para a produção de papel. Sem nenhuma motivação aparente ou expressa, já aos quarenta e poucos anos, aquele camponês com ar eminentemente triste e solitário, resolvera iniciar sua jornada no aprendizado da língua escrita. Ele precisou de cinco anos para escrever sua primeira frase. Algumas professoras diziam que, na verdade, ele já tinha aprendido, mas algo o bloqueava para efetivar e consumar o ato da escrita. Sua primeira frase foi também a sua última. Ninguém sabe dizer mais sobre o acontecido. Não tinha filhos, não tinha família, praticamente não tinha pertences. Colegas de trabalho e da escola, professoras e todo o pessoal da pequena cidade, formada basicamente pela órbita dessa grande fazenda de eucaliptos, ficaram perplexos, silenciosos, atormentados. Tudo já parecia triste e sombrio por demais, quando o prefeito, na verdade, o líder comunitário do vilarejo, toma uma decisão para tentar ajudar a cidade a compreender aquele fato. Ele convida e contrata um escritor. Para escrever a biografia do camponês? Para narrar aquela história trágica? Para dar aulas mais interessantes de escrita na escola local temendo que essa tenha sido a causa do suicídio?
Ele não chegou a balançar a cabeça em nenhuma direção, ou seja, não afirmou nem negou nada. Apenas me disse com um tom muito sincero: "Não sei. Quem sabe, você podia escrever o que o Arlindo não sabia mais."

18 de out de 2011

Nunca dormiu. As vezes, deixava de pagar a conta de luz para cortarem; mas o escuro pode ser tudo, menos sono. Porque o sono é uma mentira necessária, mas ainda assim, uma mentira.
A modernidade é um tropeço da história.

14 de ago de 2011

Memórias de encantamento

Acabei de receber de uma antiga paixão, trechos resgatados. 

1.
Amor é quando nasce morangos num pé de goiaba.

2.
Queria fazer filhos com seus pés, mas acabei me contentando com seus dedos.

3.
De manhã seus olhos passeiam por mim com um gosto azul. Eles passeiam e eu me perco.

4.
Tenho poucas fichas. Mas aposto todas. As cartas estão na mesa. Aposto também minhas camisas e dou um cheque pré-datado: até onde o seu cheiro me levar.

5.
Há um cantinho da sua língua que me faz acreditar no mundo.

13 de ago de 2011

O mais fiel

O impossível é provavelmente o parente mais fiel. O pai falta, a mãe nem sempre vai poder. O tio divertido perde a graça. O avô sempre dura pouco. O impossível permanece. Infilitra-se no cobertor e te conta histórias no ouvido. E você as vezes chama de sonho, as vezes de pesadelo, as vezes é apenas aquela voz por dentro que não dá pra silenciar. A natureza do vínculo que temos com o impossível transcende o próprio umbigo. É impossivel permanecer com o cordão umbilical pra sempre. O impossivel é quase sempre um eco, um silencio que diz. Mas sabemos que o impossível é fluente em todas as linguas. Ele se lambuza no dialeto do amor. Porque o amor é esse sentimento que tenta tornar o impossível um analfabeto. O amor esta sempre entre dois movimentos: debochar do retrato do impossível, assim, deslavadamente, ou borrar o mesmo retrato com lágrimas, quando torna-se inevitável reconhecer a paternidade do mesmo. É isso, o impossível tem um parentesco nômade. Não se aquieta em nenhuma casa desse tabuleiro.

"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez."


29 de jul de 2011

Era

Todas as histórias de amor já foram contadas. Ele disse, reticente.
Então sobra espaço para todas as outras que serão apenas sentidas. Ela, respondeu.

19 de jul de 2011

Relógio

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que eles não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”

Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio, de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e Famas.

4 de jun de 2011

Tudo aqui do lado

Esta tudo acontecendo aqui do lado. Tudo. Se tiver faltando alguma coisa, pode pedir para aquela moça gorda e simpática ali.

[o tempo escolheu dois lugares no mundo para passar férias, com alguma frequência: nos olhos dos apaixonados e nos passos das enfermeiras]

Ela pensava que doença era um malabarismo com a morte. Foi aquela moça gorda e simpática que, sem perceber, mudou sua visão. Adoecer é a vida engasgando em si mesma. Quem morre, deixa de adoecer e se concentra somente em estar morto.

[foi a moça gorda que deu a notícia. Realmente, ela era muito simpática]

9 de mai de 2011

Um dia sem a palavra

Então a gente inventou a palavra amor, pra tentar organizar esse barril de pólvora que acende por dentro. Se tem nome, a gente pode chamar. Se tem nome, a gente pode escrever um bilhete. Se tem nome, o correio vai saber o destinatário. Amor. E se por um dia essa palavra deixasse de existir. Sumisse do dicionário, dos poemas, das canções, das bocas dos românticos, das pixações na rua. Um dia no mundo sem a palavra amor. Veja, só a palavra desapareceria. O que faríamos? Inventamos as palavras para serem nossos escudos entre coisas e sentimentos e nós mesmos. Sentir algo que não tem palavra é puro delírio. Por um dia, estaríamos de volta a sala da alfabetização. Em um dia, como a tia da escola iria nos ensinar a inventar uma palavra para essa coisa sem nome que nos move por dentro? Como distinguir isso de uma caganeira ou um ataque de euforia?  

Um dia sem a palavra amor, no mundo.

26 de abr de 2011

Caminhos

Abro caminhos sem saber sobre sua serventia futura. Ligará o quê ao quê? Afluentes avulsos se encontram nas vias paralelas, comentam, falam de mim pelas perpendiculares. Abro caminhos sem saber quando estou asfaltando antigas estradas ou inventando novos chãos. Não pergunto, sigo, faço, ímpeto. Não é sempre assim. Abro caminhos sem saber da minha própria direção, porque minha sina está desamparada. Tudo é lazer, tudo é trabalho. Não escolhi uma vida com décimo terceiro. Então sei o peso de caminhar fantaseado de primeiro. Abro caminhos sem saber. A verve transborda nessas temporadas cheias de ausência do amor. Quando vier, teremos muito espaço para se perder, penso. Bobagem, e de bobagens também se compõe caminhos consistentes. Não há preparo. Existe só o ímpeto, um corpo atormentado que descobriu seu jeito de existir. Uns se recolhem, as vezes adoecem, esperam novas colheitas como se a entre-safra afetiva fosse um inverno. Eu não trabalho na perspectiva das estações. Nada me garante que haverá sequer um outono. O meu corpo é o caminho mais longo que já abri. 

A perspectiva é o asfalto dos pragmáticos. Eu, sigo no chão da minha introspectiva.

Oiá libertou Xangô

Faziam festas para Xangô em Tákua Tulempe.
As mulheres eram loucas por ele
e os homens invejavam.
Eram festas de hipocrisia.
Em um desses festejos, prenderam Xangô
e o trancaram num calabouço.
Xangô tinha uma gamela onde via tudo o que acontecia,
mas havia deixado sua gamela na casa de Oiá.
Passaram-se alguns dias e Xangô não voltava para casa.
Foi quando Oiá olhou para a gamela de Xangô
e viu que ele estava preso.
Da prisão Xangô sentiu que alguém mexia na gamela
e pensou: "Ninguém além de Oiá save usá-la".
Xangô, então, lançou muitos trovões
para que Oiá ouvisse e o encontrasse.
Oiá recebeu a mensagem, acendeu a fogueira
e começou a cantar seus encantamentos.
Oiá pronunciou algumas palavras
e cruzou seus braços em direção ao céu.
Nesse momento, o número sete se formou no céu.
Um raio partiu as grades da prisão e Xangô foi libertado.
Ao sair, Xangô viu Oiá, que vinha pelo céu num redemoinho
e levou Xangô para longe da terra Tákua.
Oiá libertou Xangô com o raio.
Oiá libertou Xangô com o vento.
Oiá libertou Xangô.

Mitologia dos Orixás, organizado por Reginaldo Prandi (Cia das Letras)

25 de abr de 2011

24 de abr de 2011

Soledad

Una soledad adentro
y otra soledad afuera.

Hay momentos
en que ambas soledades
no pueden tocarse.
Queda entonces el hombre en el medio
como una puerta
inesperadamente cerrada.

Una soledad adentro.
Otra soledad afuera.
Y en la puerta retumban los llamados.

La mayor soledad
está en la puerta.

Roberto Juarroz

19 de abr de 2011

Foi

Você estragou as minhas manhãs. Não foi sua culpa, eu sei. Mas queria te contar, porque preciso, não porque isso vá mudar algo entre nós. Aliás, nós não fomos capazes de mudar nada entre nós. Então, nada mais conseguirá. Nenhuma manhã será igual. Seu cabelo bagunçado era tão lindo, mas eu nunca consegui elogiar. Eu me alimentava do seu hálito matinal. Não consigo descrever nossas manhãs sem anoitecer os olhos.

Foi numa manhã dessas que você me ameaçou. "Não diga que me ama, porque eu posso acreditar."

Você acreditou. 

13 de abr de 2011

nome dela

ele me disse: "por favor, não me fale mais o nome dela. não quero mais ouvir, não aguento mais."
esperei alguns instantes e retruquei: "mas eu não falei o nome dela em nenhum momento hoje".
ele reuniu os joelhos, trouxe a respiração mais profunda que conseguiu e falou com uma voz baixa mas firme: "toda palavra parece o nome dela."

silenciamos o resto do tempo.

8 de abr de 2011

a bunda

eu acho bunda a coisa mais poética desse mundo. mas tem seu valor subjugado a espetacularização do desejo, e aí parece até uma coisa vulgar. viver é vulgar. uma bunda é sublime. a palavra, a coisa, o movimento. a beleza fica. tudo o mais, desgasta, cansa, deteriora, se esquece, se esvai. não há absolutamente nada capaz de apagar da memória a lembrança de uma bunda bonita. a bunda é uma das poesias mais vertigionsas do corpo.

13 de mar de 2011

Ele

Ele todo dia acorda um pouco antes de mim e, me observa ainda sonolento no primeiro abrir de olhos do dia. E me diz - toda manhã - pode vir.

Ele toda noite vai dormir um pouco depois de mim e, me observa ainda relutante com o sono. E me diz - toda noite - pode ir.

Passo o dia inteiro esperando mais alguma coordenada. 

17 de fev de 2011

incomodar

Ce qui vient au monde pour ne rien troubler ne mérite ni égards ni patience.
Aquele que veio ao mundo para não incomodar, não merece nem respeito, nem paciência.

René Char

15 de fev de 2011

Sangue

Criei a música ali, na hora, observando os suspiros, testando as palavras na boca da Karina.
O vídeo registra o processo. A música inacabada, nós embriagados. Porque o sangue é nosso guia. Fico no canto parado, observando e sentindo, mas no final a câmera e a vela me descobrem.

7 de fev de 2011

Um dia minha mulher

Eu erro no ínicio e no fim. Nunca consegui admitir isso. Pouco tempo, você já me arrancou essa confissão. Talvez esse seja momento para confissões. Adoro seu nome. Imaginar chamá-lo pela manhã me dá esperança e força. Eu troco o fim pelo ínicio. Eu tento confundir os dois, misturo os vocabulários. Ao querer alfabetizar o ínicio, desse dialeto do fim, me alimento de uma língua que carrega eternidade. 

Eu sei o seu cheiro, eu decorei seu tato, interpretei seu cabelo, há uma arquitetura sólida formada somente com os desenhos da sua boca e das suas mãos. Respiro, e não há mais razão, já temo não passar de ano, perder nessa matéria, tropeçar no dia da prova. Me repetir desse instante letivo. 

Deixar de lado as imperfeições poéticas que você me imaginou, para recolher as reais imperfeições, parece ser um caminho longo. Escrevo, agora, querendo terminar logo. Mas isso é meu desejo tardio, minha certeza precoce, de que  ainda te escreverei muito.

O corpo treme, cansado, sobrevivente da devassa do álcool na noite anterior, mas reuniu forças para vir aqui. Eu queria arrumar as coisas na minha cabeça, mas percebi que não tinha nada a te dizer. Tinha o mundo inteiro para nos contar, queria que a escrita organizasse algo. Não há o que ser organizado.

Eu sinto a confusão. Não há entrelinhas aqui. Eu queria apenas gostar de você. Para ser mais leve, para ser compatível com o tempo presente. Mas, não. Eu quero construir essa confusão contigo. Com seu sorriso, com sua voz, com suas palavras. 

Eu sempre escrevo para inventar quem eu sou. Hoje comecei a escrever para te esquecer do que sou. 

O ínicio e o fim são ilusões. Somos sempre dentro.

1 de fev de 2011

O pai

Todo aniversário é um nascimento e um enterro. Alguém nasce, alguém morre. E esse alguém é um só. Hoje nasce meu pai, hoje morre um pai que já deixou de ser. Hoje renasce meu avô, hoje morre novamente meu avô. Estamos todos aqui, e em virtude da comemoração - e porque na minha memória afetiva eu mando em tudo - até o pai abriu exceção e está bebendo. Meu avô é uma veia que me liga até meu pai. O álcool é uma veia que me liga até a memória do meu avô. Não é bonito, apenas é. Aqui, embriagados, cantamos. É aniversário de nós mesmos. Lá fora, o tempo parece que é outro. Na minha casa, existe um canto que caberia meu pai. Perto dos livros, da janela, quando entra uma luz de lua pela madrugada. Existe um canto que caberia meu avô, já pela varanda improvisada, ali onde dá pra colocar o copo no batente. Todo lugar onde dá pra sentar e apoiar seu copo é um lugar sagrado. Eu sou esses dois. É o termômetro de mim. Se a casa tem espaço para os dois, então tem espaço para mim. Meu avô e a cerveja quente, eu e o whisky sem gelo, meu pai e a paternidade. Porque foi essa a sua embriaguez, suas ressacas, foi esse o único estado alterado de consciência que ele resolveu se permitir com alguma plenitude. Por não saber direito como ser pai, ele resolveu embriagar-se da paternidade. Foi por isso que chegamos até aqui. A gente não sabe. Está todo mundo aqui, sem saber. A gente bebe, sente, troca olhares, e repete o processo. Entender nunca fez parte. É dos poucos momentos em que nós três, tão racionais, nos permitimos não entender. É aniversário da parte de mim que mais progride, que mais vasto caminho tem a percorrer, e duvida de qualquer preguiça em ser. Meu pai. Nos juntamos, os três, pra conseguir carregar o nó desse vínculo. E somos todos, o pai. Mas hoje, só um deles estreia nova idade. 

Saravá!


26 de jan de 2011

Fraco

Quando o sangue perde o interesse pelo corpo, ele fica sem cheiro. Só por alguns instantes, antes de entristecer-se e pegar o cheiro de morte. Foi nesse pequeno instante, que só se torna pequeno quando começa a habitar a memória, pois ali caberia um mundo de coisas, não há quem prove o contrário. Foi nesse pequeno instante, que ele disse, sem nenhum esforço, num último sopro de lucidez:

- Sempre que eu vejo muito amor, eu me sinto fraco.

Já fazem muitos anos que ele fechou os olhos, logo depois de ter dito isso, e nunca mais abriu.

7 de jan de 2011

Refrão

A voz cantava.
Sou um homem de rigor, tenho compromisso formal com a dor.
Repetia o refrão. Apenas o refrão. Sentou na cadeira de junco. A madeira lhe conversava uma dureza acolhedora. Há restos de mim em todas as mulheres que amei. Pensou. Mentira. Olhou-se sem pretensão. Há muito mais de mim nelas. O que ficou, é que são restos. Desde pequeno aprendera a fazer dos trastes, brinquedo, do imprestável, sorrisos. Esqueço os endereços dos lugares onde fui feliz. É minha forma de protegê-los.

Cemitério

Sou um cemitério pelo avesso. Meus mortos estão em covas rasas: afundaram na superfície. Carrego meus indigentes com o carinho de quem se desconhece pela semelhança. No espelho, fico aliviado quando não me reconheço. A morte só pesa por fora, tudo por dentro tem intenção de vida. Preciso inventar minha vida, não posso continuar a aceitar as lembranças sem as cicatrizes de minha criação. Tudo que não invento é refém da minha memória. E minha memória é um segredo sem cofre.

6 de jan de 2011

5 de jan de 2011

Me

There was a boy...
A very strange enchanted boy.
They say he wandered very far, very far
Over land and sea,
A little shy and sad of eye
But very wise was he.

And then one day,
One magic day, he passed my way.
And while we spoke of many things,
Fools and kings,
This he said to me,
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return."


Eden Ahbez