27 de fev de 2007

tris, tris, tristeza, minha alteza.

Encaixotou metade da vida. A outra metade, enfiou meticulosamente em sua grande mochila. Aquela mochila era praticamente sua memória. Nas laterais, já passaram meias de duro inverno, conchas de doces praias, cuecas sujas de leve amor. Os homens enraizados em seu cotidiano esbravejam por alguma liberdade, folga nos contratos e compromissos. Ele observava com pouca atenção esses homens, ainda com sua dificuldade em ver a beleza de estar exatamente assim: no limbo dos rumos, na tranversal das perspectivas, com o hálito da cachaça branca daquele último boteco. Perdido só está, aquele que em algum momento obteve direção, rumo, ordenamento. Dessarumando o passado, sentia-se novo em folha, como se tudo fosse possível. Trocaria essa infinidade angustiante de possibilidades, os elogios nublosos e os tapinhas nas costas recheados de bons futuros, por um punhado de vida que lhe coubesse a mão. E fosse deslizando entre os dedos, onde pudesse ir gradualmente mergulhando e desesperando-se com a vida, sabedor de cada grão descorrido e sem segunda chance para ser vivido. Sem esse punhado, nas mãos vazias, escorriam rios de uma solidão a transbordar os dias. Sentia a solidão como uma aceleração brusca no relógio da vida, mas que passa cada segundo numa profunda lentidão, como se uma vida inteira fosse capaz de ser corrida em cada uma das brechas. Na solidão se envelhece. Nos outros instantes, se amadurece.

Colocou mais uma vez a mochila nas costas e partiu. Seu limite era sempre a tentativa de não incomodar o cotidiano desses gentis que o abrigava. Ao sinal de um desconforto, as alças da mochila tremiam em sede pelas costas. Aquela mochila era mesmo sua memória. Partiu, mais uma vez, ansioso por um novo guarda-roupas.

22 de fev de 2007

No túmulo do samba

Terça-feira de carnaval, noite nublada, uma rua atrás do cemitério. Em irreverência ao mestre Vinicius, não caberia outro cenário para aquele acontecimento. Reunidos na plenitude da rua, em frente ao palco armado, díficil precisar quantos, todos em seus sambas imprecisos, sedentos por uma São Paulo mais humana. A São Paulo oficial ainda tentou, nos seus tentáculos enferrujados, implicar dificuldades, mas a iniciativa persistiu, e fez-se um dos melhores carnavais de rua que essa cidade pôde presenciar. Vinicius, aqui é o túmulo do samba! Fazemos carnaval atrás do cemitério! Estás certo, Vinicius. Só não sabia ele que aqui o samba não morre no túmulo, renasce. E ele renasceu, ali na Rua Horácio Lane, reduto do ó do borogodó. Aos baianos e aos pernambucanos, aquela rua transbordando pessoas, talvez não venha a ser novidade, mas foram esses, de tantas cores, raças e estirpes ecônomicas, que sambaram, junto com os paulistas, maravilhados com essa nova possibilidade nessa terra, corpos grudados, suados, humanos, fogosos, falantes, irreverentes. Um jovem de camisa de time alvi-negro ainda tentou balbuciar qualquer tipo de desavença, ainda acostumado com outras aglomerações, mas foi rapidamente silenciado de uma maneira tal que ele nem hesitou em render-se ao ritmo instaurado ali. Nessa terça-feira de carnaval, São Paulo foi uma terra possível. E Fabiana Cozza, porta-voz da possibilidade. Entre uma música e outra, fui atentando e colhendo elogios inebriados para nossa Fabi. Com sua grandiosidade no palco, não há como desvencilhar-se do fardo: Fabiana é a rainha do samba paulistano. Fiz eco ao título efusivo, e só sai ileso quem ainda não presenciou sua voz, seu carisma, sua postura e sua alma emanando no palco. Xangô te ilumine, minha irmã querida.

O ano começou com o pé direito. E o esquerdo. E o direito. Assim, num samba.
Axé, São Paulo. Axé, Fabi. Saravá!

o ano começou

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro


Dele, pra variar. Belchior.

12 de fev de 2007

classificado sem-vergonha

Procura-se um emprego.

No escritório:
Escrevo cartas, bilhetes, pequenas notas sentimentais em guardanapo (mídia de bar) ou por e-mail (mídia digital). Eu sei lidar com as texturas, cores, volumes e sentidos das imagens, seja no imaginário, na memória, seja no papel, na tela de um computador, projetadas na retina.

Na cozinha:
Faço vitaminas excêntricas e coloridas. Sei fazer molhos para massa, avermelhados, apimentados, encorpados, experimentais. Faço strogonoff, lasanha, arroz integral com todos os temperos da casa, feijão mesmo sem panela de pressão.

Na varanda/sala:
Sei dançar desengonçado, invento coreografias disléxicas e espontâneas, sem compromisso com o ritmo, mas muita responsabilidade com a alegria, com o suor, com o que há de ritualístico na dança, principalmente no samba. Forjo meu corpo e sou capaz de passar por bom dançarino em diversas situações. Além disso, sou um exímio cambalhoteiro: Anos de experiência em conjunto de um velho parceiro mineiro me fazem dar cambalhotas com extrema habilidade.

No quarto:
Aprendi com 13 anos que não se diz "eu sei beijar". Porque beijar é uma harmonia, uma sintonia, é uma permissividade da alma através da boca. Digo então que beijo, que me permito. E do beijo, vem o prosseguimento. Sei permitir as paixões através do corpo. Os carinhos na trajetória do desejo, torta, tonta, sedenta, fulgaz. Ao prazer, o sentimento pede plenitude.

*
Sou baixinho, baiano, as vezes meio bravo, as vezes meio tímido. Estou em situação um tanto desesperadora, por isso a pretensão salarial é demasiada humilde. Posso trabalhar em finais de semana (não todos, porque preciso ir no Biu de vez em quando).

7 de fev de 2007

árvore kar wai

Seguindo os ensinamentos de 2046, dos antigos orientais, fui até um lugar distante, procurei uma árvore, abri um pequeno buraco e contei um segredo. Quando estava a tapar o buraco, a árvore me pareceu responder, retrucando meu segredo, que agora nem segredo é mais. Disse: "Acho que preciso que alguém me salve".

A árvore respondeu: "eu também".

Pro dia nascer feliz

Como sair ileso? Esse país tão ostensivo e atordoado em seus vínculos tão inconsistentes, porém tão afetivos, singelos. Somos jovens, perdidos, desbocados, incoerentes, mas somos belos, dessa beleza delicada, o filme do João Jardim trata da delicadeza tonta da juventude, no Brasil, mas também universal ao adentrar na dificuldade cada vez mais opressiva de colocar-se ao mundo, de pertencê-lo, situar-se, encontrar-se. Meu choro acuado na sala de cinema, vendo a palavra, a literatura, a poesia, iluminando a vida de uma jovem gordinha no interior de Pernambuco. Essa "personagem" é de uma beleza tão arrebatadora, dentro do seu contexto áspero, que tira o fôlego. No filme, inevitável também refletir sobre a glória e a desgraça da profissão de professor, nesse país. E daí parte a navalha da minha memória, reunindo meus mestres, o gosto de lembrar-me neles. A professora na Montessori que indelicadamente se emocionou com minha redação. O professor de história no Drummond que batizou poeticamente a minha racionalidade, me fez crer na magia do aprender, a surpresa do conhecer. No Portinari, a professora de português que marcou com ferro e fogo a língua e a linguagem na minha vida e de quebra, me proporcionou o teatro e a poesia, os pilares da minha trajetória. E o professor de redação, que soube iluminar minhas brechas de simplicidade no meio da incoerência prolixa da adolescência. E até na faculdade, o professor de teologia que me aguçou a sensibilidade ao humano. E o charme da professora de mídia, que sem saber, me fez acreditar no que eu faço.
Sai do cinema maravilhado e profundamente triste. A jovem na periferia carioca que escrevia apenas quando estava triste. O choro burguês e lindo da jovem do alto de pinheiros com seus pequenos dilemas, pequenos e lindos. Uma demanda ao caos, tanta falta de oportunidade.

Nem a morte me emprega.

Ainda somos possíveis.

* *
O filme.

2 de fev de 2007

Dia 2 de fevereiro

Nessa data, meu fervor líquido no fluxo de Yemanjá, a incontestável beleza azul esverdeada do amor e do feminino - incerto, errante, vagas e vagas, ondas e epifanias espumantes. Um louvor a Yemanjá, com a intenção saudosa do Rio Vermelho, o bairro onde eu me fiz gente. Nesse mesmo bairro, hoje também está a pairar a outra metade da minha saudade e da minha celebração: meu pai, em sua serena sede por mais uma nova idade. Eu sou eu e minhas circunstâncias, inevitável assim? Abraço-as e permito-me no mar das minhas circunstâncias. Saudade das birinights, da cachaça violentamente baiana e dengosa, dos passos tortos na Mariquita, da ressaca e do abraço que ganha terreno cada vez mais nos braços desse que, num tropeço, calhou de me fazer existir. E não deixo barato, existo até a última gota, na imensidão do mar e seus barquinhos repletos de flores, alfazemas e outras devoções. Para mim, 2 de fevereiro é quase como meu aniversário. Aquariano, filho de aquariano, filho de Yemanjá. É como brindar minha existência. Irrecuperável é a falta de coragem, jamais o tempo atrasado das relações, dos conflitos dos homens, do pai e filho que permutam papéis em sua verve de intercâmbios. Celebrar isso é festejar meu pai, e saudar meu avô. Aqui, agora, momento de passar água nas partes que vão ficando pelo caminho ou, principalmente, são levadas nas incursões do coração.
E eu me permito, saravá mô pai, esse ser errante e passional. Há a dor, mas no intervalo entre uma e outra, a epifania da paixão.

Axé.