31 de mai de 2005

Minha família inventada

Há tanta gente criada, guardada nas gavetas, saltitando na tela do computador, dormindo nas páginas do meu caderno. São meus personagens, minha família inventada.
Esse, leva no sangue a sina do parentesco. Com uma overdose de hemácias no lado ranzinza do vermelho. Primeiro, desconfiou da telefônica. Passou um mês sem fazer nenhuma ligação. E cobraram, indevidamente. Nem perdeu muito tempo reclamando, bastava a sensação de ter a prova, de ter conseguido, esfregou a injustiça na cara do sistema. O telefone foi cortado. Em seguida, a luz. Passou um mês inteiro sem utilizar qualquer aparelho eletrônico, banho frio e acendendo velas a noite inteira. Cobraram, indevidamente. Uma redenção, tinha sido recompensado gloriosamente após um mês díficil. A luz foi cortada.
Por último, a mulher. Passou um mês inteiro sem transar. (...)

A melhor parte de mim



É quando a ausência tem chão. E você pode cair, deitar, pular. Minha mãe, quando em ausência, corrompe a física. Veja como realmente ela não poderia mesmo continuar casada com meu pai. Hoje me peguei falando sozinho. E ela respondeu. Um susto. Bobo. Não sabe? Quando falo sozinho estou falando com minha mãe.

Saudade.

Dos surtos da escrita

Notícias do putêro: Pornografia infantil

Não bastasse os gritos, "Vem meu jiraya", "Me come meu jaspion", o último cliente da Vaneide usava cueca do Cebolinha. Para não ter maiores problemas com a justiça, além de mostrar o RG, vamos pedir pra baixar as calças antes de subir. Aqui, pau pequeno não paga meia.

Publicado originalmente em "Porra, não goza na cara".

30 de mai de 2005

Projetos em andamentos - I

Pequena antologia do chão, curta-metragem em roteirização.

Tenho um irmão abortado que resolveu nascer em mim. Teve medo de caminhar pelo trajeto que eu já tinha feito. Estraguei minha mãe por dentro. Em mim, ele pôde nascer sem precisar sair pra fora.

(...)

25 de mai de 2005

Conheço Cuba e não sabia: Fotografia de meu amigo Rosel Bonfim


A primeira vez que entrei no bar do Gavião em Jequié, eu não me lembro. Na décima ou décima segunda vez, já me passeia na memória um dito. Corria a lenda que eu tinha tomado cachaça na mamadeira. Era neto de seu Vadinho. Quase uma pinga de gente em garrafa condensada. Minha infância corria mais que a lenda. Eu, a mentira e os anões, tinhamos pernas curtas. Mas o que levanta a poeira e bagunça o barro é a firmeza do pé não a largura do passo. Era minha primeira bebedeira. Licor de Jenipapo. Gavião tinha sobrancelha prima da minha. Quando levantava a dele, abaixava a minha. E vice-versa. Se tirassem melodia das nossas sobrancelhas, seria uma música tensa. E ele alinhavou:

- Eu quase fui você um dia. Dei azar. Agora vai. Vai seu porrinha. Vai e faz direito o que não eu não fui.

Tiago fez de mim

"Você é um farsante que leva a vida sendo verdadeiro."

22 de mai de 2005

Existe uma pequena viagem sem volta escondida no piscar dos olhos

Eu preciso que você imagine um lugar longe, muito longe. O mais longe que você puder. Longe suficiente para que eu não possa correr o risco de lhe ver, nunca mais.
Ele fechou os olhos. E nunca mais se encontraram.

19 de mai de 2005

O último voo do flamingo

Estou apenas no começo. Acontecendo de iniciar. É Mia Couto. Por isso as janelas da linguagem estão abertas, nuas, sem a cortina do português de costume, com as vergonhas de fora, mas sem nenhuma timidez, é português de Moçambique. Estou em Tizangara e temo pela minha volta. Prometo enviar alguém no meu lugar.
Quem voa depois da morte?
É a folha da árvore.
Dito de Tizangara

Aproximando estranhezas

Ela all star cano longo camisa com rasgo pertinente e maquiagem ineficaz nos olhos. Ele havaianas gastas óculos da ex-mulher miopia da última paixão camisa laranja. Padaria coffe-shop livraria reduto intelectualóide ambulatório de ilusões 24h ali na Haddock Lobo, isso é São Paulo, isso é perto da Avenida Paulista, isso bem que poderia não existir, ou vender acarajés. No check-list do vanguardista de carro-forte arte sem valor há personagens, há cenário, falta-nos a história. Descrição sucinta e socio-vaginal da personagem feminina: Não consegue ter orgasmo quando transa com amor, nem mesmo com paixão. Sinopse secreção publicitária da personagem masculina: Sobreviveu ao descaso, ao desespero, a descrença e ao desamor. Está morrendo de desgosto. Não se conhecem mas sentam na mesma mesa. Um sujeito de branco pergunta o quê vão querer. Ela. Ele. Responderam. O de branco ri e sai. Quando decidirem algo que está no cardápio, me chamem. Ela inteligência irônica ainda esboçou escrever o nome do anônimo com uma setinha apontando, no cardápio. Desistiu, piada infâme, era o primeiro encontro. Conheceram-se no Orkut. About me: Para bom entededor, a palavra não basta. Ele. Sports: Tentativas incompetentes de suícidio e abnominais dominicais. Ela. A mão nervosa, ela não sabia se queria um amor ou um orgasmo. A noite pedia sexo. Pensou em amá-lo depois. Não dava. Ele tinha desistido do amor em 1983 e desistido de desistir do amor em 2003. Você acredita nessas coisas de internet? Ela não responde, desconversa, impaciente. O sujeito de branco volta, o pedido está sendo feito. Não se fazem mais paixões como na década de 70, puxou assunto. O assunto estava morto. Um café sem açucar. Ele levanta e deixa o rastro da suas havaianas gastas compondo a cena, o charme, o jovem de barbinha mal-feita cheio de boas frases sobre essas coisas do mundo. O sujeito de branco presencia Ela, metade apaixonada, metade enlouquecida de raiva, tinha sido abandonada. O sujeito de branco senta-se na mesa. Um olhar eficaz, ele sabe colher brechas de mocinhas abandonadas. Oferece colocar um pouco de conhaque no café. [...]

Poucos dias depois, na esquina da Haddock Lobo com alguma alameda nos jardins, o sujeito de branco espera. O homem das havaianas chega. Um repasse misterioso de dinheiro. Entrega os óculos e um punhado de papéis que ele tinha levado para decorar. Deu tudo certo? Sim, sim.

16 de mai de 2005

Opinião: Gerald e Nanini

Simples. Gerald Thomas, sim, ele. Passear entre suas criações, no virtuosismo ou na canalhice vale muito a pena. Ele é brasileiro, também. Marco Nanini. Transforma a perdição de Thomas em verve. É indecifrável. Uma escola própria, uma vanguarda individual, uma geração de um ator só.

Circo de rins e fígados.

15 de mai de 2005

9 de mai de 2005

Tampax metáforico

Ela ficava com os olhos menstruados. Mensalmente, seu olhar se prepararava para um mundo que podia nascer, mas não nascia, sangrava escorrido.

Quando finalmente engravidou, ficou cega.

8 de mai de 2005

Porque o samba ainda insiste em mim

"Quem me vê sorrindo
Pensa que estou alegre
O meu sorriso
É por consolação
Porque sei conter
Para ninguém ver
O pranto do meu coração"

Cartola

4 de mai de 2005

1 de mai de 2005

A cada dois copos, três para meu avô

Metade dos dedos tremendo o frio da noite anterior, a outra metade suando com o amanhecer histérico pelo dia do trabalho, nessa cidade de trabalho. Os primeiros instantes de olhos no devir do dia, a velha e orgânica dor pesando nas pálpebras. É porque sempre há uma dor onde você se sente mais a vontade do que em sua própria casa. Está vendo isso ai na frente? Sim, seu vadinho. Podia ser um lago, podia ter peixe, podia ter sapo, podia ter barro molhado, podia ter, aquele cheiro. A descrição pintando a imagem líquida em mim. Mas não é. É apenas um grande buraco na frente do sítio.
É só um buraco.