28 de ago de 2007

adesivos

Queria inaugurar nessas linhas uma maneira de me repetir: os mesmos adesivos, mas com cores diferentes, para colar pelo corpo. Protegido pelas cores, já não importa para onde os adesivos indicam, quais são seus gritos de guerra, qual a liquidação do mês, não há nudez suportável, toda promoção será castigada. Falta-me corpo para mais adesivos. Aquele cuja cola leva consigo um pouco de seu desejo acolhido. No pátio, fui desvencido. Foi no bafo, figurinhas de cartões-de-visita estranham meu álbum. Estar completo é estar morto. Homens repetidos, quase não consigo trocar com ninguém, parece que todo mundo tem um machismo na sua coleção. Quero mais adesivos, e só isso tem razão de ser. Os de cores quentes, de muita cola, de muitos dizeres. Para que não seja preciso dizer mais nada, para sair na rua e todo assunto informal estar cravado - no elevador, no ônibus, no metrô, corromper a velha prosa sobre o tempo, o presidente decepcionante ou aleatoriedades infernais.
A pele é a memória do corpo, pura solidão essa grafia sinuosa dos poros, dizem envelhecer: a gravidade inscreve, o sol desenha, as cicatrizes reescrevem, a poluição rabisca. Busco minha boca, retomo-a entre o desejo e meu sexo, e te invado para ler cada vocábulo da tua pele.

O corpo é a língua do impossível.

25 de ago de 2007

relendo

Eu desculpo o filho, mesmo que a única herança que ele me deixe seja meu avô. Confesso teu nome inúmeras vezes, mas nunca sou perdoado. Meu pai ainda não descobriu que eu o inventei. As coisas não são inventadas assim, pondera ruidosamente com suas barbas preenchidas por um rosto sisudo. Solidões em banho-maria, os rabiscos melados de mim. Pai, minha invenção foi um fracasso. Mas se tivesse dado certo, eu estaria órfão agora.

12 de ago de 2007

somos nós

"Diz-se literatura
É como esse tempo que mistura os olhos abertos e os olhos fechados
Diz-se dele: a infância"
Vicente Cecim, Armas submersas, Viagem a Andara, O Livro Invisível.


Um nariz diante do rosto. É seu sentimento que acolhe o cheiro. Estamos nos repetindo, gritava. Estamos nos repetindo mais uma vez, repetia o grito, mudava a altura do som. Talvez a única coisa que estava realmente se repetindo era sua insatisfação palavreada. Um acerto repetido é clichê, um erro repetido é ignorância. Estranho esse metódo: passam anos ensinando através da repetição, para depois amaldiçoá-la. Ela me emprestou seu nariz para cheirarmos juntos. Emprestou o sentimento do nariz. Um grito, a tensão, a delicadeza quase não tem cheiro. Quando não se sabe, mais se fala. Quando se sente, há oportunidades para o silêncio. O silêncio é um sentimento da palavra. Atravesso o que sou para estar cansado de mim ao te encontrar. Na brincadeira de ir e devir, sou um tropeço da originalidade, um âpendice da inovação. Repito meu corpo e ele sempre me surpreende no desejo por ela. O cheiro do teu carinho. Sofro um erro, que é o mesmo, diferente. Até minha dor é criativa.

1 de ago de 2007

milésima pensata a morrer no bolso da jaqueta

se não sei onde sou lixo, desconhecerei o que ainda pode ser reciclável.

machado

Xangô está com seu machado apontado para dois passarinhos inscritos na parede, e apesar da sua face valente de quem, a qualquer momento poderá lançar cortante sua arma, ele permanece, como se tivesse inventado uma simplicidade na coragem quente dos seus olhos. Bebo mais um gole de coca-cola e me sinto novamente mundano, mesquinho, rídiculo, transitório. Tenho essa relação de íntima desgraça com essa bebida negra, ela me faz cair na real. Eu não escapei. Não adiantou aquelas tardes vendo ra-tim-bum, os pais comunistas, a escolinha de vanguarda, as poesias juvenis e esperançosas, a detestável e nutritiva sopa durante as noites. Adiantou para me atrasar. Nem piedade alguma caberia naquele jeitinho sensível, sobrevivendo aos ataques dos meninos-machos torcedores do bâea, derretendo-se precocemente na maciez das meninas ilustradas do colégio. Mais um gole desse líquido irritantemente gaseificado. Essas idéias cheias de bordas coloridas, esses abraços apertados, aquele papinho inteligível sobre assuntos aleatórios. Assim, olhando, ninguém dá nada. Eu dei minha vida inteira, e ainda assim, é pouco. Corroendo vida a dentro, a coca-cola reconecta-me com minha ausência, com meu abandono. Desenhei na mão, num inverno estranho, um mapa para chegar naquela casa. Aquela cidade, essa cidade, aquela estranheza, essa estranheza. Lembro de quanto temi o suor apagar minha mais fiel instrução para chegar naquela casa, a casa, não há mais casa. Em alguma estação do metrô, deixei o futuro promissor partir. Na baldeação equivocada, quase não me despedi do menino precoce cheio de apontamentos para sabedorias. Talvez a fraqueza de ser órfão de mim na perda do avô - alguém com olhos de reinvenção para admirar-se no meu próximo passo. Invejava quase-amores. Eu nunca fui quase feliz. Bom colecionador, não tardaria a completar alguma inteireza. Eu me abandonei primeiro, para não correr o risco de ninguém mais o fazer. Orgulhoso, finjo desistência de reencontrar-me. Bebo mais um gole dessa pequena desgraça líquida de rótulo avermelhado. Sinto a trajetória negra tentando me estragar. Aqui dentro, os estragos se reconhecem.


Xangô continua imóvel. Minha sorte é faltar um machado desses. Meu azar, faltar essa inquietante sabedoria, que apenas permanece.