19 de dez de 2005

sonho. lúcido. catarse. couto.

"O mundo já não era um lugar de viver. Agora, já nem de morrer é."
Avô Mariano


- É preciso luz para se distinguir as cores, menino.
- Mas no escuro, quando durmo, eu sonho colorido.
- É que aí, acende-se uma luz por dentro.
(...)
- Amanhã estou cansado, posso faltar o dia?
- Pode. Sempre pode. Mas depois não reclame quando o dia lhe faltar.
- Sinto que essa voz não é minha. Entende? Escolho as palavras, mas a voz que as diz não é minha.
- Gosto quando você canta a música do peixe.
- Sinto falta de uma voz própria. Entende?
- Minha voz própria é o silêncio.
- Talvez amanhã eu esqueça de dizer que te amo.
- Não faz mal.
- Eu vou sentir falta. Eu já estou sentindo falta.
- Você tem um pensamento longo. Mas suas palavs são curtas.
- É que sinto muita falta das coisas que vou esquecer.

10 de dez de 2005

Interlocutores

Pequeno roteiro das sensações dos meus últimos dias, segundo alguns dos meus queridos interlocutores.

"Como conhecer as coisas senão sendo-as?"
Jorge de Lima

"Os sentimentos é que devem conduzir os acontecimentos. Não o contrário."
Bresson

"O amor é velho, velho, velho e... menina"
Tom Zé

"Se expressar é uma questão de vida ou morte"
Ferreira Gullar

"Porque a pior censura é a econômica, não a política."
Glauber Rocha

"Sabiá, vem me dizer, por favor, o quanto que eu devo amar, pra nunca morrer de amor."
Torquato Neto (Música Zabelê, de Gil)

8 de dez de 2005

Onde nunca toquei

A palavra não é alternativa para nada. Trocar um gesto por uma palavra é irrecuperável. Não se deve procurar espaços para encaixar ou caber uma palavra. A palavra inventa sua própria moradia.

28 de nov de 2005

vendaval da mente - I

Prólogo esboçado

Pensou que a maneira mais imprecisa para contar a história daquele homem seria analisar apenas o que ele fez. Contrariando os historiadores, pesquisadores e jornalistas, iniciou seu mais profundo exercício de montagem. Quando paralizou para contemplar os primeiros resultados, um suspiro. Ao reunir todas as coisas que aquele homem fez, e mais, todas as coisas que aquele homem deixou de fazer - por motivos diversos, os quais também foram reunidos, todas as coisas que aquele homem conseguiu completar e todas as coisas que aquele homem não foi capaz de completar - por incompetências diversas, as quais também foram reunidas, e assim por diante, ou seja, traçando um mapa dos momentos em que aquele homem esteve presente e os momentos em que ele esteve ausente, deparou-se com aquele suspiro. O homem tinha ressucitado, ali, bem na sua frente. Passou o pouco resto de vida que ainda tinha espantado com aquilo. Em sua morte, as pessoas comentavam maldosas que tinha suicidado-se com uma cabeçada no espelho com tamanha força que cada caco de vidro abrigou um pedaço da sua face.

O ínicio rascunhado

Um sono que não adianta dormir. Um sonho que não adianta acordar.
Minhas olheiras são as pegadas do sono em meu rosto. Sim, o sono passou por aqui. Mas parece que não voltará mais.

Pai está no quintal com sede do alambique. Ele diz que bebe cachaça para deixar mais água para nós. A única pessoa colorida em casa é a televisão.

Então eu percebi que não adiantava mais. A minha memória tinha se tornado a minha imaginação. Assim, me conformei quando as lembranças da infância começaram a inventar alguns dos meus dias já velho. Apesar de ainda ser díficil aceitar que talvez algumas das recordações dos tempos de criança tenham sido livros escritos com terra e lápis.


p.s: No domingo, comecei a gestar um livro no estômago. Mas estou mijando devagar cada frase. Algumas colocarei aqui.

26 de nov de 2005

coleções de fatos

Diálogo verídico.

No carro, mãe e filha. 38 e 5, anos. A mãe, observa crianças pedindo esmola na rua e vê uma grande oportunidade para educar sua filha.

- Tá vendo ali, minha filha? Aquelas crianças não tem brinquedos nenhum. Não tem bonecas. Não tem as coisas que você tem. Elas tem que morar na rua. Muito triste.

A menina olha. Olha. Olha. Sorri. E responde.

- Mas elas tem a rua inteira, mamãe.

11 de nov de 2005

BOM DIA

"Nada abalou sua fé"

Fui para Lavras Novas encontrar meus irmãos - de alma, de prosa e verso, de cuspe e sangue, de segredo e comunhão. Os guerreiros do Bom dia. Saravá.

Eu volto. Não Eu, esse, que, hoje, sou. Volto outros. Volto o carnaval deles. Volto na quarta-feira de cinzas. Mas não cinzas, dessas. Volto reconstruído.

8 de nov de 2005

IPTU resumido da vida

Entrou pela janela na casa dos vinte.
Saiu pela cozinha na casa dos trinta.
Entrou pelo quintal na casa dos quarenta.
Ficou na varanda na casa dos cinquenta.
Caiu do telhado na casa dos sessenta.

Com 69 anos de idade, foi morar num apartamento. Não acostumado, poucos meses depois, se jogou. Caiu do décimo andar na rua dos setenta.

anterior mente

O castigo refez o crime. Ele está aguardando a pena para abstrair a palavra. Vá para cadeirinha-de-pensar, sentenciou a única adulta da sala. Ficava de frente para uma parede branca com detalhes de azulejo bege. Ninguém conseguiu contar quanto tempo durava aquele castigo. Era o tempo necessário para se perder a conta. Percebeu que se não aproveitasse aquele tempo do castigo para fazer outras coisas além de pensar, não conseguiria dar conta de tudo que era preciso fazer na infância. Na sala, ao fundo, estava lá, um pequeno trono do desespero virado de costas para o resto dos alunos. A cadeirinha de pensar. Era rei absoluto daquele império bege sem lição-de-casa. Assim, inaugurou seu mais íntimo exercício de criação, de frente para parede.

Foi tão convincente, que não conseguiu enganar.

3 de nov de 2005

boca-vulva



Sobre foto de Ivana Cabral

A espera de melodia

quem dói de amor
diz amém a toda dor
janela aberta
vento entrando
sem pudor
ah, meu amigo xangô
você é o único que não pergunta
para onde vou

é um canto assim
saravá
é um canto assim
devagar
uma mão pra esconder
uma ferida na mão
um corpo pra esconder
uma ferida no coração
é uma prece
uma única reza
ah, xangô
E meu senhor do Bomfim
sozinho em casa
mas a casa não está sozinha
em mim

quem dói de amor
diz amém a toda dor

Os deuses sem beleza
Caminhando sem certeza
Todos próximos, todos aqui
Os deuses que não queiram me salvar

Um Deus, que saiba compartilhar
uma dose de silêncio
na mesa do bar.

berequetê

"Como os passarinhos do céu,
tem Deus por Tupã
por Tupã, por Tupã,
Sou Tupi-guara...
Sou Tupi-guara dessa terra de Tupã
Iarerê por erê de xexéu
Como os passarinhos do céu"
(...)

31 de out de 2005

226


Terminei. 226.
Era o número de azulejos azuis. Esperei alguns instantes, mas ninguém tinha visto, ninguém para parabenizar. O banheiro fedia o mofo do quarto. Então os cabelos reiniciaram seu cotidiano hábito, pedindo perdão ao shampoo. A sala tem gordura da cozinha. O almoço esfria o corredor e desabotoa a carne das saias. As saias vestem primas desejosas. No corredor, passos lentos, correr é uma ousadia contra o chão encerado de Dida. E concede o atalho para fora, mas ainda dentro. É a varanda, que nunca admitiu ser cemitério dos brinquedos, chegando a cuspir crianças pra dentro da casa. O barro molhado nunca saiu completamente das mãos. Nenhum joelho saiu ileso do mármore que une a sala ao corredor. Apenas o silêncio vergonhoso das visitas comentava aquela união promíscua. Os joelhos são sempre os móveis mais antigos. A mão é a cômoda que mais tem a falar sobre a morte. Pronto. E todos sentaram para jantar. Não houve variação no cardápio. Sopa de tudo de ruim, batido no liquidificador. A mãe era a família inteira na mesa. Era por isso, que, às vezes, ela não podia ser mãe.

Foto: Tatiana Cardeal

28 de out de 2005

antiga história reencontrada nos papéis

O corpo só dói, de verdade, uma vez na vida. As outras dores apenas compõem a história. Era esse o ensinamento de Elias. Nunca satisfeito fui. Deveras voltei. Nem todo amor veio para amar, explicava-me. Há os amores que vieram para isso, aí. Então apontava com seu dedo sujo. Não era sujo de sujeira. Era sujo de si. Porque nada que sai de si pode ser considerado sujeira. Pensava ele. Nem os excrementos. Saiu de mim, gritava ele, fedido. Elias não era louco. Eu também não era louco. Elias era meu companheiro de nada. Quando não havia o que fazer, era Elias que compartilhava comigo, isso, esse angustiante tempo nulo. Não havia monotonia. Era suor, que pairava nos trilhos. Não saber para onde se vai, e correr, não saber o ritmo da música, e dançar. Elias disse que aquele amor não havia mais. Puxou um resto de ferida e me deu o cascão fazendo pose de nagô defecal. Senti, ali, naquele mísero e maldito instante: Iansã cuspiu meus pecados e tinha mais fome do que barriga. Catei meus miúdos como se fossem búzios. E pedi para Elias decifrar pela língua de gente ignorante. No caso, de gente eu. Pedi para não enrolar nos detalhes. Esse canto que embebeda. Me conte desse amor que não se ama. Elias ficava lindo quando falava de maneira com sabedoria. Mas Elias só foi lindo aquela vez na vida. Eu chorei da sua lindeza. Quando ele abriu a boca, já havia até redemoinho na lágrima. E continuou. Nem todo amor veio para amar. Parece até uma coisa distante de entender. Mas é perto, de tão simples. Existe sim o amor que não consegue amar. O amor que não consegue. O amor que é incapaz ou incompetente. O amor que é derrotado antes de levantar a mão. O amor que é desafinado mesmo sem nunca ter aberto a boca. O amor que está ali, quieto. E só se sabe amor, porque mesmo quase inexistente, é inconfundível. Está lá. Bebendo com Deus a cachaça da saudade do que nunca virá.

04.03.2003

22 de out de 2005

não entenda. apenas tenda.

a boa notícia é que temos poucas más notícias, hoje.

não, não estamos bem. mas nunca estivemos tão bem mesmo sabendo que não estamos bem, antes.

"o cinema argentino fala de coisas que podem acontecer em qualquer lugar, mas são feitos somente na argentina. o cinema brasileiro fala de coisas que só acontecem no brasil, mas podem ser feitos em qualquer lugar."
Não é para discordar ou concordar. Apenas fiquei pensando a respeito.

14 de out de 2005

de tanto bater meu coração parou - notas íntimas

É primavera de algum outubro ou as folhas também possuem livre-arbítrio?
Os dedos estão surdos, por isso sentem melhor o teu cheiro. O barulho anônimo e incessante esforça-se em vão. Mas os dedos continuam, valseando essa opereta como se nem vestissem mãos. O tempo não teve fôlego para subir até aqui. O vento subitamente fecha a janela. Não sei mais sobre a personalidade desses que, até então, não tinham vontades próprias. No silêncio, não há mais como a valsa desafinar. Os dedos perdem a leveza. Herdam os acordes do corpo inteiro, e pesam. O ínicio da dor trás consigo certa curiosidade. Mas logo passa. Os dedos surdos não ouviram os gemidos, os berros, nem o pedido implorando a pausa: pare, pare por favor. Por não lhe matar, eu salvei sua vida.

a secreta paixão pela mão



A ponta do lápis da imaginação. Anteparo da queda. A extremidade do tato. O silêncio do corpo. O vestido do rosto. O desejo concentrado. A cortesia forjada. A varanda da janela. O ínicio do amor em 5 dedos por beijo e 24 toques por segundo.

A mão.

Wong kar-wai, a sútil e perspicaz voz que vem de Hong-Kong.

12 de out de 2005

mon petit maître

"O erotismo é a chave que desvenda aspectos fundamentais da natureza humana, uma vez que se encontra no limite entre o natural e o social, o humano e o não-humano."

Georges Bataille

10 de out de 2005

erô(s) tori



Não foi bondade sua. Era seu pavor pelo desperdício. O seu corpo sempre esteve a mais, lhe sobrava a alma. O sexo, pura gulodice, as coxas fartas. Você me dava o que sobrava em ti, com o desejo reciclado.

p.s: Pinturas do filme Eros.

lição sobre arte

"La perfection est atteinte non quand il ne reste rien à ajouter, mais quand il ne reste rien à enlever."
Antoine de Saint-Exupéry

tradução rápida: "A perfeição não é alcançada quando não há mais nada para se adicionar, e sim quando não há mais nada para se retirar."

9 de out de 2005

acordei o sono da semana passada

Em nenhuma alameda dos jardins
Jamais vi Iboipeba florir.
Corri seus carnavais desengonçados
E seus homens de paletó, rosto firme
e o meu, de dar dó
Ah, eu ainda Morro de São Paulo
Me enterrem na quarta praia.

a vaidade do ego é vermelha


São Paulo, 2004.

Meu rosto é pequeno, só com uma mão dá para escondê-lo. Mas precisei de um corpo inteiro pra esconder minha alma.

5 de out de 2005

moradia e moranoite

não sei em quantas casas já morei. não foi possível ser redundante. pais separados, moravam de aluguel, depois filho precocemente desgarrado, morando aqui e ali. foram casas, apartamentos, quartinhos. eu morei mais na mudança do que nas casas. um dia fui fazer minha mala e me senti em casa, como há tempos não acontecia. quando não é possível mudar de casa, eu mudo de mim. estou morando num vitor de dois quartos agora.

3 de out de 2005

poemeto bobo

me ensine, por favor, a ser pai
que eu te ensino, com louvor, a ser filho
me ensine, meu avô,
a ser homem
de barba-feita
cabelo penteado para trás
gravata com aquele nó que não mais se faz
me ensine a caminhar, sem tropeçar
e quando cair, a levantar
me ensine a não chorar por qualquer desvio
e quando chorar,
me ensine a nadar
borboleta
e voar
me ensine, por favor, a amar
e não fazer desse sentimento
mais um brinquedo de montar
não quero mais ler tantas instruções

p.s.: esperando godot - a melodia.

1 de out de 2005

breve receita para emudecer

1. before sunrise + before sunset



2. Hoje, de Moreno Veloso, na voz de Gal Costa, último cd.

"Eu posso esquecer,
Para ser mais feliz
Mas não vou mudar nada
De tudo que eu fiz.

É só não pensar em nós
Como a melhor parte de mim.

E eu quero chegar
A um dia dizer:
De tanto ficar só,
Vivo bem sem você."

*
Eu fecho os olhos para beijar. Mas, às vezes, esqueço, e fecho junto meu coração.

30 de set de 2005

a falta de dinheiro é meu império vazio

são cinco horas e não interessa os minutos. são cinco horas e não interessa o discurso. não, eu não estou tentando. estou apenas descendo a avenida judia no bairro judeu, na rua onde mora eu, baiano, caótico do sexo masculino, uma-banda do vendaval caboclo, a pobreza é que não existe uma só pobreza: percorro pobrezas paralelas, estou na transversal, mas não tenho mão para erguer - parar o ônibus, chamar o táxi, acenar a mulher, assassinar o vento. isso tudo converge do profundo desgosto pela falta de dinheiro. é sim. a hipocrisia das meninas que por acaso são ricas, e o modelo do carro dos meninos que por descuido, são milionários. e são isso, só isso. eles possuem inúmeras pobrezas paralelas, mas passam em alta velocidade pelo sinal vermelho. Eu estou a descer a rua e fico triste com apertinhos de mão, batidinhas nas costas, eu quero ser corrupto e nojento, eu quero que paguem minha conta bancária. Eu quero dinheiro e não elogio. Eu quero ser rídiculo e não promissor. Minha desgraça é que a mediocridade me incomoda mais do que a pobreza. Alguém me passe uma oportunidade com manteiga, eu quero comer, eu quero olhar com desprezo para cédulas de 100 reais. Eu quero ser rico por uma semana, pelo menos - fazer tudo que tenho aqui planejado - depois volto a ser pobre, mas deixo viva minha realização. Eu quero ser idiota. Eu posso. Eu sei que posso. Eu quero ser idiota profissional. Que merda a arrogância, que merda a inteligência. A poesia é um crime contra meu bolso. E não me levam preso, porque a cela do Maluf na PF seria minha mansão. E não me levam, porque eu não sou tão interessante. Sou pequeno, magrelo e tenho sotaque baiano. Eu estou bêbado são cinco horas e não importa os minutos - importa que eu estou puto com a falta de dinheiro que assola meus sapatos. Meus e de João Filho. Vou dormir, amanhã eu acordo.

28 de set de 2005

Eu que velei seu sono



"Eu que conheci a altura dos vôos (...)
Agora tão perto de você, eu não sei caminhar."


Penso que se minha inteligência as vezes reclama fôlego para correr nesse prumo, desvio de caráter que se tornou atalho, do desgaste da pegada ou cansaço das paragens, há entretanto a possibilidade de, estando cansada, a razão se fazer leve, e minha inteligência ser levada pelos ventos da minha imaginação, esses, quentes no amor ou frios na tristeza. Decidi cedo minha sina para poder errá-la mais. Não tive amigos imaginários, fiz amizade com a imaginação.

p.s: A cena da foto, de Hoje é dia de Maria, é das maiores construções poéticas da televisão brasileira. Consegui os capítulos, e vejo-revejo. O pássaro que desce, o amor que eleva-se. Não ter televisão em casa não é de todo mau - mais cedo ou mais tarde acaba-se conseguindo os raros acontecimentos que valem a pena.

27 de set de 2005

pensatas, repertórios e tristeza

. Li Mia Couto dizer que seremos sempre amadores em se tratando de auto-conhecimento. Não há como ser profissional em si mesmo. Pensei na psicologia. Mas veja que não invalida Couto: Esses são profissionais do "si mesmo" dos outros.

. O querido olho-de-ouro Jodorowsky tem 11 lições para se fazer cinema. Um mago, muito lúcido - aquele que reluz. "Nunca trabajes en el papel tus movimientos de cámara. Llega a los sitios pensando que no vas a mover la cámara, que no vas a iluminar, que no vas a inventar. Llega vacío, sin la menor intención. Echa a andar el motor de la cámara y vive. No crees escenas, crea accidentes."

. "There is nothing but emptiness, the empty existence I exchanged for the truth."
Lu Xun, 1926.

. Amanhã, seremos grandes. Mas não se anime. Não seremos grandes sozinhos.

inveja

{A INVEJA nasce da solidão. Do medo da solidão. Aquilo que move o invejoso não é a evidência de que alguém, algures, triunfa à sua frente. É o medo de que o triunfo alheio signifique necessariamente um naufrágio para o próprio. Um invejoso nunca pergunta «porquê ele?». Pergunta, simplesmente, «então e eu?»}

JP Coutinho, meu querido enfant terrible colunista português.

25 de set de 2005

eré-hé


Montreal, 2002


O ego é somente a cuíca deste carnaval.

p.s: gostaria de congelar os surtos de iluminura criativa e colocar na geladeira, pra poder tomar com sorvete, no domingo.

23 de set de 2005

alexander pope

How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd;

.

Não tenho vontade de apagar as lembranças. Mesmo as dolorosas. As vezes, tenho vontade é de poder complementar as lembranças. Continuar pequenos trechos, escrever comentários, fazer desenhos ilustrando ou colorir alguma lembrança, ou mesmo acrescentar notas de rodapé. Me acostumei desde pequeno a não ser sozinho, estando sozinho. Mas o costume não ameniza as coisas. Meu grande medo era quando eu imaginava que iria morrer sozinho. Hoje, revendo um filme, pensei. Quando me sinto sozinho parece que estou morrendo. Compartilhar sua vida com alguém é em alguma medida, essencialmente isso: dividir sua morte a ponto de esquecer um pouco que ela existe. Estar só é não conseguir escapar dela.

22 de set de 2005

.

- olha pai, como essas pessoas são fantásticas: quando estão tristes molham os olhos.
- acha mesmo fantástico isso? acho um desperdício.

20 de set de 2005

das coisas

a poesia estuda relações internacionais. uma flor. pensei que ela estudasse nuvens, silêncios, cambalhotas, bolinha de gude, beijo no pescoço. bobo, eu.
a poesia quer se relacionar com outros países. outros mundos.
será que preciso de visto pra entrar na poesia?
lembrei da música que fiz com juliano e maria.

"meu passaporte vazio de todo lugar"

14 de set de 2005

13 de set de 2005

de como eu conheci o alisson - II

From: Alisson Villa
To: Vitor Freire
Sent: Thursday, August 14, 2003 10:27 AM
Subject: Re: Are you the Walrus?

"Não acredito que elas invadam Verdadópolis" - pronunciou Verdade-Ingênua, com corajosa segurança diante de um plenário preocupado com a possibilidade de uma invasão do exército de Mentirópolis. Mas ao ser indagada pela Verdade-Experiente sobre como podia ter certeza disso, ela mergulhou em um silêncio constrangedor, pois era assim que as Verdades reagiam quando se viam impedidas de inventar uma resposta. "Ora, não estamos no congresso das Certezas" - gritou, lá de trás, uma das mais engraçadinhas. Os primeiros risinhos começaram a brotar. "O porta-voz de Mentirópolis jurou pra mim que não nos invadiriam" - confessou a Verdade-Ingênua, sendo soterrada por uma avalanche de risadas. Mas a Verdade-Experiente interrompeu a algazarra e com um olhar paternal profetizou à pobrezinha: "Se continuar a acreditar naquilo que lhe contam na mesma proporção com a qual diz a verdade, não tardará a mudar-se definitivamente para Malancolópolis". Todas concordaram.

Caro sr. Freire,

muitíssimo obrigado por doar, durante alguns segundos, suas retinas às minhas palavras. Elas mandam um colírio como agradecimento. Devo endereçá-lo para Salvador, certo? Pelo menos foi o que a realmente muito amável Mônica me contou. Eu, no entanto, sou de Belo Horizonte - conto caso, algum dia, queira saber mais sobre nuvens entre montanhas.

Pois bem. Dei uma espiada rápida no seu Cabeza Marginal e gostei muito do que vi. Li pouca coisa, pois, no momento, estou no serviço. Prometo dar uma vasculhada melhor mais à noite. Mas já adianto que aceito sim o convite para adentrar com meus neurônios nessa congregação. E o que tenho que fazer? Tem uma periodicidade para mandar textos? Vou ter uma coluna? Posso escrever sobre qualquer assunto? São oferecidos chocolates aos participantes? Prefere o Bahia ou o Vitória? Reparou na lua ontem? Para onde vão as unhas cortadas e os guarda-chuvas perdidos?

Bom... é isso. Aguardo suas respostas.

Trapézios e gangorras pra você,

alisson

Ps.: Adorei o texto sobre a Mentira. Tanto que escrevi um sobre a verdade, que é pra balancear.

choro para ser samba - samba para ser chorado

Não, meu senhor,
eu não quero a verdade.
Quero apenas algo para acreditar
Te digo, na sinceridade,
meu samba é sem respostas
minha dor sem vaidade
e se esconde em qualquer idade
Quero apenas algo para acreditar
Uma frase alugada, melodia de mão-beijada
Alguma coisa que eu não consiga duvidar.

Não, meu senhor,
eu não quero a verdade.
Quero apenas algo para acreditar
Alguma coisa que meu coração não consiga duvidar.

12 de set de 2005

de como eu conheci o alisson - I

De : Vitor Freire
Enviado : quinta-feira, 14 de agosto de 2003 04:30:41
Para : bucolico@hotmail.com
Assunto : Are you the Walrus?

"Morte as verdades! Vamos matar todas elas!" - gritou no meio da reunião anual das mentiras.
E todas repetiram em coro.
Até que uma mentira representante da ala das 'as mentiras que contamos por amor', atacada por meses de depressão profunda, pediu a vez, soltou: "Não precisamos perder tempo com isso. Hoje em dia as verdades estão meio suícidas."

Doutor Ilustre You are the Walrus,

Por prescrição da infinitamente amável e gentil ilustre engenheira Mônica [http://missiva.blogspot.com], joguei duas retinas tontas no meio de suas palavras. Fiquei um tempo sem elas. Gostaram tanto do que sentiram, que ficaram por lá, deixando-me com a cômoda cegueira por alguns largos instantes. O fato é que elas voltaram, e trouxeram-me a vontade de escrever esse e-mail e mais, convidá-lo a participar de um projeto chamado 'cabeza marginal'. já ouviu falar? o link é http://cabezamarginal.org

Funciona mais ou menos assim: O cabeza é uma reunião de neurônios. [não, não é aula de biologia]. Assim, é como se fosse um site maior que coordena e administra [isso tudo é só teoria] as seções [pequenos sites] de artistas, grupos e colaboradores. A idéia então seria reunir seus textos e imaginarmos algumas características ilustrativas, como imagens e coisas do tipo, montando o layout da seção. Pense na proposta. Além disso, todos os participantes do cabeza podem fritar uns pastéis no nosso blog, http://cabezamarginal.org/cabezas

Aguardo retorno.

Grande abraço,
Vitor Freire

11 de set de 2005

7 de set de 2005

"eu quero um samba para me aquecer"

A vida lhe tirou para dançar. Nem ousou dizer que só sabia forró um passinho pra cá outro pra lá. Até que a vida pisou no seu pé, e ele sorriu: sentiu-se mais solto, ambos não sabiam dançar direito.

31 de ago de 2005

prossegue-se

Fotografia de Ricardo RiosAmargo

Não foi fácil. E não me refiro a escassez técnica ou dificuldade da produção improvisada. Não foi fácil porque esse vídeo refere-se a um exercício incômodo de transitar um pouco sobre o extrato dos últimos relacionamentos amorosos, e, tendo o texto sido criado no auge de um processo de falecimento de uma dessas histórias, torna o olhar muito mais violento, insensível dentro de sua própria ultra-sensibilidade. Dois monólogos, algum diálogo, um casal. Não há muito o que se comentar. Não há uma história. É um aborto. Quem precisou trabalhar cotidianamente na finalização desse vídeo, pode entender bem esse apelido nada meigo: aborto. Em particular, Juliano Polimeno, o homem do audio e dos sons, e eu, editando o vídeo.
Antônio Rogério Toscano e Maureen Nogueira interpretam com extrema dignidade criativa e competência. Ivana Cabral, fiel parceira, e sua capacidade silenciosa de costurar a viabilidade desse exercício audiovisual, em conjunto. Ricardo Rios, seu olhar perspicaz e seu humor inabalado pelo cansaço. Pedro Gomes e Pollyanna Freire, nossos braços e pernas desse 'aborto coletivo'. Por fim, Mauro Borba e seu toque final nos traços e grafismos do vídeo. Nas próximas semanas, será marcada uma exibição no auditório banespa, da PUC-SP. Avisarei aos interessados.

avô

“sou como a palavra: minha grandeza é onde nunca toquei”
Avô Mariano

No livro "Um Rio chamado tempo, uma casa chamada Terra" de Mia Couto.

30 de ago de 2005

pequena história que a insônia acabou de me contar

Acordou cedo, mas ainda era o dia anterior. Voltou a dormir. Acordou e ainda era o dia anterior. Um tanto chateado, voltou a tentar a dormir. Acordou e o dia ainda não tinha passado. Até que decidiu adiantar-se e realizar seus afazeres do dia posterior.
No dia posterior, ele passou quase todo cansado, resolveu dormir um pouco para descansar, já que tinha feito todos os afazeres do dia.
Acordou cedo, mas ainda era o dia anterior.

"quem tem um búzio tem o mar"

Lembro que logo depois que comecei a me acostumar a enxergar o mundo, passei a me dedicar as minhas atividades sonoras, que já vinham sendo desenvolvidas na barriga de dona Sandra. Ouvia e escutava muito mais do que enxergava. Nessa epóca, gostava de Piazzola e da melodia do mar nas praias de Arembepe. Um tempo depois, no meu quarto, estava me distraindo com um búzio no ouvido, e, eis que de repente, vem da sala o som de Piazzola. Fechei os olhos, e tomei um susto com o que vi. Naquele dia minha percepção passou a ser definitivamente audiovisual.

pensata boba, mas legítima

Deus fez o homem e ninguém comenta sobre seus dotes artísticos. O homem pinta Deus num teto ou numa parede e é reverenciado pela história da arte, ultrapassando sua própria existência. Veja que já na gênese, o conceito de arte é contraditório.

Janela da alma? E quem nos observa através da janela?

Falo dessa cegueira que permanece, mesmo aos seus dois olhos abertos e incansavelmente descreve tudo que pode, com tanta pressa e ansiedade. Tenho estado um tanto cansado de enxergar. E com saudades. É que quando a saudade é muita, passo mais tempo com os olhos fechados.
Meu avô ultrapassou uma míopia até chegar na cegueira. Caminhou dois copos, e percebeu que tudo que seus olhos não captavam, não era mais tão importante assim. Passa-se algum tempo da vida colecionando e tentando agarrar o que se vê. Meu avô, nos últimos anos, começava a mijar todas aquelas tantas coisas que tinha guardado. Diz-se por lágrimas. "Diz-se" é sempre usado para ocultar o bobo que está a falar. Meu avô tinha um binga no canto dos olhos.

hegel

"a essência eterna que só se realiza e adquire consciência de sua existência através do espírito humano"

23 de ago de 2005

cinearrentino

Solanas continua contundente. Mas esse negócio de neo-peronismo eu continuo sem entender. Mas enfim. Memorias del saqueo. Um filme-reflexão, pouca linguagem cinematográfica, bastante substrato e consistência crítica. Na apresentação do seu filme, Solanas e seus cabelos longos brancos, pede para que não nos entreguemos ao clima derrotista de que não há mudança viável para o que estamos vivendo: é isso que "eles" querem que pensemos.

. O povo argentino tem uma consciência política espantosa. Não é por acaso que a Mafalda é argentina. Um saravá ao povo de Piazzolla.

21 de ago de 2005

cartas do edf. marcelo

"Ao velho menino da Rua do Meio,

O menino morava na rua do meio, era para onde eu enviava as cartas cheias de vergonha, medos de incompreensão e de saudade. Espera boa de distância de quinze minutos que demorava dias. Encima da montanha também tinha uma Rua do Meio, era onde ensaiava a filarmônica e onde tinha a venda em que eu comprava suspiro. E o menino também parecia música de banda e o suspiro ficava por conta... Mas ele saiu da Rua do Meio faz um tempo. Foi para as Ruas de Fora. Deixou escondida uma caixa cheia de papéis que vão se amarelar um dia... Só que o menino continua. Nunca ele vai se mudar da Rua de Dentro do meu Coração."

Escrito por Renata Rocha

18 de ago de 2005

para minha maria

Há uma veia que liga a tristeza até a barriga.

mi pequeña medulla

I want to have capacity for you
And be elastic, elastic, to be elastic for you
Where is the line with you ?
Bjork


Cansei, cansei, até que corri. Ah, que preguiça tão longe. Sofri um sorriso esticado, quase arrebentou a felicidade. Meu sono nunca me trás de volta. Abri um olho depois o outro depois o outro depois o outro abriu o olho. Éramos vários e quase. Fugi, deve haver um corpo que não precise de mim tanto. Até que encostei. Aqui. Estava tudo abandonado, não havia ninguém. Me senti em casa.

14 de ago de 2005

fez-se mar

"Vai ver, o acaso entregou
Alguém pra lhe dizer
O que qualquer dirá
Parece que o amor chegou aí
Eu não estava lá, mas eu vi"

Marcelo Camelo, Los Hermanos [Álbum 4].

6 de ago de 2005

4 de ago de 2005

Quartzo escuro [Teatro]

- Eu odeio coincidências. Mas elas acontecem.
- Acontecem?
- Acontecem, não acontecem?
- Destino
- Não tenho fé suficiente para essas coisas.
- [respiração ofegante]
- No mesmo dia que eu aprendi o significado da palavra PAI, aprendi também o significado da palavra LOUCURA.
- A loucura não diz tudo que faz. Não faz tudo que diz. [repetindo]
- Uma parte foi o médico que me ensinou. A outra parte, a ausência de minha mãe me fez entender.

Pai, Pai, Pai!
[ri nervosamente] - Passei tanto tempo chamando meu pai...Mas não tenho mágoas. Não. Pra quê? Não, não tenho. Até entendo. Entendo sim. Meu pai nasceu com uma idade sem fome, sem vento nem chuva, desde sempre existiu ali, num lugar que secou o tempo. Ele sentava cabisbaixo e reclamava:

- Já estou cansado de esperar a juventude.

O único jeito de entrar no mundo do meu pai foi permanecendo do lado de fora.


*
Quartzo escuro - Mostra de teatro de São Caetano do Sul
13/08 (Sábado) - 19h00
Teatro Santos Dumont

23 de jul de 2005

arquitetura da saudade

"Os pilares devem estar dispostos de maneira a constituir uma fresta por onde a luz entre formando uma atmosfera simétrica e pertinente dentro do ambiente."

As lembranças devem estar dispostas de maneira a constituir uma fresta por onde a memória entre formando uma atmosfera simétrica e pertinente dentro do ambiente.

...

Minha saudade é uma favela.

19 de jul de 2005

Auto da Paixão

"Adeus povo, adeus campo,
Aceitai minha despedida
Espinhos soltos no chão
Mistérios presos no ar
Não desejei este cajado infinito
Anuncio a tua vinda.
Herdeiros do fim do mundo
Queimai vossa história tão mal contada."

18 de jul de 2005

coliformes sentimentais

Ele

- Não precisou pertencer para existir, umedecer pra salivar, sobreviver para sofrer, nem sumir para se esconder.

Ela

- Um cafajeste fiel a solidão.

15 de jul de 2005

Algumas pessoas sobre a mesma história - I


Depois do passado, do presente e do futuro, quê mais será preciso para o tempo desistir de medir minha altura? Silêncio, temos visitas. Quem é? Esses. Ora, mas esses estão sempre por aqui. É verdade, mas somos educados, devemos compostura. Moramos num silêncio alugado, e esses visitantes-inquilinos são nossa cara taxa de condomínio. Se fosse mensal, e não diário, talvez não fosse tão angustiante. Um desses tem ciscos de lamúrias no canto dos olhos, seu falar, mesmo quieto, rebaixa o ânimo de todos. Já estou cansado de esperar a juventude, disse dessa sina. Nasceu com uma idade sem fome, permaneceu sem vento ou chuva, desde sempre existe num lugar que secou o tempo. Era vísivel como gostava de conversar comigo. Evitava, mas qualquer bobice que eu escorregava, tinha moradia em sua admiração. Fui salvo pelo canto desafinado da gordinha que fazia parte do grupelho. Era uma gordinha cantora e portuguesa, ou seja, das primeiras vezes, quase a pedi em casamento tamanha emoção, mas depois, cansava-me o vocabulário sempre refém da saudade. E ela percebeu meu desdém. Perguntou-me, como quem denunciava-me de insensível, se eu não sentia saudade. Não, eu sinto sede. A portuguesinha calou-se implorando piedade. Não faltei com a verdade. Se a senhoritinha começar a chorar aqui eu vou te por no olho da rua, recebi o aviso de despejo do tio Bambo. Fiquei triste com o risco de cegar ao relento a qualquer lágrima da gordinha de Lisboa. Calei-me. Queria voltar a lhe perguntar sobre minha altura. O porteiro me consolou com alguma piada. Não, não era piada de português. Mas pelo interfone não consegui entender a graça. Voltei e sentei ao lado do senhor sem idade. Você não sente falta de comemorar aniversário, perguntei, apenas para mudar o vazio da prosa. Vai ter torta de morango no meu enterro, respondeu, juntando alguma felicidade.

O futebol e a emoção rouca

Em todas as comemorações, hoje, eu sempre me recordo da primeira. Com 8 anos de idade e uma paixão pelo futebol inventada, já que não foi herdada por nenhum familiar como acontece de costume, lembro do mestre Telê Santana na beira do estádio, arquitetando aquele time que contava com Raí, Cafu, Leonardo, Palhinha, Zetti, entre outros. Eu me transformo em outra pessoa, foi o que me disseram. E é verdade. A cada gol, um grito. E a comemoração na Avenida Paulista, incluindo as cenas tristes dessa irracionalidade do futebol, o confronto com a polícia militar - instituição irracional por excelência. Foi um jogo absurdamente lindo. O primeiro grande título do São Paulo desde que eu me mudei. Somos tri-campeões da Libertadores da América. Ah, se toda essa manada desembestada tivesse consciência do significado lindo que dá nome a esse troféu.

13 de jul de 2005

Prestes? Maia.

Uma movimentação intensa e muita discussão. Movimento dos Sem-teto na capital Grayscale. Debates. Até que subitamente surge uma menina, sobe na armação metálica e grita com a mulher que está com microfone na mão.

- Mas mãe, eu não me importo de não ter teto. Queria é ter uma cama só pra mim.

O menino e as palavras

. Gostava muito das palavras que minha mãe dizia. Do meu pai, preferia as palavras que ele não dizia.

11 de jul de 2005

1999, Tribos Jovens, Porto Seguro-BA

Teu olho é afiado. Pode furar, mas pode acariciar também. Às vezes piso no chão, mas na maioria, sou terreno pro chão caminhar. É firme esse teu corpo miúdo. Bem firme. Mas não faz de teu corpo casca. Faz flauta. Deixa o som sair.

7 de jul de 2005

Conversas com L - II

É essa? Só há essa. Não cabe pergunta, então. Você pode escolher com quais e com quantos dedos você vai tocar essa realidade, mas não pode escolher outra realidade. Passado isso, é lenda, é bobagem, é sonho. Os meninos com barrigão, mas todos desnutridos. A barriga ficou cheia de tudo que não puderam comer. E os peixes que dormem no barro seco.

Mas tua barriga alimenta outras fomes.

6 de jul de 2005

Egoísmo coletivo

Trecho de roteiro (longa-metragem) em desenvolvimento.

"Aqui a desgraça não tem dono. É de todos. O mundo é isso e a gente tá mais perto do céu. Comunidade forte não entra polícia. Ninguém aqui cheira, porra! A gente só vende. Quem tem que cheirar e se fuder é esses filha-da-puta lá de baixo. Antes de ser brasileiro ou carioca eu sou do morro Dona marta!"

4 de jul de 2005

As paredes conversam um teto

- Sabe qual é meu sonho?
Às vezes até me espanto com minha perspicácia: era evidente que eu devia me calar diante da pergunta, e, logo em seguida ao silêncio, como se tivesse rezando para algum Deus, mostrar-lhe na minha face toda minha fé pela resposta que estaria por vir.
- Eu queria saber sonhar sem cansaço.
Respondeu. E pronto, era isso. A literatura não mudou o mundo, o cinema não mudou o mundo, a arte não mudou o mundo, Deus não mudou o mundo, a esperança - ainda espera a mudança do mundo, ninguém mudou o mundo. Mas o homem mudou, eu me repti, perdi a roupa, o pudor, fiquei nu, estava tão consistente entre aquelas paredes, o pequeno era toda a humanidade que eu já tinha visto. Sua história não interessa, não vou passear pela sua biografia porque para isso o preço a se pagar é caro demais: deixar-se adentrar. Era tarde demais. Eu fui socorrido pelo eco do pequeno. Falei de mim. Contei que eu era gente mas um dia fiquei com preguiça e virei aquilo. O pequeno ria de minhas bobagens. Eu sou bom de bobagens. Eu poderia viver de bobagens. Há emprego para bobagista? Não há. Nem quero. Bastava-me aquele teatro lotado, o público em pé, tudo isso concentrado nos olhos e no sorriso do pequeno. Não me intimidei com a platéia e falei de muitas bobagens, principalmente as bobagens de Jequié, a capital das minhas bobagens. O pequeno virou um sorriso. Tentei procurar o amargo novamente para não me corromper. O chão estava arado, capinado. A terra estava macia. E então o pequeno veio. E pisou. E se sentiu feliz para contar.
- É que cansei. Eu sonhava antes, sabe? Mas cansava muito. Acordava e nem conseguia correr, nem fazer o dever, nem ajudar mãe. Todo suado, pai ainda brigava pelos panos que davam de molhar da água de meu corpo. Parei. Era muita coisa, tanta coisa, quase não cabia tudo no sonho.

A breve biografia do pequeno era minha obra completa.

14 de jun de 2005

Conversas com L

Preciso sentir que há vida em mim. E não o contrário.

Minha trilha sonora

Deus é um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mais achou muito engraçado
Me botar cabreiro
Na barrigada miséria
Nasci brasileiro

(...)

Deus me fez um cara fraco
desdentado e feio
Pele e osso, simplesmente
Quase sem recheio
Mas se alguém me desafia
E bota a mãe no meio
Eu dou porrada a três por quatro
E nem me despenteio
Porque eu já tô de saco cheio

[.]

- Chico Buarque é meu verdadeiro pai. Cássia Eller era minha irmã?

6 de jun de 2005

A botinada no chão

"Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário."
Manoel de Barros, Livro sobre nada.

[mis notas sobre soledad]

Não tenho tido mais pressa nesses tempos pois comprei uma bota nova. Segredo de alpercata, repassado pelo velho Gavião. Enquanto a botina é nova, teu piso é de cuidado, há estima pelo dinheiro investido, é por consequência um andar mais atento. Também não fui de acreditar em bobices. É que no andar mais atento, acontece mais coisas pelo caminho. Assim, há agora esse disse-não-disse com a velharia da igreja. Continuo sem entender as rezas estarem sempre miradas para o céu, quando, é no chão que se pode ler a antologia do mundo. Há um terreno do entendimento díficil de pisar sem aterrar - ainda mais eu que agora tenho minhas preocupações de botina nova. Observo o umbigo dos guris. Uns maltratos, vida de coisa díficil, dou graça que sobrevivi no limbo da meninice e a barba de bigode. A infância é tão traumatizante que veja só o que gera: adultos.

4 de jun de 2005

Um casal de solidões

"Na nossa terra, um homem é os outros todos."
Mia Couto, O último voo do flamingo (p. 140).

[mis notas sobre soledad]

- Por quê a maior altura que conheço não coube em nenhum homem?
- É que há um limite. Passado este, não se enxerga mais homem.
- Não entendo, era tudo muito sem dúvidas antigamente. Hoje, já desconheço mais esses que fazem a gente.
- É impressão, perceba que continuamos os mesmos, um pouco mais evidentes, mas os mesmos.
- Vejo alturas mas não enxergo mais homens. É uma doença?
- Não. Se isso não te matasse tanto, diria até que é remédio. É que seu olhar ultrapassou a miúdeza dos homens. Tente se distrair com os pássaros enquanto sobrevivemos.

[...]

J.D. Salinger e Paul Auster

Acordei como um personagem de Salinger e dormi como um personagem de Auster.

3 de jun de 2005

Soundtrack



Recebe debaixo da porta. Sim, o CD conseguiu passar. É a trilha sonora do nosso amor. Escute de olhos fechados. Dizia na capa. A primeira música tinha uma nota só. Sim, ela conseguiu. Conseguiu colocar naquele CD o audio do nosso amor. Das músicas românticas aos gemidos - nunca soube porque ela gravava. Estava tudo ali.

De repente, uma música engasgando no aparelho. O CD do nosso amor estava arranhado, na metade.

Foto de minha amiga T. Cangussu

31 de mai de 2005

Minha família inventada

Há tanta gente criada, guardada nas gavetas, saltitando na tela do computador, dormindo nas páginas do meu caderno. São meus personagens, minha família inventada.
Esse, leva no sangue a sina do parentesco. Com uma overdose de hemácias no lado ranzinza do vermelho. Primeiro, desconfiou da telefônica. Passou um mês sem fazer nenhuma ligação. E cobraram, indevidamente. Nem perdeu muito tempo reclamando, bastava a sensação de ter a prova, de ter conseguido, esfregou a injustiça na cara do sistema. O telefone foi cortado. Em seguida, a luz. Passou um mês inteiro sem utilizar qualquer aparelho eletrônico, banho frio e acendendo velas a noite inteira. Cobraram, indevidamente. Uma redenção, tinha sido recompensado gloriosamente após um mês díficil. A luz foi cortada.
Por último, a mulher. Passou um mês inteiro sem transar. (...)

A melhor parte de mim



É quando a ausência tem chão. E você pode cair, deitar, pular. Minha mãe, quando em ausência, corrompe a física. Veja como realmente ela não poderia mesmo continuar casada com meu pai. Hoje me peguei falando sozinho. E ela respondeu. Um susto. Bobo. Não sabe? Quando falo sozinho estou falando com minha mãe.

Saudade.

Dos surtos da escrita

Notícias do putêro: Pornografia infantil

Não bastasse os gritos, "Vem meu jiraya", "Me come meu jaspion", o último cliente da Vaneide usava cueca do Cebolinha. Para não ter maiores problemas com a justiça, além de mostrar o RG, vamos pedir pra baixar as calças antes de subir. Aqui, pau pequeno não paga meia.

Publicado originalmente em "Porra, não goza na cara".

30 de mai de 2005

Projetos em andamentos - I

Pequena antologia do chão, curta-metragem em roteirização.

Tenho um irmão abortado que resolveu nascer em mim. Teve medo de caminhar pelo trajeto que eu já tinha feito. Estraguei minha mãe por dentro. Em mim, ele pôde nascer sem precisar sair pra fora.

(...)

25 de mai de 2005

Conheço Cuba e não sabia: Fotografia de meu amigo Rosel Bonfim


A primeira vez que entrei no bar do Gavião em Jequié, eu não me lembro. Na décima ou décima segunda vez, já me passeia na memória um dito. Corria a lenda que eu tinha tomado cachaça na mamadeira. Era neto de seu Vadinho. Quase uma pinga de gente em garrafa condensada. Minha infância corria mais que a lenda. Eu, a mentira e os anões, tinhamos pernas curtas. Mas o que levanta a poeira e bagunça o barro é a firmeza do pé não a largura do passo. Era minha primeira bebedeira. Licor de Jenipapo. Gavião tinha sobrancelha prima da minha. Quando levantava a dele, abaixava a minha. E vice-versa. Se tirassem melodia das nossas sobrancelhas, seria uma música tensa. E ele alinhavou:

- Eu quase fui você um dia. Dei azar. Agora vai. Vai seu porrinha. Vai e faz direito o que não eu não fui.

Tiago fez de mim

"Você é um farsante que leva a vida sendo verdadeiro."

22 de mai de 2005

Existe uma pequena viagem sem volta escondida no piscar dos olhos

Eu preciso que você imagine um lugar longe, muito longe. O mais longe que você puder. Longe suficiente para que eu não possa correr o risco de lhe ver, nunca mais.
Ele fechou os olhos. E nunca mais se encontraram.

19 de mai de 2005

O último voo do flamingo

Estou apenas no começo. Acontecendo de iniciar. É Mia Couto. Por isso as janelas da linguagem estão abertas, nuas, sem a cortina do português de costume, com as vergonhas de fora, mas sem nenhuma timidez, é português de Moçambique. Estou em Tizangara e temo pela minha volta. Prometo enviar alguém no meu lugar.
Quem voa depois da morte?
É a folha da árvore.
Dito de Tizangara

Aproximando estranhezas

Ela all star cano longo camisa com rasgo pertinente e maquiagem ineficaz nos olhos. Ele havaianas gastas óculos da ex-mulher miopia da última paixão camisa laranja. Padaria coffe-shop livraria reduto intelectualóide ambulatório de ilusões 24h ali na Haddock Lobo, isso é São Paulo, isso é perto da Avenida Paulista, isso bem que poderia não existir, ou vender acarajés. No check-list do vanguardista de carro-forte arte sem valor há personagens, há cenário, falta-nos a história. Descrição sucinta e socio-vaginal da personagem feminina: Não consegue ter orgasmo quando transa com amor, nem mesmo com paixão. Sinopse secreção publicitária da personagem masculina: Sobreviveu ao descaso, ao desespero, a descrença e ao desamor. Está morrendo de desgosto. Não se conhecem mas sentam na mesma mesa. Um sujeito de branco pergunta o quê vão querer. Ela. Ele. Responderam. O de branco ri e sai. Quando decidirem algo que está no cardápio, me chamem. Ela inteligência irônica ainda esboçou escrever o nome do anônimo com uma setinha apontando, no cardápio. Desistiu, piada infâme, era o primeiro encontro. Conheceram-se no Orkut. About me: Para bom entededor, a palavra não basta. Ele. Sports: Tentativas incompetentes de suícidio e abnominais dominicais. Ela. A mão nervosa, ela não sabia se queria um amor ou um orgasmo. A noite pedia sexo. Pensou em amá-lo depois. Não dava. Ele tinha desistido do amor em 1983 e desistido de desistir do amor em 2003. Você acredita nessas coisas de internet? Ela não responde, desconversa, impaciente. O sujeito de branco volta, o pedido está sendo feito. Não se fazem mais paixões como na década de 70, puxou assunto. O assunto estava morto. Um café sem açucar. Ele levanta e deixa o rastro da suas havaianas gastas compondo a cena, o charme, o jovem de barbinha mal-feita cheio de boas frases sobre essas coisas do mundo. O sujeito de branco presencia Ela, metade apaixonada, metade enlouquecida de raiva, tinha sido abandonada. O sujeito de branco senta-se na mesa. Um olhar eficaz, ele sabe colher brechas de mocinhas abandonadas. Oferece colocar um pouco de conhaque no café. [...]

Poucos dias depois, na esquina da Haddock Lobo com alguma alameda nos jardins, o sujeito de branco espera. O homem das havaianas chega. Um repasse misterioso de dinheiro. Entrega os óculos e um punhado de papéis que ele tinha levado para decorar. Deu tudo certo? Sim, sim.

16 de mai de 2005

Opinião: Gerald e Nanini

Simples. Gerald Thomas, sim, ele. Passear entre suas criações, no virtuosismo ou na canalhice vale muito a pena. Ele é brasileiro, também. Marco Nanini. Transforma a perdição de Thomas em verve. É indecifrável. Uma escola própria, uma vanguarda individual, uma geração de um ator só.

Circo de rins e fígados.

15 de mai de 2005

9 de mai de 2005

Tampax metáforico

Ela ficava com os olhos menstruados. Mensalmente, seu olhar se prepararava para um mundo que podia nascer, mas não nascia, sangrava escorrido.

Quando finalmente engravidou, ficou cega.

8 de mai de 2005

Porque o samba ainda insiste em mim

"Quem me vê sorrindo
Pensa que estou alegre
O meu sorriso
É por consolação
Porque sei conter
Para ninguém ver
O pranto do meu coração"

Cartola

4 de mai de 2005

1 de mai de 2005

A cada dois copos, três para meu avô

Metade dos dedos tremendo o frio da noite anterior, a outra metade suando com o amanhecer histérico pelo dia do trabalho, nessa cidade de trabalho. Os primeiros instantes de olhos no devir do dia, a velha e orgânica dor pesando nas pálpebras. É porque sempre há uma dor onde você se sente mais a vontade do que em sua própria casa. Está vendo isso ai na frente? Sim, seu vadinho. Podia ser um lago, podia ter peixe, podia ter sapo, podia ter barro molhado, podia ter, aquele cheiro. A descrição pintando a imagem líquida em mim. Mas não é. É apenas um grande buraco na frente do sítio.
É só um buraco.

29 de abr de 2005

Insônia, incompreensão, incoerência

"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta."

Eduardo Galeano

27 de abr de 2005

A força jovem da poesia gaúcha e o xamanismo poético amazonense

Fabrício Carpinejar - O real é aquilo que não podemos sonhar?
Vicente Franz Cecim - O real é aquilo que nos sonha.

Besta é tu, besta é tu

Embrulhou com papel bolhinha, se controlando para não dispersar o dia estourando e fazendo sorriso dos barulhos. Certificou-se da segurança do pacotinho e colocou numa caixinha da grife SEDEX, da renomada estilista dos correios. Hesitou em colocar o nome e endereço do remetente. Colocou só seu apelido de colégio. E deixou o endereço em branco. No destinatário, colocou o endereço de um lugar seguro, muito seguro. No pacote, estava seu coração. No fundo sabia que não há lugar seguro para enviar seu coração, mas queria ter pelo menos o alívio de alguns dias até o correio perceber que o endereço não existe. E o pacotinho iria cair no limbo do correio pois não tinha endereço para devolução, só o apelido do remetente.

O lugar mais seguro que conseguiu imaginar para enviar seu coração foi a memória do seu avô. Poucos dias depois, o pacotinho, de volta. O carteiro era seu amigo de infância. E mais, tinha sido o autor do apelido.

25 de abr de 2005

Valid only in Mind

Você já imaginou a desgraça de não ter um medo, uma morte, uma dor?
Varrendo a terra com as mãos, cavando as unhas com o chão. Diariamente. Seu equívoco era diferenciar, quando era preciso enterrar, quando era preciso plantar. O movimento era praticamente o mesmo. Enterrar uma morte ou plantar uma vida. A diferença, um defunto ou uma semente?

Entrada de emergência

Esse aqui é meu mundo, disse, quase como apresentando-me. E por onde posso entrar nele? O único jeito de entrar é permanecendo do lado de fora.

22 de abr de 2005

Olhares, encanto, álcool e intimidade



Elas não sabem, mas minhas histórias nascem dessas iluminuras do cotidiano. Estarão em algum filme ou texto. Em algum sorriso ou bocejo. Em algum desvio de mim, ou eu por inteiro.

21 de abr de 2005

Deixe eu ser rídiculo, por favor?

Ele se apaixonou por quem se apaixonou por quem se apaixonou por quem se apaixonou por...enfim. Não poderia ser mais simples? É uma amiga linda. É feio querer mais do que amizade? Oi, muito prazer, eu sou muito feio.

14 de abr de 2005

Um ilustre desconhecido, Charles Mackase.

Prefácio (da edição de 1852) do livro Ilusões populares e a loucura das massas

“Encontramos comunidades inteiras que fixam de repente suas mentes em um objeto e enlouquecem à sua procura, que milhões de pessoas se tornam simultaneamente impressionadas por uma ilusão e correm para ela, até que sua atenção seja atraída para alguma loucura mais cativante que a primeira. Vemos uma nação de repente tomada, dos seus membros mais altos aos mais baixos, por um feroz desejo de glória militar; outra de repente se tornando enlouquecida em função de um escrúpulo religioso; e nenhuma delas recobrando seus sentidos até que tenham derramado rios de sangue e semeado uma colheita de gemidos e lágrimas para deixarem todo proveito a ser obtido somente por sua posteridade. Numa antiga época, nos anais da Europa, sua população perdeu o juízo sobre o sepulcro de Jesus e se reuniu em multidões frenéticas para procurar a Terra Santa. Em outra época, enlouqueceu por medo do demônio e ofereceu centenas de milhares de vítimas à ilusão da bruxaria. Em outro tempo, muitos se tornaram dementes a respeito da pedra filosofal e cometeram loucuras até não serem mais ouvidos em sua busca. (...) O dinheiro novamente tem sido muitas vezes a causa da ilusão das multidões. Nações sóbrias tornaram-se todas aos mesmo tempo jogadoras desesperadas e quase arriscaram sua existência num lance por um pedaço de papel. Traçar a história das mais proeminentes dessas ilusões é o objetivo dessas páginas. O homem, já se disse muito bem, pensa em bandos e se verá que eles enlouquecem em bandos, ao passo que só recobram a lucidez lentamente, e um a um."

3 de abr de 2005

Pensata portuguesa

"Pela idade, há muito tempo que sou um velho. Mas só pela idade. Trabalho com a mesma vontade de sempre, a imaginação ainda não desertou de mim, compreendo melhor o mundo em que vivo, sou consciente do valor da vida, e, quanto à morte, ela chegará no seu dia, nem antes nem depois. Quem morre aos 20 anos, morre na sua velhice e não o sabia. "

José Saramago

1 de abr de 2005

Um adeus vestido de bom dia

Primeiro descobriu a revelação e só bem depois conheceu o segredo. Sim, sua memória era sua mais profunda tristeza. O braço avisava as palavras a mão através do egoísmo dos dedos, impaciente como sangue, nas veias. Quatro paredes conversavam uma casa, o silêncio era o teto, por isso confundia a lâmpada com a lua e sentia o frio do relento. Você me machuca – ouviu o eco. Dizia Eu te amo e o espelho fazia cara feia. Sua genialidade então era isso: a competência em reunir ignorâncias desconhecidas dando-lhes a intimidade de uma família. Até quando? Retornou sem bagagem, e se tornou aquilo no meio da sala. Viajou algumas vezes, mas seu visto para ir ao quintal tinha perdido a validade. O mato escrevia sua moradia com descaso e desejo. Entre dois amores descobriu um resto de algo. Sua força estava toda nas palavras, sua pouca auto-estima não lhe revelava na folha em branco nenhum músculo. Seu pior pesadelo não era um dia acordar analfabeto, era viver trancado numa biblioteca. Não teve paciência parar continuar na urgência da vida.

Arte y vida

Grafitada numa parede branca, na Escuela Internacional de Cine y TV, localizada em San Antonio de los Baños, duas frases, uma escrita por Coppola e a outra, tempos depois, escrita por Fernando Birri, um dos diretores da Escola.

ART NEVER SLEEPS

...pero sueña de ojos abiertos.

Andarilho

Não sei o nome da rua de nenhuma saudade onde morei.

28 de mar de 2005

A face piegas da paixão

O beijo prendeu a noite na boca. Você silenciando suas pequenas dores no meu pescoço e eu me fazendo de ninho para o teu carinho. Sabe que há um lugar no meu pescoço que é seu? Não é lavrado em cartório, não há documento de posse ou garantia contra defeito. É seu pra você ser, sem ter. Ter é o primeiro passo para perder. O meu pescoço está aqui, pra você ser. Ser você, nele.

27 de mar de 2005

Estilhaços de Montreal


O chão molhado escorregou minha queda. Dos cinco dedos, houve um que me traiu. Na mão, é preciso maioria absoluta quando se quer agarrar qualquer coisa. Levantei apagando arranhões. O olhar dos outros sobre meu sangue fez minha ferida. Só doeu quando ela me pediu perdão. Era uma sexta de muito frio e bastante silêncio. Entrei correndo na pequena casa no centre-ville, onde a janela aberta era um quadro com pássaros vermelhos. Parou de falar sozinha pois estava começando a discordar demais, de si mesma. Fazia tanto frio que parei de sentir. No inverno, toda casa é um pouco sua, um sorriso anônimo no metrô é uma lareira, o primeiro abraço num desconhecido já é excesso de intimidade. Ela falava um francês ardido. O roteiro previa uma comédia de erros, um pastelão de imigrante perdido, até encontrá-la disposta a rabiscar de improviso. Lembro que só percebi que o quadro com pássaros vermelhos não era sua janela aberta, quando encostamos na parede e ele balançou, balançou, até cair. Ainda esbocei uma pausa para consertar. Ela segurou firme. Mais um fiapo de francês ardido. Disse que preferia a janela fechada.Minha melhor lembrança daquele inverno, foi verão.

23 de mar de 2005

Sempre que vou a matemática, não volto.

Ela olha o cartão verde, a foto, a marca fatídica do dedo. Ele invade-se. Não poder ficar só em seu próprio nome é como traumatizar a solidão. Ela percebe. Eles tem muitos anos de diferença. É possível saber com exatidão quantos anos separam, mais de uma década, faz a conta. Mas quantos anos temos de semelhança? Quantos anos nos aproximam?
Ela observa, encantada. Não há nenhum número em seus olhos.

Prevert et Gainsbourg

"Aimer, ce n'est pas se regarder l'un l'autre, c'est regarder ensemble dans la même direction."
Antoine de Saint-Exupéry

Cette chanson était la tienne. Quatro olhos, dois olhares, o mar. Ele não transborda, permanece. O mar não aceita interlocutores.

22 de mar de 2005

Sinopse de um amor bobo

Desculpe, mas só posso lhe amar nas horas vagas.
Tornou-se um vagabundo.

Breve descoberta

Um dia descobriu que podia viver mais do que marcava o relógio. Mais do que permitia o calendário. Mais do que limitava sua idade.
Está quase morto.

21 de mar de 2005

20 de mar de 2005

Vestígios

.Se cada vez que a gente sobrevivesse, ganhassemos uma vida, poderiamos ser quase imortais.

.Confesso que já procurei na farmácia um suícidio sem efeitos colaterais, nos outros.

.Minha vaidade está quase toda em meu nome. Quando anônimo, sou muito humilde.

.Quando tinha 16 anos procurei uma profissão que não precisasse trabalhar. Encontrei, mas tive medo de fazer o vestibular ao ver a concorrência.

.Ao não ser batizado, meus pais me permitiram qualquer Deus. Há um carnaval deles em mim.

.Às vezes, um elogio é o pior crime que se pode cometer ao ego do outro. Não há legítima defesa.

Para Lamenha



"Com medo ninguém consegue escrever ..."
Clarice Lispector


Suas circunstâncias lhe relevam a vida. Sim, é em relevo que caminha. E seduz. Acho que ele está sempre tentando se seduzir, cada vez que não consegue, acaba por seduzir o outro. E o fato é que quando seu corpo se move, para qualquer que seja a direção, sua sensibilidade já foi e voltou algumas vezes, fazendo pouco caso da lentidão do corpo. Passou algum tempo dando voltas pelo quarteirão. Ele gostava de brincar com as figuras geométricas, trajeto redondo em torno do caminho retangular. Sobreviveu enquanto pôde, depois partiu de lá. Partiu dele. Nunca partiu, mesmo, de fato. Deu voltas.

19 de mar de 2005

[...]

A loucura não faz tudo que diz.

Cartas - Diálogos sem travessão II

"Porque meu pé veio no final da minha perna, não ando pelo meio."
Nathalie Quintane


Vou sumir. Para onde? É uma noite despedida de indagações. Me leve junto. Se não te tenho, aqui, agora, junto, como te levar, onde quer que seja, junto? Você disse que era uma noite sem indagações. Sim, despedida de indagações - mas é preciso pagar o FGTS e seus pormenores burocráticos. Não seja tanto, agache-se, aproxime-se, estou lhe concedendo sonho. Um sonho nunca cumpre tudo que promete. Este promete tanto, que se cumprir um beijo, já terá realizado tudo, e o resto permanecerá desimportante. Não sei ter medo, preciso que você me ensine, preciso desse instrumento. Eu poderia ensinar a qualquer um, mas, quando estou falando com você, quando estou pensando você, sentindo você, sou contagiada pela sua falta de medo. É verdade que tenho receio, é verdade que desconfio. Mas não temo. Preciso ir embora de mim. Pode ficar. Fique em mim enquanto eu viajo. Quero suas marcas em cada canto, seu cheiro em cada detalhe. Quero poder voltar e sobreviver com a lembrança de que você me teve, ainda que eu não estivesse. Você está me dando mais chaves do que portas. A verdade é que só há uma porta. E não é bem uma porta. É uma caixinha, aquela, preta. E o que faço com tantas chaves? Com tanto desejo, com tanto encantamento que você me dá? Essa é uma noite despedida de indagações. Não há mais pormenores burocráticos, estamos fálidos até que algo novo possa acontecer. Não posso aceitar. Ao ser injusto consigo mesmo, você acaba sendo comigo também. Não posso pensar tanto para dar cada passo, não sou assim, você sabe que eu não tenho medo, e seu sorriso é meu risco. Preciso ir. Você vai voltar? Nós, em fato, nunca nos encontramos, como vou voltar para onde nunca estive? Feche os olhos, quando puder, volte para aquele lugar que inventamos. Talvez, numa dessas vezes que você abrir os olhos, você acabe de retornar onde nunca esteve antes. Você me inaugura a cada vez, mesmo não nos conhecendo. Você estréia meu coração com cada intimidade que compartilhamos. Preciso ir. Um beijo.

Cartas - Diálogos sem travessão I

"La realidad es un sentimiento."
Adolfo Navas

Você acredita? Não me corrompa. Responda como quem vive. Desconfio. Me incomoda ser assim tão...você. Explique-se. Você vai mesmo traçar esse diálogo em linha reta? Correndo o risco de perder o elo e a fala de quem é quem? Sim. Me perco. Os travessões não irão legitimar nada. Estou aqui numa madrugada estranha, tudo que não for igualmente estranho irá me parecer outro dia. Não quero outro dia, não agora, nesse instante, pego os minutos com força, quero mantér-me ereto, sereno, apaixonado, encantado, sonhando, brincando de dar palavras para seu sorriso. Não exagere. Sim, mas também não posso negar-lhe. Provenho de um mundo seco, em que cada dose de umidez é venerada com fervor. Você veio de mundo diametralmente oposto, vem de lá, do Sul, do vinho, do frio, sabes o que é um chão navalhado pelo sol? Sou fragmentado. Minha vida é fragmentada, meus desejos são fragmentados, meu amor é fragmentado, minha morte também será, e está sendo, fragmentada. O segredo? A costura. Não, não falo do velho clichê da colcha de retalhos. Mesmo não tendo nada contra o clichê - essa fonte que não seca. Não vá além, preciso ser capaz de pelo menos ter sua sombra. Minha sombra? Sim. Você amaria minha sombra? Não. Pausa. Ela esperava outra resposta. Ele esperava outra resposta. O mundo esperava outras perguntas. Não vê que o amor é o equívoco também? É falho, tem rugas, defeitos, marcas, sinais. Não fale de sentimentos que ainda não sabemos entre nós. Sim, é verdade. E do que você quer que eu fale? O que posso falar? Não tenho como me apropriar de nenhum sentimento pois não sei nada entre nós. É o brilho dos meus olhos a cada frase sua digitada? É a capacidade que você tem de exalar o calor do teu sangue mesmo através dessa máquina fria? Quero lhe batizar em minha vida. Não sou católico. Nem ateu. Fui abençoado por pai-de-santo, pintado em aldeia pataxó, sou isso. Não fuja do assunto, retorne ao meu ego, preciso da minha auto-estima. Seremos isso? Momento da realidade, agora? Não, falo de verdade. Seremos isso? Uma possibilidade de reestruturar a auto-estima um do outro, com elogios, com a imaginação de sentimentos com as metáforas das sensações e a subjetividade do desejo? Não posso lhe responder. Não sabemos responder. Se tivessemos respostas, ou parariamos aqui agora, ou largariamos os compromissos imediatos e nos endividiariamos, nesse exato momento, para uma viagem para a metade do caminho. Ou talvez apenas seremos capazes de lidar com esse ímpeto até o dia que vier ao Brasil, nos encontraremos talvez já sem tanto entusiasmo - cada um jogando no outro a culpa por não ter sido louco suficiente para cometer a paixão em golpes demorados e deliciosos com suaves mordidas, beijos coloridos e intermináveis. Ou talvez não, isso tudo realmente seja único, e, não importa quando, mas, iremos nos encontrar. E não importa onde, mas iremos nos abraçar. Não importa como, mas de alguma maneira iremos nos amar. A arte da suposição pressupõe certa ciência: a matemática das probabilidades. Relevo. Ao contrário do que diz a física, no escuro eu também consigo enxergar cores. Enxerguei você. E não é escuridão esse intermédio? Essa internet, esse orkut, esses e-mails, não estamos pintando com cores num meio escuro - que de tantos pixels e células luminosas, do excesso de luz, provoca certa escuridão em seus emissores-receptores rádio AM/FM música romântica numa madrugada paulistana, sim, é Roberto Carlos, o que esperar essa hora na rádio? "Cada minuto é muito tempo sem você, sem você/Os segundos vão passando lentamente, não tem hora pra chegar/ Até quando te querendo, te amando, coração que te encontrar / Então, vem que nos seus braços esse amor é uma canção".

Navalha

Adêmiro, tem precisão toda essa dor?
[Adêmiro chora]
Tá vendo o chão aí todo navalhado de sol, quieto, calado, cê arranca um toco e ele nem nada. E você, me acentue essa desgramêra!
[Adêmiro limpa as lágrimas]
- Tião, se eu me navalhar e virar chão você promete num rancar toco de mim?
[Tião pasmo.]

Justificativa

Queria um lugar pra ir guardando as coisas que vou deixando aqui, ali, escrevendo por aí, frases, pequenas sombras, iluminuras, essas coisas, que, muitas vezes não cabiam no lugar onde escrevo junto com mais dois amigos, o Cambalhotas. Eu espero mantér isso aqui silencioso, íntimo. Mas, ora pois, isso é internet. Então deixa pelo menos eu curtir o ínicio.