29 de mar de 2009

Beleza convulsiva

Crítica do filme "Sobreviventes" por Zanin no Estadão.

"O que interessa mesmo é quando as pessoas contam suas histórias, e a câmera se fixa ora em seus rostos, ora em suas mãos. Às vezes há um descompasso entre imagem e som. Ouve-se a fala, mas a boca não se mexe. São imagens profundas, belas, nunca bonitinhas. Procuram-se nos rostos os traços daquela beleza que Baudelaire chamava de convulsiva. Rostos de gente que viu a morte de perto."

28 de mar de 2009

Sobreviventes


Crítica do documentário "Sobreviventes", do qual fui diretor assistente e realizei a montagem.

"(...) “Sobreviver”, define o dicionário, é “continuar a viver, a ser, a existir, depois de outras pessoas ou de outras coisas”. Desta definição, o trabalho de Chnaiderman e Pinheiro se concentra, na condução das entrevistas e na edição, em dois termos-chave: “continuar” e “depois”.

A sucessão de histórias nos permite compreender que duas forças estão em jogo nas situações de sobrevivência, que para continuar a existir é preciso insistir depois de algo que bloqueia ou lança a vida na contramão.

Os testemunhos, no entanto, não se reduzem a ilustrações de casos limítrofes, nem o documentário se aventura no campo das experiências de quem quase morreu e trouxe desse “por um triz” algum tipo de mensagem. O que vemos são os que fingiram de mortos para continuar a viver, os que foram dados como mortos, mas que de fato não haviam morrido, os condenados a morrer precocemente e que, porém, continuam aí compartilhando vida. E há também os que perderam tudo _casa, filhos, liberdade, o direito de circular e de existir, como os prisioneiros torturados por nossas ditaduras."


Cássio Starling Carlos, blog da ilustrada - Folha.

27 de mar de 2009

Precisamos fazer algo com essa pensata

"Buceta é um negócio desorganizado, bagunçado. Requer uma outra abordagem, não dá pra entrar querendo encontrar algo, querendo impor uma ordem.

Você não pode ser pragmático nem metódico diante de uma buceta.
Homens em geral são muito caretas diante de uma."

Coisas que você ouve quando a amizade conquista intimidade.

23 de mar de 2009

Projeto permanente

"Infinito foi esse minutinho que passou agora, e essas coisas não ficaram registradas porque são de foro íntimo, embora os telhados testemunhem gritos pelados toda hora. Gritos pelados é uma expressão do espanhol, veja bem, não será coincidência que o amor traga de volta pedaços reciclados para quererte, abollarte y comerte a besos…"

Da Heloisa. Mais aqui.

Encontrei a sinopse do projeto que estou trabalhando. Não acho feio encontrar fora o que me movimenta criar por dentro. Acho sincero reconhecer-se nos desatinos alheios. Não é pois, sobre isso que vou falar?
Do sentimento que se desfez. Não necessariamente do outro, que foi, que partiu. Mas o outro como um movimento que passou, um vento que mudou as coisas de lugar. Quero conversar como ficou a vida com aquela poltrona mais para a esquerda.

16 de mar de 2009

bebe

Amar não é ter certeza. É embriagar o talvez.

Adelmenito

Adelmenito sabe quando não sabe das coisas. E se você permitir pensar bem sobre, vai ver formosura nisso. Cresceu assim, de menino que vai ser para jovem olha como tá sendo. O futuro ainda não tinha alinhado, porque o futuro que a gente espera não dá carona. Futuro não é trêm que se espere, dizia o povo de Jabaquara. Antes as coisas sabidas do povo de Jabaquara ou Amargosa eram sempre dadas de abobinhagem. Até que Adelmenito chegou na cidade trazendo de inteligência as prosas das outras cidades. Não que ele tivesse nascido por aí, mas ele era bom de ouvir. Quem sabe quando não sabe costuma ser bom ouvidor. Era assim, aprumando as pensatas nos bolsos, que ele chegou na hospedagem de quem é de faculdade. Esse povo da faculdade é sempre vindo de outros cantos. Até acharam bom quando subiu a tijolada, mas hoje já ouve-se o lamurinho de pé-de-praça: pra quê se as sabedorias não ficam na cidade? Vem de fora, fica um tempinho, e vai-se embora assim que pega o papelete. Numa dessas lamurinhêras, um tonto deu grandeza para uma tolice contra a faculdade. Foi um rebuliço. O tonto colocou sangue nos olhos daquele povo, arrepiado das entranhas, fizeram chame-chame, sanguizêra, bacurinhação e pedregulhada. Pela desgraça dos azares, a falta de sorte tropeçou Adelmenito, justo o do não-saber. Se eu tivesse só dois olhos, falaria o que tinha acontecido. Mas como vem outras coisas no corpo da gente, bagunçando o coreto das sensações, não sei para onde foi. Tinha aquele cheiro de dor com sangue esmagado. Aquela dor que não é justa, que não tem pertencimento, que nasce sempre de alguma desgraça órfã, pedindo esmola nas ladeiras do peito. Tinha tudo pra ser, falou um remelento arrependido. Fazer uma multidão endoidar demora pouco - vai tudo de uma só vez. Agora desendoidar apega-se mais tempo: vai assim, um em um, na preguiça da razão.

Esse negócio me agonia até hoje, mas de tanto, que eu chego até achar o nome de Adelmenito bonito. Com a cabeça eu sei que é uma tristeza de nome. Mas trás uma danada de uma memória bonita que não tem como batizar outra beleza. Já nos finalmente, respirando com a dificuldade que presentearam, cheguei junto só pra conseguir um suspiro dele pra guardar comigo. Nem sabia o que dizer. Ele percebeu e se reconheceu de mim, achando formosura meu não saber. Tem coisa que nasce pra gente não saber, lembro dele dizendo. Depois de umas olhadas perdidas, uma coisa de dizer encontrou minha boca, quase nem passou pela cabeça. Não sei porquê mas perguntei se ele estava com raiva. Com raiva daquele povo. Do tonto. Da cidade. Da maluquice quando ganha muita gente. Nunca vi Adelmenito de raiva. Queria saber dele agora.

A dificuldade de respirar subiu pra fala, mas ainda assim ele me disse assim. Até poderia sentir raiva. Mas se é pra ser o último gosto que carrego, quero não. Prefiro lembrar de outras coisas pra botar na mala dos sentimentos.

Adelmenito vai continuar sendo, mesmo depois de morto. Mais uma coisa que ele não vai saber.

8 de mar de 2009

Nova mente

Sua tentativa de antecipar desgraças acaba trazendo a pior delas.
A que impede de acontecer o que há de vivo em meio a toda desgraça.
Antecipar é sempre um aborto. Por mais que seu olhar resignado diga: não teria chances de sobreviver.

Talvez se eu tivesse tido uma criação mais católica seria mais fácil.

Ainda bem que não é fácil, pois.

Rascunho para cena

"Fazer a diferença".

Ele ouviu denovo mas dessa vez reagiu. Você sempre vai achar a vida sem sentido. Não importa se você vai se filiar ao greenpeace ou partir numa campanha contra a prostituição infantil no nordeste. Não adianta entrar para os doutores da alegria. Sua vida vai estar sempre assim. Cheia de vazio. Porque enquanto você envolve seus tantos anos nesse atordoante movimento de "fazer a diferença" de maneira grandiosa, do seu lado, continua sem nenhuma diferença, o mesmo, as mesmas pessoas obtendo as mesmas reações de você. Obviamente, assim como um herói revolucionário, você pode me dizer que as grandes causas tem grandes preços. Algo retumbante sobre a humanidade ter mais importância do que sua mediocridade cotidiana, mesmo que isso inclua até um filho. Um filho que é menos importante do que o mundo. Do que a mudança climática global, que os trabalhadores infantis, enfim. Eu não vim aqui para te condenar, e sinceramente nem acho que você seja culpado de nada. Já faz algum tempo que me afastei desse jeito simplista de ver a vida. Eu vim aqui porque por alguma razão inexplicável eu gosto de você. Eu vim aqui porque em algum lapso da sua peregrinação, você foi importante pra mim, falou coisas que mudaram minha vida num momento crucial, porque você me ouviu. Você fez a diferença pra mim, num desses lapsos. Fico me perguntando se ao invés de tentar mudar o mundo, você empenhasse mais energia a mediocridade. Mais energia ao teu filho. Começar a humanidade pelas pessoas que te amam.

2 de mar de 2009

Porteiro

Mais uma. O jovem homem pequeno não esperava mais por aquele olhar do porteiro, fazia tempo o receio de qualquer brincadeirinha machista tinha dado lugar a uma estranha cumplicidade. Naqueles ultimos meses abarrotados de um calor que desejava a cidade, muitas histórias passaram por aquela portaria, acompanhando o jovem homem pequeno. As vezes recebia no inusitado da noite, e o interfone tocava para avisar. Ali mais uma oportunidade para qualquer deboche. Mais uma, hein? Não. Aliás, mais cúmplice do que sua voz no interfone, era o olhar do porteiro quando calhava do jovem homem pequeno subir de mãos dadas, sempre desengonçado, sempre tentando esconder de si seu desconforto com aquela situação. Definitivamente não se tratava de nenhum cafajeste ou coisa que o valha. Mas era fato que os meses quentes trouxeram esses desejos transitórios e de cpfs variados. O porteiro talvez tenha sido o primeiro a perceber a situação que estava a se desenrrolar. Ele ausentou-se do cômodo lugar de porteiro - que de todos sabe um pouco - e passou a habitar um privilegiado local de compaixão, algo de um exercício profundamente inovador na sua trajetória de nordestino migrante. E não há de esperar qualquer tipo de confraria de "vindos do norte", pois se fosse gaúcho, possivelmente o mesmo aconteceria na relação com aquele jovem homem pequeno. Era baiano, sim, o pequeno homem. E seu sotaque molenga poderia até ser compreendido como elemento do seu qualquer sucesso provisório com aquelas histórias cheias de cabelos longos. Mas o porteiro percebeu então que ali se tratava de um homem atormentado, de um desespero que não condizia com sua pequenez. O desespero de quem tropeça ao carregar o próprio corpo - triste passava pela portaria sabendo que aquela história, ainda que tivesse abdicado do sapato de salto alto, não iria sobreviver a três ou quatro subidas e descidas de elevador. Certa feita, com a desculpa da falta de luz, até subiu de escada, e é provado uma certa esperança que lhe acometeu: uma espécie de saúde, um exercício físico que pudesse fortalecer a possibilidade daquele amor. Bobagem.
Quando chega desacompanhado, o porteiro olha e compartilha um leve suspiro. Um homem quando reconhece-se na dor do outro, parece doer um pouco menos.

Talvez seja isso. Mais uma. Pensou por dentro. O jovem homem pequeno passou a ser seu próprio porteiro, dando vazão ao deboche como a mais cruel auto-crítica. Nessa portaria de tormento e desilusão, dificilmente passa-se ileso. O elevador nunca perdoa. Menos uma.