22 de fev de 2009

Doença particular

Há muitos anos, todas as noites, antes de dormir completamente, eu sempre penso na minha vida alguns anos depois. Imagino caminhos, invento pessoas novas ou amadureço histórias existentes, traço feitos, realizações, vivencio situações das mais bobas até as mais grandiosas.

As vezes esses momentos imaginativos são tão vivos e prazerosos que acabo optando por estender o momento na cama para poder imaginar mais e mais. Quando isso acontece e passo mais tempo na cama do que em pé, é a minha sirene interna alertando algo. Depressão, talvez. Apesar do grande prazer que dá imaginar possíveis futuros para minha vida. Acho que é minha doença particular. Hoje acordei vencendo isso, com motivação para sair da cama, para ler, para escrever coisas, para re-encontrar pessoas, fazer acontecer. E admitir essa doença particular significa também um movimento de acolher isso e trazer para a consciência o perigo dessa imaginação sem vida além da minha cabeça, além da minha cama.

A imaginação tornou-se meu vírus incurável. Uma espécie de diabetes, algo que demanda eterno controle. Doce desespero de existir.

8 de fev de 2009

Carnudo

Sentei ao seu lado pela semelhança. Ele assemelhava-se e não sei direito com quem. Existem pessoas que simplesmente lhe trazem uma aproximação, lhe lembram alguém, não se sabe nomes. Ele tinha semelhança por algo que me despertou algum afeto. E bastante confiança. Pois sentei.
Quando ele arqueou a sobrancelha eu já sabia que falaria pouco mas seria uma fala importante. As pessoas que sabem usar bem a sobrancelha, em geral, falam menos, mas falam bem. Acho que economizam na expressão do olhar algum sentido, e as palavras enriquecem-se na potência da boca. Esperei um pouco. Tive paciência, e isso me deixou feliz.

Ele contou que domingo para ele era como reveillon. Incerto, a semana era seu próximo ano. Domingo findava uma jornada, o sol nascendo na segunda lhe comovia. Ficou quieto um tempo e então lhe perguntei se isso era um jeito que ele encontrou para achar que vivia mais. Ele balançou a cabeça. Na verdade, era só um jeito de dar mais valor ao pouco tempo que lhe restava. Ele não conseguia viver direito sem ter essa esperança com relação ao tempo. Esse sentimento tão comum aos finais de ano, como se houvesse uma segunda chance ou uma nova possibilidade de fazer coisas.

Acreditar é um verbo carnudo, finalizou. Ele sorriu com poucos dentes, mas nada me tira a sensação de que aquele verbo combinava muito bem com aquela boca.