26 de abr de 2011

Caminhos

Abro caminhos sem saber sobre sua serventia futura. Ligará o quê ao quê? Afluentes avulsos se encontram nas vias paralelas, comentam, falam de mim pelas perpendiculares. Abro caminhos sem saber quando estou asfaltando antigas estradas ou inventando novos chãos. Não pergunto, sigo, faço, ímpeto. Não é sempre assim. Abro caminhos sem saber da minha própria direção, porque minha sina está desamparada. Tudo é lazer, tudo é trabalho. Não escolhi uma vida com décimo terceiro. Então sei o peso de caminhar fantaseado de primeiro. Abro caminhos sem saber. A verve transborda nessas temporadas cheias de ausência do amor. Quando vier, teremos muito espaço para se perder, penso. Bobagem, e de bobagens também se compõe caminhos consistentes. Não há preparo. Existe só o ímpeto, um corpo atormentado que descobriu seu jeito de existir. Uns se recolhem, as vezes adoecem, esperam novas colheitas como se a entre-safra afetiva fosse um inverno. Eu não trabalho na perspectiva das estações. Nada me garante que haverá sequer um outono. O meu corpo é o caminho mais longo que já abri. 

A perspectiva é o asfalto dos pragmáticos. Eu, sigo no chão da minha introspectiva.

Oiá libertou Xangô

Faziam festas para Xangô em Tákua Tulempe.
As mulheres eram loucas por ele
e os homens invejavam.
Eram festas de hipocrisia.
Em um desses festejos, prenderam Xangô
e o trancaram num calabouço.
Xangô tinha uma gamela onde via tudo o que acontecia,
mas havia deixado sua gamela na casa de Oiá.
Passaram-se alguns dias e Xangô não voltava para casa.
Foi quando Oiá olhou para a gamela de Xangô
e viu que ele estava preso.
Da prisão Xangô sentiu que alguém mexia na gamela
e pensou: "Ninguém além de Oiá save usá-la".
Xangô, então, lançou muitos trovões
para que Oiá ouvisse e o encontrasse.
Oiá recebeu a mensagem, acendeu a fogueira
e começou a cantar seus encantamentos.
Oiá pronunciou algumas palavras
e cruzou seus braços em direção ao céu.
Nesse momento, o número sete se formou no céu.
Um raio partiu as grades da prisão e Xangô foi libertado.
Ao sair, Xangô viu Oiá, que vinha pelo céu num redemoinho
e levou Xangô para longe da terra Tákua.
Oiá libertou Xangô com o raio.
Oiá libertou Xangô com o vento.
Oiá libertou Xangô.

Mitologia dos Orixás, organizado por Reginaldo Prandi (Cia das Letras)

25 de abr de 2011

24 de abr de 2011

Soledad

Una soledad adentro
y otra soledad afuera.

Hay momentos
en que ambas soledades
no pueden tocarse.
Queda entonces el hombre en el medio
como una puerta
inesperadamente cerrada.

Una soledad adentro.
Otra soledad afuera.
Y en la puerta retumban los llamados.

La mayor soledad
está en la puerta.

Roberto Juarroz

19 de abr de 2011

Foi

Você estragou as minhas manhãs. Não foi sua culpa, eu sei. Mas queria te contar, porque preciso, não porque isso vá mudar algo entre nós. Aliás, nós não fomos capazes de mudar nada entre nós. Então, nada mais conseguirá. Nenhuma manhã será igual. Seu cabelo bagunçado era tão lindo, mas eu nunca consegui elogiar. Eu me alimentava do seu hálito matinal. Não consigo descrever nossas manhãs sem anoitecer os olhos.

Foi numa manhã dessas que você me ameaçou. "Não diga que me ama, porque eu posso acreditar."

Você acreditou. 

13 de abr de 2011

nome dela

ele me disse: "por favor, não me fale mais o nome dela. não quero mais ouvir, não aguento mais."
esperei alguns instantes e retruquei: "mas eu não falei o nome dela em nenhum momento hoje".
ele reuniu os joelhos, trouxe a respiração mais profunda que conseguiu e falou com uma voz baixa mas firme: "toda palavra parece o nome dela."

silenciamos o resto do tempo.

8 de abr de 2011

a bunda

eu acho bunda a coisa mais poética desse mundo. mas tem seu valor subjugado a espetacularização do desejo, e aí parece até uma coisa vulgar. viver é vulgar. uma bunda é sublime. a palavra, a coisa, o movimento. a beleza fica. tudo o mais, desgasta, cansa, deteriora, se esquece, se esvai. não há absolutamente nada capaz de apagar da memória a lembrança de uma bunda bonita. a bunda é uma das poesias mais vertigionsas do corpo.