12 de dez de 2011

Não sei

"Não sei mais sobre o quê escrever."

Passei dias pensando nessa frase. Foi um bilhete deixado antes do suicídio. Ele passou a maior parte da sua vida completamente analfabeto, inicialmente por circunstâncias óbvias, mas depois, ele mesmo admitiu, por um certo receio. Ele trabalhou durante toda sua vida numa grande fazenda de eucaliptos, dedicada exclusivamente para a produção de papel. Sem nenhuma motivação aparente ou expressa, já aos quarenta e poucos anos, aquele camponês com ar eminentemente triste e solitário, resolvera iniciar sua jornada no aprendizado da língua escrita. Ele precisou de cinco anos para escrever sua primeira frase. Algumas professoras diziam que, na verdade, ele já tinha aprendido, mas algo o bloqueava para efetivar e consumar o ato da escrita. Sua primeira frase foi também a sua última. Ninguém sabe dizer mais sobre o acontecido. Não tinha filhos, não tinha família, praticamente não tinha pertences. Colegas de trabalho e da escola, professoras e todo o pessoal da pequena cidade, formada basicamente pela órbita dessa grande fazenda de eucaliptos, ficaram perplexos, silenciosos, atormentados. Tudo já parecia triste e sombrio por demais, quando o prefeito, na verdade, o líder comunitário do vilarejo, toma uma decisão para tentar ajudar a cidade a compreender aquele fato. Ele convida e contrata um escritor. Para escrever a biografia do camponês? Para narrar aquela história trágica? Para dar aulas mais interessantes de escrita na escola local temendo que essa tenha sido a causa do suicídio?
Ele não chegou a balançar a cabeça em nenhuma direção, ou seja, não afirmou nem negou nada. Apenas me disse com um tom muito sincero: "Não sei. Quem sabe, você podia escrever o que o Arlindo não sabia mais."