28 de nov de 2006

Texto para apresentação da exposição dela

“Quando algo é belo, examine-o com cuidado em busca de uma verdade oculta.”
George Bernard Shaw


A memória é nossa fantasia e toda história que precise recorrer a ela, será fantasiosa, mas não necessariamente falsa. Acredito que ao pegar o atalho certo, a memória pode contar verdades especiais.


Quando fomos comprar sua primeira máquina, um homem branco e pálido desnudou o pinto da pequena câmera quase como um cafetão trêmulo. Fazia um frio delicadamente malvado - aquele frio que anuncia o inverno de maneira sádica. Então tentei falar qualquer besteira com o homem que esbravejava pouco jeito em seu francês áspero e impaciente. Enquanto eu o distraía, ela ganhava tempo para finalmente conversar reservadamente com a máquina. E minha destreza só foi em guardar na memória as primeiras palavras que trocaram aqueles dois amantes em pleno balcão da loja de fotografia. Não falaram absolutamente nada, aparentemente. A câmera foi embalada, seguimos nosso trajeto. Eu, ela e aquela câmera, acomodada sem seu pinto, dentro da caixa.

Na infância, alguns brinquedos são verdadeiros deuses, orixás. A boneca de pano é uma pequena nossa senhora encardida e torta. O carrinho vermelho é Xangô dando voltas no mundo. Com o passar do tempo, buscamos alguns outros correspondentes para aqueles rituais, mas geralmente não obtemos muito sucesso. É comum então, mesmo já adultos, reagirmos como naqueles tempos: viramos crianças grandes e bobas com nossos brinquedos na mão. Talvez Ingrid não tenha tido uma infância normal. O fato é que ela não se comportava como uma criança que acabara de receber sua pequena divindade personificada num brinquedo, na câmera nova. O olhar é um desespero, o enquadramento de cada olhar, uma angústia. Ingrid parecia muito mais uma mulher que acabara de descobrir um delicado e íntimo jeito de se relacionar com o mundo. Descobriu seu orgasmo peculiar, um jeito de ser, um alívio para permanecer. Acredito que não se deve falar sobre a fotografia de Ingrid. Pode-se falar sobre Ingrid. Pode-se falar sobre a fotografia. Mas a relação entre essas duas mulheres deve ser sentida, muito mais do que falada. Palavrear essa fidelidade promíscua de sensações – olhares, enquadramentos, desespero e angústia – é quase como tentar impôr regras sobre a brincadeira, horários determinados para jogar bola. Como bons pais, talvez seja realmente inevitável. Mas acho que esses olhares que essa pequena senhorita Mara Cruz Klinkby reuniu convida-nos a irresponsabilidade.

Quando revelado, esses olhares, há uma intimidade que se expõe – e toda exposição desse tipo é por demais cara. Desses olhos inquietos, ela nos apresenta aqui sua particular e delicada pornografia poética. Permitam-se.

P.S. Para conhecer a fotografia dela.

5 de nov de 2006

bocejo

A morte noticiada é quase como um bocejo. De maneira que foge do controle o bocejo daquele homem ali, meio alto e com cara de pão sírio, gera um bocejo quase que reclamando a antologia de um sono que não existe, a insônia deixando pegadas pelos dentes. Então a notícia da morte, mesmo essa, quase longe não fosse a proximidade da palavra, reclama de outras mortes, sem controle, a memória boceja ao coração outras mortes, outros sonos, são meus dentes. E quando ele morre dormindo, a notícia sem sono chega acordando sem cabimento as gavetas sem verniz. Então, bocejo, sinto esse sono doloroso da morte, e logo depois retorno. Daniel morreu um pouco das minhas mortes também.

"Afinal , quem sou?
Como traduzir-se
quando a tradução
pode ser a mais pungente morte
da arqueologia de mim
a sete chaves secretamente embalsamada?"

Daniel Cruz Filho