28 de mar de 2008

problema

Traga-me um problema, por favor. 
O homem desorganizava a rua com seu pedido inconsequente, incomodando aquele povo suado, engravatado, saltos e tropeços.

O homem precisava de problemas. Aquilo me inconformou. Ali, sem reação, estirado em sua frente, fiquei sem forma. O homem gritava pedindo por problemas, com sede, quase uma fome. 

O pedido de esmola já ficou banal. Não comove. Aquele homem pedindo "traga-me, pode vir, problemas, preciso deles, dos mais escabrosos". Aquele homem alterou completamente a trajetória de todos que passaram por ali.

22 de mar de 2008

realidade artesenal

"Todo jornalista que não é muito estúpido ou cheio de si para perceber o que acontece no mundo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável".

Janet Malcom

21 de mar de 2008

acordar e dormir

Gostaria de acordar como eu durmo, e dormir como eu acordo. 
Agitado, durmo querendo não me render ao fim do dia, arrastando a cabeça fervilhante pelos corredores do sono. Quando acordo, sou quieto, tranquilo, preguiçoso sempre me falta mais sono - talvez o sono que não presenciei quando fui dormir.

Essa inversão é meu descompasso.  

12 de mar de 2008

paladar



Não é o mistério ingrediente para esses dias. Existe sim uma pitada do que nos falta. O que reconheço talvez seja ainda mais inusitado: o desconhecido tem curiosidade e desejo, mas a memória da língua reinventa sabores. Ao calor de um fogo brando, um suspiro ansioso.
Para remontar o que nos alimenta.

11 de mar de 2008

presente ausente

E ela me estende a mão: não é cumprimento, tampouco um pedido de apoio para se levantar. A mão aberta. Ela me estende a mão e diz: te entrego meu vazio.

7 de mar de 2008

dose

Respeito os cervejeiros, os abstêmios, os crentes. Mas existe um lugar somente habitado com uma boa dose de whisky. Um lugar menos racional, e por isso mesmo, onde cabe muito mais coisas. Saravá Vinicius de Moraes!

ciranda insana

Entre todos os quereres, não quero mais. Querer. Solte a mão porque a rua já nos atravessou. Sem rumo. Todo amor é perdido, inconveniente é essa sina por enquadrá-lo, dar-lhe certeza e segurança. Frequento olhares eufóricos, ainda aceno para os desvios de olhares, certos assuntos não se comportam bem na mesa. Do bar. Ainda há a vã tentativa de mudar de mesa, de mudar de bar, altera-se a cor da bebida. Uma trégua, escuto ao fundo. O amor pede uma trégua. Me esqueçam, pelo menos essa noite. Corra, com o puro delírio do corpo. Descobri que no frenesi dos passos rápidos, na corrida, acabo por me distanciar da minha cabeça. O suor é sempre nosso parente mais autêntico. Aquele tio que acumula verdades durante o ano, e sem medidas despeja na ceia de Natal. Invento famílias pela observação. Meu avô era minha família inteira e agora sou órfão do meu filho. Meu pai não é minha família, meu pai será sempre algo de mim que foi além. Minha mãe nunca foi minha família, mesmo quando tentou ser uma família inteira. Família é esse embaralhado de vínculos, esses valores estranhamente preservados, obrigações delicadas, prazeres e falácias sobre sangue do meu sangue. Minha mãe é tão anterior a família, que nunca consegui entender ao certo o porquê da família. Já não cabe mais aquele clichê de filho de pais separados. Eu sou o filho separado de pais que nunca se reuniram. Persisto o equívoco, errar também é um desafio. Já quase não sinto fracasso. Levanto os olhos, revejo antigos e novos amigos, busco fora do tempo aquelas esquinas onde tudo corria com um pouco mais de vida, mais amor, menos fé nessa maldita eternidade das relações, um pouco mais de descuido, porque o cuidado também tem esse efeito colateral: engessa. Não há fórmulas secretas e quem já não as procurou: seja nos livros de auto-ajuda, nas fileiras da igreja prometida, nas terapias de tantas vertentes. Não há como condenar. Fui uma criança sem parâmetros. Díficil. Os amenos diriam, "muito vivo". Os julgadores, "um capeta". Decepei uma plantação inteira apenas para provar que existia sim um jiraya na Bahia. Meu avô não disse uma palavra. Dezena de anos depois, a única frase de ressalva sobre mim: "ás vezes você é muito crítico". Sou tão exigente comigo, que muitas vezes transborda ao outro. Um sozinhamento cruel que estipula suas próprias capacidades e define limites arbitrários, e impiedosamente pune cada passo que não for consistente suficiente para chegar lá. Inevitável que ao meu redor, isso escape. Estar sozinho há muito tempo deixou de ser ato de auto-suficiência ou requinte de egoísmo. É o caminho mais legítimo para chegar ao outro lado. Ao outro. De frente. 

De repente.