30 de mai de 2007

bilhete para nenhum de nós

Como é confortante saber que morrerei antes de minha mãe.

Nunca disse isso, e se ela me ouvir, desminto. A pior desgraça é um filho que parte. Desgraça maior ainda é um filho partido: a metade egoísta não cabe num mundo sem ela, a outra metade sensível precisa concentrar-se na perda como refúgio de não pertencer. Não há pertencimento pra mim num mundo sem sua presença. Ainda que esteja com o corpo respirante, repito: estarei morto. E guardo esse conforto, de morrer antes de minha mãe.

Como é frio esse lugar onde a solidão sobe o morro. Morro só.

A você que me encontrará: saiba que fui sempre muito íntegro a minha desgraça. Sou fiel ao que me dói. A você que passará por cima: não olhe pra trás, porque sempre permanecerei lá. Contamino o outro com arrependimentos. A você que nunca me verá: ao menos, você me leu. Talvez você saiba mais do que o meu olhar poderia dizer. Dissimulado, sou sempre uma companhia insuportável ao que reconheço.

Como é doloroso esse orgasmo que o amor me corta.

Quando sinto que a vida poderia se acabar ali, naquele exato instante: é onde retorno a vida. No encaixe de prazer sofrível, escalar seu corpo iluminado de sombras lindas culmina sempre em uma outra vida: não vida nova, mas vida que acaba de deixar pra trás mais uma morte. A felicidade não sabe falar minha língua. No silêncio das tuas pernas, nos compreendemos.

mi deseo

Meu desejo é o quintal por onde todas as minhas idades precisam atravessar para chegar em casa.

ver imagem: poster (tam. reduzido)

28 de mai de 2007

pequena crônica sem nuvem

Todo ônibus mente a rota. Sempre temi isso, sempre desconfiei, sempre guardei esse incômodo de descer do ônibus em deslugares, em desmundos. Hoje, o sorriso do cobrador foi o ingresso dessa viagem sem volta. No inverno, o sorriso de um cobrador numa madrugada é como uma estrela cadente: precisa-se fazer um pedido. Os olhos atentos, o espetáculo das mesmices, das rotinas, dos cotidianos. Tanta vida ajoelhada, as pernas já nem sabem o que tem pra andar, pra correr. Uma senhora gorda reclama com a jovem de piercing. "Eu gosto de cinema, mas vou menos do que gostaria". Vive-se menos do que gostaria. O casal atrás me reconhece. Não entendo onde começa um e onde termina o outro. Do lado do casal, um zelador do edíficio Maison de Toulouse, segue pensativo, introspectivo, com olhos perdidos nas cores da rua. Pensei que a gorda poderia reclamar menos, e fazer companhia, ainda que no silêncio, ao zelador. Um zelador de prédio com nome francês deve ser, no mínimo, alguém interessante. O casal sente tanta fome e tanta sede um do outro, que nada é o bastante, tudo ainda é pouco, devoram-se quase sem piedade de sobreviver-se a dois. Voltei pensando nesses personagens, nesses caminhos, no tropeço da jovem ao descer do ônibus.
Nós somos tão imprecisos, talvez por isso não sabemos precisar. Eu não sei precisar. Mas eu preciso, de você. O que não sei tem mais eu do que o resto.

22 de mai de 2007

Canção em campo vasto

Deixa-me amar-te com ternura, tanto
Que nossas solidões se unam
E cada um falando em sua margem
Possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
Cavalgando mares impossíveis
Em frágeis barcos e insuficientes velas
Pois disso se fará a nossa voz.

Deixa-me amar-te sem receio, pois
A solidão é um campo vasto
Que não se deve atravessar a sós.


Lya Luft

20 de mai de 2007

16 de mai de 2007

em busca de uma procura

Histórias de abandono tocam nossos próprios abandonos. Uma pessoa sem lugar no mundo acaba ocupando nossos lugares vazios - sombras e questionamentos que tanto nos desabitam. Eu falo de uma menina de sorriso de reinvenção, do sorriso enquanto vocábulo-ponte para ligá-la ao mundo desses, cheios de olhos carentes por saber que rumo ela teria tomado. Finalizo nesses instantes o material que testemunha a confecção desse filme, dessa procura por Janaína. No meio de tantas pessoas, a que menos sabe dessa história, é a própria Janaína. Porque saber é um recurso que jamais lhe abrigou, nunca teve serventia: janaína é pura criação, numa sucessão de abandonos, ela inventou um mundo em seu próprio corpo. Com uma dignidade absurda sua morada em si mesma foi tão profunda que ninguém conseguiu sair ileso de janaína: dos ambientes repletos de crianças carentes, ela rejeitava o colo, ela tinha olhar de atravessamento, ela construiu-se na falta de lugar que tinha recebido. Assistentes sociais, psicólogas, médicos, ela não deixou ninguém ileso. Cerca de vinte anos depois, a memória ainda viva, sabia-se os trejeitos, lembravam-se das canções que ela gostava, veja que espanto: janaína foi mais importante para todas essas pessoas que tiveram contato com ela, do que pra ela mesma. Compartilhei os olhares, fiquei bravo, emocionado, indignado e encantado. Só há esse jeito em mim: ser. Janaína me ensinou a generosidade em seu estado límpido. Lembro da minha chateação quando uma assistente reencontra janaína após duas décadas e com pouco cuidado nem cria terreno algum, já vai dispondo dos elementos da sua memória para tentar estabelecer vínculo imediato com janaína, na afobação, antes do "oi, janaína", ela começou a cantar precipitadamente uma canção da infância que ela tanto gostava. E Janaína me mostrou minha incompreensão. Foi generosa, mostrou como tudo aquilo foi o transbordar do contentamento - para aquela mulher, encontrar janaína era se reencontrar. E é um desconcerto completo essa situação. Tanto que é o abraço delas duas a maior plenitude dessas imagens. Foi quando Janaína se permitiu sair de sua morada e concedeu a "assistente" Maiana um punhado precioso de afeto. Agora, chego a lembrar com doçura da voz rouca da Maiana cantarolando infâncias tardias.
A diretora desse invento, a Miriam, foi minha segunda grande descoberta. Ela foi me concedendo olhar, aos poucos, balançava a cabeça sutilmente, como que esboçando caminhos, e residia sua potência no orquestrar todos esses processos - a finalização do filme em si, do making of - com sua "vida dupla" de psicanalista e documentarista. Dupla aos olhares formais. Pra mim, vida plena, uma história que alimenta e esfomeia a outra. Seus comentários sabiam sempre muito bem onde não gostaria de chegar, concedendo-me assim todo o território das possíveis chegadas.
Não sei bem onde cheguei, sintomático, dentro de uma história repleta de tão pouco pertencimento. Desconheço essa vizinhança que acabo de adentrar, mas reconheço que, onde quer que seja, eu cheguei aqui diferente. Eu também não sai ileso de Janaína.

15 de mai de 2007

Um “meme” é um “gene cultural” que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma.

Minha resposta ao desafio que Sergio me fez.

"Primeiro, desejamos uma mulher que nos faça sentir a Vida.
Depois, queremos uma mulher que nos faça esquecer a Vida.
Por fim, queremos apenas estar vivos."

Desabafo do Alfaiate de Vila Longe
Mia Couto, O outro pé da sereia.


Repasso o meme-provocação-desafio para: Alisson Villa.

14 de mai de 2007

en canto

Aguardar o que está por vir é não guardar. Esperança, muitas vezes é espera que pouco alcança. Ao inusitado, meu brinde: como é promissor não esperar pelo futuro.

6 de mai de 2007

farinha do desprezo

Mal secreto
Jards Macalé / Waly Sailormoon


Não choro,
Meu segredo é que sou rapaz esforçado,
Fico parado, calado, quieto,
Não corro, não choro, não converso,
Massacro meu medo,
Mascaro minha dor,
Já sei sofrer.
Não preciso de gente que me oriente,
Se você me pergunta
Como vai?
Respondo sempre igual,
Tudo legal,
Mas quando você vai embora,
Movo meu rosto no espelho,
Minha alma chora.
Vejo o rio de janeiro
Comovo, não salvo, não mudo
Meu sujo olho vermelho,
Não fico calado, não fico parado, não fico quieto,
Corro, choro, converso,
E tudo mais jogo num verso
Intitulado
Mal secreto.

- Ao vivo, Jards, Lanny Gordin, Arismar, Teatro Municipal... Arrebatador. Virada Cultural/2007.

3 de mai de 2007

guardiã do corpo

"O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, mora a casa. "
Mia Couto, na voz do Avô Mariano.

Ele está deitado no chão da sala. No primeiro olhar, uma sala vazia. No verdadeiro olhar, quase não há espaço para nada que não seja delicadeza. Está deitado com um pouco de suor, acabara de dançar horas, sozinho, naquela sala cheia. Uma habilidade inusitada criava coreografias que desvencilhavam-se de todos os móveis que ainda não existiam ali. Casa nova não é nova vida. É nova possibilidade de se habitar. Nova tentativa de morar-se. O corpo não sai ileso, cada mudança são todas as mudanças já feitas. Ao carregar a caixa, não era somente os últimos livros da Clarice, ou ainda os não-lidos livros do Borges. Estão ali também todas as pipas que nunca conseguiram voar no Imbuí, a escopeta que defendeu com muita firmeza a infância em Camaçari, o computador compaq quebrado, as fardas do montessori, do drummond, do portinari - todas rabiscadas com bravatas afetuosas da adolescência, o cd verde do legião e o disco dos trapalhões, entre outras tantas coisas. Maior do que o receio de adaptação ao novo espaço geográfico, é a insegurança do jovem apartamento de dois quartos: em que lugar ele irá me habitar? E, ansiedade própria das jovens construções, terei meu próprio quarto na sua memória?

Ele olha para o teto, onde um lustre antigo e cerimonioso oferta um pouco de luz. Nunca a sensação da moradia tinha feito tanto sentido. Não ter teto é deixar sua identidade vulnerável, por isso tão poucos conseguem resisti-la nas ruas. Quando um homem imprime sua batalha pelo direito da moradia, não são as paredes o principal. Ter uma casa é poder se habitar com plenitude.

Ele levanta, já descansado, e retoma a dança. Do quarto, vem a música. É Bethânia, cantando as palavras de Hilda, assim:

A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?