18 de fev de 2014

Next time

Para o celular, para a janela, para mim. Ela olha. Repete a ordem. Nossa desordem. O celular, a janela e eu. A janela do metrô reflete. O celular reflete. Eu reflito. Seu rosto. Era uma dança. A minha parte da coreografia era um olhar fixo em seus olhos, só com intervalos para piscar, e mais ao final, molhar as bordas. O celular, a janela e meu rosto. Na cadência, no improviso que cabia dentro do ritmo estabelecido, ela escrevia algo. Na sua frente, meu ímpeto era só um: aprender aquela língua o mais rápido possível para conseguir entender o que ela estava falando. Depois de um tempo, ela passou não apenas a escrever algo, mas também a tentar me ensinar aquela língua. Tudo sem perder a dança. O celular, a janela e eu. O tempo do celular e o da janela era pautado pelo tempo que ela conseguia ficar olhando nos meus olhos. Aquele mergulho que a gente dá e tenta contar quantos segundos consegue ficar debaixo d'água. Lembrei do mergulho, mas a verdade é que não tinha o tempo. Ninguém contava os segundos. Não dava para contar. Naquele momento não existiam números. Se existia alguma matemática sobrevivente, era apenas uma geometria afetiva muito simples, que revela os ângulos: para o celular, para a janela e para mim. 

Aqui, uma pausa rápida para dizer que vivo para encontrar um momento assim, capaz de tornar a matemática do mundo menos complexa.

A maioria das coisas que estou tentando relatar agora são pensamentos posteriores. Isso precisa ficar claro. Na dança, não passou absolutamente nenhum pensamento pela minha cabeça que não fosse: aprender aquela língua, entender o que ela estava dizendo. Até que pequenos soluços de angústia surgiram. Eu moro longe, mas eu moro em algum lugar. Não tenho a eternidade para aprender aquela língua. Depois, veio a vontade de querer traduzir rapidamente aquilo tudo para o vocabulário do flerte, da sedução de metrô, esse dialeto vagabundo que eu, aos poucos, perdia o sotaque e me tornava fluente. O celular, a janela e eu. No celular ela ganhava fôlego, na janela ela pegava impulso e em mim, ela pulava. Num desses pulos, uma lágrima escorreu do meu olho. Eu não sei explicar, talvez a concentração nos olhos tenha sido intensa, uma reação natural para lubrificar, aliviar a tensão. Ela olhou sem saber como reagir, demorou mais do que o normal mergulhada em meus olhos, agora devidamente úmidos. Quando eu finalmente achei que tinha compreendido aquela língua, ela estava ali mergulhada, sem repetir o que vinha dizendo. E eu não tinha memória alguma do que ela tinha dito antes. Agora, eu lembro o cheiro de cada detalhe, mas naquele momento eu era um estrangeiro que, ao acabar de aprender a falar bom dia, tinha mudado de país num piscar de olhos. Um mundo com uma matemática mais simples talvez seja também um mundo de memórias mais curtas. Eu só precisava que ela continuasse a dança. O celular, a janela e eu. Só isso. Não. Ela continuou mergulhada até que uma lágrima também escorreu. Ela sorriu. Quando eu achei que tinha aprendido algo daquela língua, ela diz algo completamente novo. Sorriu. Levantou. Era sua estação. Ela se aproximou um pouco, ainda carregando o sorriso e disse: See you next time.

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