3 de dez de 2014

Atento


Estar atento é isso, o avesso do tento de tentar, de esforço ou tentação, alvoroço e inundação. 
O mundo voa, mãe. O mundo e seu vizinho sem nome. O mundo e seu primo com fome. O mundo, pai. E porque não temos asas não podemos sentir falta delas? Quase não há ausência mais sentida. O chão é o acontecimento do mundo. É no chão que o mundo vive. Quando toca no céu, o mundo sonha. Quando o mundo se confunde, às vezes chove, às vezes lua, às vezes sol. O mundo também é isso, mãe, esquecido dos olhos, lembrado das ruas. Cozinhei uma infância, comi, deu uma dor de barriga, botei pra fora, o mundo continuou. Não sei lhe fazer sentido, hoje dói, o mundo não é mais o mesmo, eu não sou mais o mesmo. Respirar mesmidões, multidões, nadas, nada grande e nada pequeno, vazio alto, vazios baixos. Um vazio anão é perigoso porque você acredita que ele nunca vai crescer. Mas vazio cresce no outro, não em si. O menino percorreu o mundo até virar homem, mas ainda assim o mundo chegou primeiro. O mundo nem é rápido, mas sempre chega primeiro. As pessoas de mãos dadas, as mãos de pessoas soltas, o mundo não dá a mão. Atravessa a rua como eu, naquele dia. Eu quase morri. Se juntar todas as vezes que quase morri, ainda assim eu estaria vivo. Porque morte precisa de inteireza absoluta. Quase morrer me belisca pra viver por completo.
O mundo é uma piscina enorme de quase morreu boiando. Quem tá inteiro fica sempre no fundo, mergulhado. Se Deus não está morto, meu avô não está morto, o mundo também erra nas contas, mãe. Números, números, pai. Não me pergunte porquê eu sei. As coisas que a gente sabe com mais fervor são aquelas que não sabemos dizer porque sabemos. Eu queria continuar falando sobre essas coisas que não tem isso, nem aquilo, nem por causa, nem por onde. Mas eu também me perco, mãe. Eu também às vezes caio no chão e olho pro céu com os olhos chuvosos. Meu joelho ralado, metade que ficou ali mesmo. 

Eu estou atento, pai. 

Escrito em 2006, resgatado e editado, hoje.

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