Todas as histórias de amor já foram contadas. Ele disse, reticente.
Então sobra espaço para todas as outras que serão apenas sentidas. Ela, respondeu.
29 de jul. de 2011
19 de jul. de 2011
Relógio
“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que eles não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”
Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio, de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e Famas.
Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio, de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e Famas.
17 de jul. de 2011
29 de jun. de 2011
22 de jun. de 2011
4 de jun. de 2011
Tudo aqui do lado
Esta tudo acontecendo aqui do lado. Tudo. Se tiver faltando alguma coisa, pode pedir para aquela moça gorda e simpática ali.
[o tempo escolheu dois lugares no mundo para passar férias, com alguma frequência: nos olhos dos apaixonados e nos passos das enfermeiras]
Ela pensava que doença era um malabarismo com a morte. Foi aquela moça gorda e simpática que, sem perceber, mudou sua visão. Adoecer é a vida engasgando em si mesma. Quem morre, deixa de adoecer e se concentra somente em estar morto.
[foi a moça gorda que deu a notícia. Realmente, ela era muito simpática]
[o tempo escolheu dois lugares no mundo para passar férias, com alguma frequência: nos olhos dos apaixonados e nos passos das enfermeiras]
Ela pensava que doença era um malabarismo com a morte. Foi aquela moça gorda e simpática que, sem perceber, mudou sua visão. Adoecer é a vida engasgando em si mesma. Quem morre, deixa de adoecer e se concentra somente em estar morto.
[foi a moça gorda que deu a notícia. Realmente, ela era muito simpática]
21 de mai. de 2011
9 de mai. de 2011
Um dia sem a palavra
Então a gente inventou a palavra amor, pra tentar organizar esse barril de pólvora que acende por dentro. Se tem nome, a gente pode chamar. Se tem nome, a gente pode escrever um bilhete. Se tem nome, o correio vai saber o destinatário. Amor. E se por um dia essa palavra deixasse de existir. Sumisse do dicionário, dos poemas, das canções, das bocas dos românticos, das pixações na rua. Um dia no mundo sem a palavra amor. Veja, só a palavra desapareceria. O que faríamos? Inventamos as palavras para serem nossos escudos entre coisas e sentimentos e nós mesmos. Sentir algo que não tem palavra é puro delírio. Por um dia, estaríamos de volta a sala da alfabetização. Em um dia, como a tia da escola iria nos ensinar a inventar uma palavra para essa coisa sem nome que nos move por dentro? Como distinguir isso de uma caganeira ou um ataque de euforia?
Um dia sem a palavra amor, no mundo.
26 de abr. de 2011
Caminhos
Abro caminhos sem saber sobre sua serventia futura. Ligará o quê ao quê? Afluentes avulsos se encontram nas vias paralelas, comentam, falam de mim pelas perpendiculares. Abro caminhos sem saber quando estou asfaltando antigas estradas ou inventando novos chãos. Não pergunto, sigo, faço, ímpeto. Não é sempre assim. Abro caminhos sem saber da minha própria direção, porque minha sina está desamparada. Tudo é lazer, tudo é trabalho. Não escolhi uma vida com décimo terceiro. Então sei o peso de caminhar fantaseado de primeiro. Abro caminhos sem saber. A verve transborda nessas temporadas cheias de ausência do amor. Quando vier, teremos muito espaço para se perder, penso. Bobagem, e de bobagens também se compõe caminhos consistentes. Não há preparo. Existe só o ímpeto, um corpo atormentado que descobriu seu jeito de existir. Uns se recolhem, as vezes adoecem, esperam novas colheitas como se a entre-safra afetiva fosse um inverno. Eu não trabalho na perspectiva das estações. Nada me garante que haverá sequer um outono. O meu corpo é o caminho mais longo que já abri.
A perspectiva é o asfalto dos pragmáticos. Eu, sigo no chão da minha introspectiva.
Oiá libertou Xangô
Faziam festas para Xangô em Tákua Tulempe.
As mulheres eram loucas por ele
e os homens invejavam.
Eram festas de hipocrisia.
Em um desses festejos, prenderam Xangô
e o trancaram num calabouço.
Xangô tinha uma gamela onde via tudo o que acontecia,
mas havia deixado sua gamela na casa de Oiá.
Passaram-se alguns dias e Xangô não voltava para casa.
Foi quando Oiá olhou para a gamela de Xangô
e viu que ele estava preso.
Da prisão Xangô sentiu que alguém mexia na gamela
e pensou: "Ninguém além de Oiá save usá-la".
Xangô, então, lançou muitos trovões
para que Oiá ouvisse e o encontrasse.
Oiá recebeu a mensagem, acendeu a fogueira
e começou a cantar seus encantamentos.
Oiá pronunciou algumas palavras
e cruzou seus braços em direção ao céu.
Nesse momento, o número sete se formou no céu.
Um raio partiu as grades da prisão e Xangô foi libertado.
Ao sair, Xangô viu Oiá, que vinha pelo céu num redemoinho
e levou Xangô para longe da terra Tákua.
Oiá libertou Xangô com o raio.
Oiá libertou Xangô com o vento.
Oiá libertou Xangô.
Mitologia dos Orixás, organizado por Reginaldo Prandi (Cia das Letras)
As mulheres eram loucas por ele
e os homens invejavam.
Eram festas de hipocrisia.
Em um desses festejos, prenderam Xangô
e o trancaram num calabouço.
Xangô tinha uma gamela onde via tudo o que acontecia,
mas havia deixado sua gamela na casa de Oiá.
Passaram-se alguns dias e Xangô não voltava para casa.
Foi quando Oiá olhou para a gamela de Xangô
e viu que ele estava preso.
Da prisão Xangô sentiu que alguém mexia na gamela
e pensou: "Ninguém além de Oiá save usá-la".
Xangô, então, lançou muitos trovões
para que Oiá ouvisse e o encontrasse.
Oiá recebeu a mensagem, acendeu a fogueira
e começou a cantar seus encantamentos.
Oiá pronunciou algumas palavras
e cruzou seus braços em direção ao céu.
Nesse momento, o número sete se formou no céu.
Um raio partiu as grades da prisão e Xangô foi libertado.
Ao sair, Xangô viu Oiá, que vinha pelo céu num redemoinho
e levou Xangô para longe da terra Tákua.
Oiá libertou Xangô com o raio.
Oiá libertou Xangô com o vento.
Oiá libertou Xangô.
Mitologia dos Orixás, organizado por Reginaldo Prandi (Cia das Letras)
25 de abr. de 2011
24 de abr. de 2011
Soledad
Una soledad adentro
y otra soledad afuera.
Hay momentos
en que ambas soledades
no pueden tocarse.
Queda entonces el hombre en el medio
como una puerta
inesperadamente cerrada.
Una soledad adentro.
Otra soledad afuera.
Y en la puerta retumban los llamados.
La mayor soledad
está en la puerta.
Roberto Juarroz
y otra soledad afuera.
Hay momentos
en que ambas soledades
no pueden tocarse.
Queda entonces el hombre en el medio
como una puerta
inesperadamente cerrada.
Una soledad adentro.
Otra soledad afuera.
Y en la puerta retumban los llamados.
La mayor soledad
está en la puerta.
Roberto Juarroz
19 de abr. de 2011
Foi
Você estragou as minhas manhãs. Não foi sua culpa, eu sei. Mas queria te contar, porque preciso, não porque isso vá mudar algo entre nós. Aliás, nós não fomos capazes de mudar nada entre nós. Então, nada mais conseguirá. Nenhuma manhã será igual. Seu cabelo bagunçado era tão lindo, mas eu nunca consegui elogiar. Eu me alimentava do seu hálito matinal. Não consigo descrever nossas manhãs sem anoitecer os olhos.
Foi numa manhã dessas que você me ameaçou. "Não diga que me ama, porque eu posso acreditar."
Você acreditou.
13 de abr. de 2011
nome dela
ele me disse: "por favor, não me fale mais o nome dela. não quero mais ouvir, não aguento mais."
esperei alguns instantes e retruquei: "mas eu não falei o nome dela em nenhum momento hoje".
ele reuniu os joelhos, trouxe a respiração mais profunda que conseguiu e falou com uma voz baixa mas firme: "toda palavra parece o nome dela."
silenciamos o resto do tempo.
8 de abr. de 2011
a bunda
eu acho bunda a coisa mais poética desse mundo. mas tem seu valor subjugado a espetacularização do desejo, e aí parece até uma coisa vulgar. viver é vulgar. uma bunda é sublime. a palavra, a coisa, o movimento. a beleza fica. tudo o mais, desgasta, cansa, deteriora, se esquece, se esvai. não há absolutamente nada capaz de apagar da memória a lembrança de uma bunda bonita. a bunda é uma das poesias mais vertigionsas do corpo.
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